segunda-feira, 30 de novembro de 2015

O matrimônio antigo entre Estado e empreiteiras (Por Thiago Muniz)

Casamento de empreiteiras com poder começou com JK e teve lua de mel na ditadura.

O casamento harmonioso das empreiteiras envolvidas na operação Lava Jato com as obras públicas é mais antigo do que muitos pensam: começou no governo Juscelino Kubitschek (1955-1960) e teve sua "lua-de-mel" na ditadura militar (1964-1985). Essa é a análise de especialistas ouvidos pelo UOL e que fizeram uma retrospectiva sobre a história das empreiteiras no Brasil.

Autor da tese de doutorado "A ditadura dos empreiteiros", o historiador Pedro Campos avalia que, no regime militar, as empreiteiras começaram a se nacionalizar e se organizaram, ganhando força no cenário político e econômico. Para isso, elas criaram associações e sindicatos.

"Até a década de 50, eram construtoras que tinham seus limites no território do Estado ou região. O que acontece de JK pra cá é que eles se infiltraram em Brasília", explica Campos, professor do Departamento de História e Relações Internacionais da UFRRJ (Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro).

A construção de Brasília, fundada em 1961, foi um marco para a história das construtoras: foi a partir de então que elas se uniram. "Ali, reuniram-se empreiteiras de vários Estados e começaram a manter contato, se organizar politicamente. Depois, passaram pelo planejamento da tomada de poder dos militares e pautaram as políticas públicas do país."

Com a chegada ao poder dos militares, as empreiteiras passaram a ganhar contratos do governo muito mais volumosos que os atuais. "Se eles era grandes, cresceram exponencialmente no regime militar. Se elas hoje são muito poderosas, ricas e têm um porte econômico como construtoras, posso dizer que elas eram maiores. O volume de investimentos em obras públicas era muito maior. Digamos que foi uma lua-de-mel bastante farta e prazerosa", comentou.

Entre as centenas de obras feitas no período miliar, há casos emblemáticos como a ponte Rio-Niterói, que foi feita por um consórcio que envolveu Camargo Corrêa e Mendes Junior entre 1968 e 1974. Já a Hidrelétrica Binacional de Itaipu, que teve o tratado assinado em 1973 e foi inaugurada em 1982, foi feira pelas construtoras Camargo Corrêa, Andrade Gutierrez e Mendes Júnior. As mesmas Mendes Júnior e a Camargo Corrêa Transamazônica, que começou em 1970 foi inaugurada, incompleta, em 1972.

Apesar de denúncias de pagamento de propina terem sido escancaradas com a operação Lava Jato da Polícia Federal, o historiador acredita que a corrupção envolvendo empresários da construção e políticos é antiga.

"Todos os indícios são de que a corrupção não aumentou. O que a gente tem hoje é uma série de mecanismos de fiscalização que expõe mais, bem maior do que havia antes. Na ditadura não tinha muitos mecanismos fiscalizadores, e que o havia era limitado", afirmou.

A corrupção no Brasil vem desde os tempos do Império, começou na República com o Marechal Deodoro da Fonseca e as obras do porto de Torres no Rio Grande do Sul, entrou na República Velha, passou por Getúlio, aconteceu durante a Ditadura (alguém lembra das "polonetas"?), e continuou com Sarney, Itamar, FHC, Lula e agora a Dilma. Se hoje a Petrobras está envolvida em escândalos de corrupção, aconteceu o mesmo durante a era FHC (plataforma P-36). 

Tem o caso do metrô paulista, que não é investigado pelo Ministério Público nem pelo Judiciário controlado pelo PSDB, e do mensalão mineiro, que foi o exemplo para o mensalão petista (o Marco Valério está envolvido nos 2 casos). Só os ingênuos acham que o PT inventou a corrupção.

A polarização “Bem” & Mal” e a incrível energia de ódio e histeria que isso suscita é uma das formas mais comuns de manipulação dos corações e mentes humanas. O PT não inovou com os ditos mensalões e nem mesmo o PSDB foi o pioneiro quando mudaram as regras em 1997 para haver reeleições presidenciais. 

Roberto Jefferson, talvez porque ficou sem o “seu”, confessou na CPI dos Correios ao ser perguntado pela então deputada e ex-juíza Denise Frossard: “isso existe desde que sou deputado” – ou seja...antes da fundação do “salvador” PT e do ”criativo”, PSDB...mensalão...petrolão...nomes novos para práticas antigas...(SEM QUERER ABSOLVER NINGUÉM COM ISSO...).

Aliás, muito bem lembrado pela matéria que não foi diferente durante a ditadura militar ou mesmo antes, com outros mecanismos e siglas, quando,, além dos fatos apontados, as estatais e demais órgãos públicos essenciais sempre foram povoadas pelos "sobrinhos" (não concursados) dos generais.



A ponte Rio-Niterói em construção em 1972


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Thiago Muniz tem 33 anos, colunista dos blog "O Contemporâneo", do site Panorama Tricolor e do blog Eliane de Lacerda. Apaixonado por literatura e amante de Biografias. Caso queiram entrar em contato com ele, basta mandarem um e-mail para: thwrestler@gmail.com. Siga o perfil no Twitter em @thwrestler.

sábado, 28 de novembro de 2015

Newton Ishii: O Japonês "bonzinho" da Operação Lava Jato (Por Thiago Muniz)

Newton Ishii chegou a ser expulso da coorporação.

Sabe o agente da Polícia Federal que aparece em quase todas as fotos ao lado dos presos da Lava Jato que chegam à superintendência da PF em Curitiba?

Pois é, o nome dele é Newton Ishii.

Ingressou na corporação em 1976. Em 2003, sofreu um grande baque.

Foi preso pela própria PF durante a Operação Sucuri, suspeito de integrar uma quadrilha que realizava contrabando na fronteira do Brasil com o Paraguai.

Acusado de corrupção, chegou a ser expulso da PF. Ishii responde a processos criminal e civil, além de uma sindicância. Reintegrado, a Polícia Federal diz que Ishii goza de confiança da direção e é um excelente profissional.

O áudio que levou para a prisão o senador Delcídio do Amaral (PT-MS) e o banqueiro André Esteves pode ajudar a elucidar parte dos vazamentos acerca da Operação Lava Jato. Em um trecho da conversa, Edson Ribeiro, advogado de Nestor Cerveró, e Bernardo Cerveró, filho do ex-diretor da Petrobras, afirmam que um agente da Polícia Federal vende informações sigilosas.

O diálogo ocorre após Delcídio relatar aos interlocutores ter visto, com André Esteves, uma cópia da minuta da delação premiada negociada por Cerveró com os procuradores. O senador petista discute o teor do material, lamenta o vazamento e diz não saber quem vazou. Ele, então, ouve de Edson Ribeiro: "É o japonês. Se for alguém é o japonês". Diogo Ribeiro, chefe de gabinete de Delcídio, que também estava na conversa, complementa. "É o japonês bonzinho".

Delcídio pergunta quem seria o "japonês bonzinho" e o advogado de Cerveró diz: "É. Ele vende as informações para as revistas". Na sequência, o senador petista diz que a figura em questão é "o cara da carceragem, ele que controla a carceragem", informação confirmada pelo filho de Cerveró.

Mais tarde, o grupo volta a falar dos vazamentos. Edson Ribeiro levanta suspeitas sobre Sergio Riera, advogado de Fernando Baiano, apontado como operador do PMDB no esquema da Lava Jato, Alberto Yousseff, doleiro que assinou acordo de delação premiada e sobre o "japonês", nas palavras de Bernardo Cerveró. A degravação feita pela PF traz o nome "Milton", mas no áudio é possível ouvir que Edson Ribeiro fala em "Nilton".

Em julho, o blog Expresso, da revista Época, destacou a presença do agente da Polícia Federal Newton Ishii em diversas das prisões de detidos da Lava Jato na superintendência da PF em Curitiba. Ishii é chefe do Núcleo de Operações da PF em Curitiba e tem um passado conturbado.

Funcionário da corporação desde 1976, Ishii foi expulso da PF em 2003, acusado de corrupção e de integrar uma quadrilha de contrabandistas. Desde então, o agente já foi reintegrado, com "confiança da direção da PF", segundo a publicação, mas ainda seguiria respondendo processos criminais, civis e uma sindicância.

No pedido de prisão de André Esteves e Delcídio do Amaral, o procurador-geral da República, Rodrigo Janot, manifesta preocupação com o fato de o banqueiro ter tido acesso à delação de Cerveró. "Essa informação revela a existência de perigoso canal de vazamento, cuja amplitude não se conhece", diz o PGR. "Constitui genuíno mistério que um documento que estava guardado em ambiente prisional em Curitiba/PR, com incidência de sigilo, tenha chegado às mãos de um banqueiro privado em São Paulo/SP".

De acordo com o jornal Folha de S.Paulo, a Polícia Federal vai investigar o vazamento da delação de Cerveró. Segundo a publicação, o ex-diretor da Petrobras informou à cúpula da PF que só ele, seus advogados, familiares e procuradores tiveram acesso. Ainda conforme o jornal, Ishii disse a colegas que seu nome estava sendo usado como "cortina de fumaça" para manchar a Operação Lava Jato.

Poucos viram, é claro. O herói Ishii virou máscara e marchinha de Carnaval.

Ele lembra o marinheiro do livro “Relato de um náugrafo''. Em meados da década de 1950, o protagonista sobrevivera a um naufrágio e fora consagrado herói na Colômbia.

Ao entrevistá-lo, o repórter Gabriel García Márquez descobriu que a embarcação afundara porque o marinheiro e seus companheiros a haviam sobrecarregado com mercadorias contrabandeadas. Um falso herói. Um herói que retratou uma época.

Como o “Japonês da Federal'' retrata fracassos do Brasil deprê de hoje.
















"Ai meu Deus, me dei mal
Bateu a minha porta
O japonês da Federal

Dormia o sono dos justos
Raia o dia, eram quase 6h
Escutei um barulhão,
Avistei o camburão

A minha porta o japonês, então, falou
Vem pra cá, você ganhou uma viagem ao Paraná"

A marcha foi escrita pelo advogado e compositor Thiago Vasconcelos de Souza.



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Thiago Muniz tem 33 anos, colunista dos blog "O Contemporâneo", do site Panorama Tricolor e do blog Eliane de Lacerda. Apaixonado por literatura e amante de Biografias. Caso queiram entrar em contato com ele, basta mandarem um e-mail para: thwrestler@gmail.com. Siga o perfil no Twitter em @thwrestler.



quinta-feira, 26 de novembro de 2015

André Esteves: da ascensão ao presídio (Por Thiago Muniz)

Banqueiro do BTG Pactual foi preso na operação Lava-Jato.

É marcada por ambição e agressividade notáveis a trajetória que levou André Esteves de uma vida de classe média na Tijuca, Zona Norte do Rio, ao posto de um dos homem mais ricos do Brasil. O sócio do BTG Pactual, maior banco de investimento da América Latina, e dono de uma fortuna de US$ 2,7 bilhões segundo a Bloomberg foi preso nesta quarta-feira no âmbito da operação Lava-Jato.

Esteves nasceu no Rio em 1968. Foi durante a faculdade de matemática na UFRJ que entrou no meio financeiro. O estudante começou de baixo, trabalhando como técnico de informática do banco Pactual, de Luiz Cezar Fernandes — que, anos depois, teria o pupilo como desafeto. O estudante chamou a atenção dos chefes e foi promovido a trader de renda fixa do banco em 1990, mesmo ano em que se formou. Pouco depois, ascenderia à chefia do novo braço de gestão de recursos da instituição. Para os sócios mais antigos do Pactual, Esteves e outros dois jovens talentos — Marcelo Serfaty e Gilberto Sayão — eram conhecidos como “os meninos do Cezar”

Com os negócios que tocava dando certo, Esteves usou seus bônus de desempenho para aumentar gradativamente sua participação do banco. Enquanto isso, seu mentor Luiz Cezar Fernandes se afundava em apuros por causa de dívidas acumuladas em tentativas frustradas de diversificar seus negócios na área industrial. Na fragilidade de Fernandes, Esteves viu uma oportunidade de tomar o controle do Pactual. Em 1998, juntamente com outros sócios, adquiriu a participação de Fernandes em troca de empréstimos e de sua saída do banco.

“O Esteves havia sido dinâmico e atuante, mas sempre tive consciência de que ele venderia a mãe para ter o poder”, disse Fernandes à revista “Piauí” em 2006, no perfil “De elefante a formiga”, sobre sua derrocada no mercado financeiro.

Com Fernandes neutraliza, Esteves e seus sócios transformaram o Pactual em uma potência do segmento bancário de investimentos. Tanto que chamou a atenção do gigante suíço UBS, que acabou comprando o banco carioca por US$ 2,6 bilhões, um dos maiores negócios já feitos no país à época. A turma de Esteves seguiu à frente do agora chamado UBS Pactual.

Dois anos depois, enquanto levava banqueiros à bancarrota pelo mundo, a crise financeira se insinuou como mais uma oportunidade para Esteves. Vendo o UBS enfrentando perdas com o colapso das hipotecas americanas, o executivo teria se aliando a outro bilionário carioca, Jorge Paulo Lemann, em uma tentativa de comprar uma fatia da instituição suíça.

Sem sucesso.

Em julho daquele ano, Esteves e um grupo de sócios deixaram o UBS Pactual e estabeleceram uma nova firma de investimentos, a BTG. A sigla é de Banking and Trading Group, mas o que se comenta no mercado é que a intenção mesmo é significar “better than Goldman” (melhor que o Goldman Sachs) — detalhe que daria dimensão às ambições superlativas de Esteves para a nova empreitada.

Mas ele não havia desistido do UBS. Em 2009, fez nova investida, dessa vez oferecendo US$ 2,5 bilhões para ter seu banco de volta. Os suíços aceitaram. O retorno de Esteves como dono do banco — agora BTG Pactual — em que começara como técnico de informática foi considerado triunfal.

A intenção de Esteves era ser não só um grande banco de investimento no Brasil, mas também global. Para concretizar esse desejo, começou a expansão pela América Latina, com presença no Chile, Peru, Colômbia e México, mas o BTG também tem escritórios nos Estados Unidos, Inglaterra, China e, neste ano, concluiu a compra do BSI, empresa especializada em gestão de fortunas na Suíça.

Nos anos seguintes, o BTG Pactual se firmaria mesmo como o maior banco de investimento independente da América Latina. Em 2012, levantaria US$ 2 bilhões ao abrir seu capital na Bolsa de Valores de São Paulo (Bovespa). Hoje, pelo ranking do Banco Central, o BTG é o oitavo maior banco do país, com ativos totais de R$ 154,6 bilhões (posição de dezembro de 2014).

Outra característica do BTG nas mãos de Esteves é a atuação como “merchant bank”, que é quando uma instituição financeira faz um investimento em uma empresa como sócia – em geral, os bancos apenas financiam as operações. Foi dessa forma que o BTG passou a ser acionista da Sete Brasil (sondas), da Brazil Pharma (que tem, entre outras, as redes Farmais e Drogaria Rosário), da Rede D’Or (hospitais), Estapar (estacionamentos), Estre Ambiental, DVBR (rede de postos de combustíveis que conseguiu usar a bandeira da BR Distribuidora).

Grande parte desses negócios foi fechada na sede do banco, em São Paulo. O banqueiro não possui uma sala e trabalha ao lado de outros funcionários, em um grande salão que ocupa quase um dos andares inteiros que o banco ocupa no Pátio Victor Malzoni, edifício grandioso na Faria Lima, atual centro financeiro paulista.

A postura agressiva do BTG já rendeu muitos apelidos ao banco. Um deles é o de "piratas do mercado", uma vez que quando entram em um negócio, é para ficar com o lucro. Esse apetite pelo resultado fez com que a instituição entrasse nos mais diferentes mercados. Além de atuar em todos os segmento do setor financeiro, também tem presença no varejo, áreas hospitalar, infraestrutura, negócios imobiliários e academias de ginástica.

Mas nem toda tacada do banco de Esteves foi certeira. Um dos negócios que tem dado prejuízo é a participação da Sete Brasil, fabricante de sondas para exploração de petróleo. Para lidar com as possíveis perdas nesse negócio e em outros da área de óleo em gás, o banco tinha provisionado R$ 900 milhões em seu balanço, ou seja, já fez uma reserva para arcar com o prejuízo (Santander, Bradesco e a Funcef também são sócias da Sete, mas com uma participação menor). Ainda assim o lucro do banco continua crescendo. De janeiro a setembro, o resultado ficou positivo em R$ 3,4 bilhões, um crescimento de 32,15% na comparação com igual período de 2014.

Não foi a primeira vez, porém, que Esteves se envolveu em maus negócios. Em 2013, fechou parceria com Eike Batista para cooperarem na formulação de estratégia de investimentos. A dificuldade de encontrar saídas para o império “X” fez azedar a relação e teve impacto negativo nas ações do BTG na Bolsa. Quando a Eneva (ex-MPX de Eike) pediu recuperação judicial, no fim de 2014, o BTG tinha R$ 860 milhões de créditos a receber.

Embora boa parte das aquisições feitas pelo BTG tenha sido considerada ousada ou bom negócio, algumas chamaram a atenção por outros motivos. A principal delas foi a compra da participação em uma empresa da Petrobras na África. A fatia de 50% da PO&G, que explora campos de petróleo no continente africano, estava avaliada entre US$ 3 e US$ 3,5 bilhões em 2013. O ativo era considerado bom e havia interessados. A venda da participação, no entanto, foi feita por US$ 1,5 bilhão para o BTG.

André Esteves, preso nesta quarta-feira, disse em depoimento à Polícia Federal que esteve pessoalmente com o senador Delcídio Amaral (PT-MS) "no máximo" cinco vezes nos últimos doze meses. Ele diz que os encontros ocorreram em visitas do senador ao banco ou em outros eventos. Segundo ele, a última vez que estiveram juntos foi há cerca de um mês, na sede do BTG em São Paulo, para tratar de "temas da atual conjuntura econômica brasileira".

Esteves afirmou ainda que não conhece pessoalmente Nestor Cerveró e nunca teve qualquer forma de contato com o mesmo. Ele diz ter tomado conhecimento pela imprensa de que Cerveró poderia fazer a delação premiada, mas disse que não sabia que ele poderia citar o BTG ou ele próprio. O banqueiro negou ter pago ou oferecido qualquer vantagem a Cerveró para evitar a delação premiada. Esteves negou ainda conhecer o advogado Edson Ribeiro, também preso na operação de hoje.

André Esteves negou conhecer pessoalmente o senador Fernando Collor de Mello (PTB-AL), disse que nunca falou por telefone com ele e que "jamais" contribuiu para suas campanhas políticas. Questionado sobre o relacionamento do BTG com a BR Distribuidora, disse que o único negócio do qual se recorda foi realizado por uma empresa da qual alguns acionistas do BTG eram sócios, chamada DVBR. Segundo André Esteves, essa empresa realizou o negócio de embandeiramento de postos de combustível com a BR distribuidora.

O banqueiro disse que a questão relacionada ao embandeiramento já foi objeto de depoimento prestado por ele à Polícia Federal em Brasília, dentro do inquérito que investiga fatos relacionados ao senador Collor e reiterou desconhecer o pagamento de qualquer vantagem indevida em relação a esse negócio. André Esteves disse que nunca esteve na BR Distribuidora e nem com qualquer dos diretores investigados na Lava Jato. Ele acrescentou que havia uma diretoria e um conselho de administração da empresa DVBR, responsáveis pelo negócio do embandeiramento.


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Thiago Muniz tem 33 anos, colunista dos blog "O Contemporâneo", do site Panorama Tricolor e do blog Eliane de Lacerda. Apaixonado por literatura e amante de Biografias. Caso queiram entrar em contato com ele, basta mandarem um e-mail para: thwrestler@gmail.com. Siga o perfil no Twitter em @thwrestler.










terça-feira, 24 de novembro de 2015

Medidas Práticas de Retratação Pública da VALE (Por Thiago Muniz)

Além da indignação diante da IMPUNIDADE e da APATIA dos órgãos públicos no que tange a prevenção das catástrofes ambientais o que se esperaria de uma Nação séria, administrada por pessoas que entendem de fato do assunto, como no caso de Mariana:

1- Prisão preventiva do presidente da empresa SAMARCO e dos funcionários ligados diretamente ao setor ambiental e de segurança das barragens;

2- Prisão preventiva dos fiscais envolvidos na fiscalização das barragens;

3- Entrega dos cargos da superintendência do IBAMA de Minas Gerais, do secretário(a) de meio ambiente do estado de Minas Gerais e do município de Mariana;

4- Pedido formal de desculpas (não adianta muita coisa, mas o protocolo assim exige) da parte da ministra do ambiente, pois a co-responsabilidade da catástrofe, na minha humilde opinião, é do poder público;

5- Pronunciamento em rede de rádio e TV da presidente da Nação, apresentando desculpas à Nação (não adianta muita coisa, mas o protocolo assim exige), apresentando propostas de alteração na legislação ambiental a respeito das multas (são uma piada nesses casos), visando aumentá-las consideravelmente, instrumentalização dos órgãos de fiscalização para com atividades econômicas com potencial de geração de catástrofes ambientais por meio de fundo à ser criado e bancado pelas atividades e gerido pelo MMA e encaminhar essas e outras propostas em caráter de urgência ao Congresso Nacional.

Será que seria pedir muito?

Essa impunidade descabida tem de acabar.

Entendo que também a ministra do meio ambiente deveria ser presa.Afinal ela só recebe salários e mordomias?

Este fato, fruto da irresponsabilidade desta república imunda e imoral que não reúne as mínimas condições de representar o povo brasileiro.

A desonestidade de autoridades que nos governam é a principal causa desta barbárie.

Vocês já imaginaram quanto eles pagaram aos governos anteriores por conta da privatização?

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segunda-feira, 23 de novembro de 2015

E se fosse a lama da Petrobras na Praia de Ipanema? (Por Thiago Muniz)

"O propósito da mídia não é de informar o que acontece. É moldar a opinião pública de acordo com a vontade do poder corporativo dominante." (Noam Chomsky)

A maior catástrofe ambiental do século 21 no Brasil ganha novo ícone com a chegada da lama da Samarco (Vale, BHP) no Oceano Atlântico.

Mas quem se importa com a avalanche gosmenta de resíduos na Praia de Regência, no Espírito Santo? 

Em um litoral que o biólogo André Ruschi define como “a Amazônia marinha do planeta“? 

Pouco após a barragem da mineradora se romper, no dia 5, houve quem perguntasse, diante da desatenção inicial da grande imprensa: “E se fosse com a Petrobras?” 

Cabe agora atualizar a pergunta: “E se essa lama estivesse chegando na Praia de Copacabana? 

Ou Ipanema, Leblon, Barra? Ganharia a capa de Veja?”.

Por trás da lama da Samarco afirma-se o gosto amargo de um jornalismo subserviente, a serviço do mercado. Dezenas de pessoas estão desaparecidas em Mariana (MG). Entre elas, crianças.

As revistas seguem alienadas. Tivemos três fins de semana após o crime socioambiental, ocorrido no dia 5 de novembro. Nem por isso o tema mereceu alguma manchete de Veja, Época ou IstoÉ. 

Claro que o tema está lá, mas de forma protocolar. Os jornais até acordaram um pouco, diante da viralização do tema na internet. 

E estão cumprindo (ainda que em fragmentos, com peças isoladas de um quebra-cabeças) parte de sua função. 

As nossas revistas panfletárias, porém, não estão interessadas em contar à nossa classe média distraída – mas contar com todas as letras – que estamos diante de um dos episódios mais emblemáticos deste nosso capitalismo sôfrego, particularmente inconsequente. E violento.

Sim, as mineradoras fazem estragos por todo o mundo. Inclusive a Vale e a BHP, as maiores ao lado da Rio Tinto. O que não nos impede de constatar que as nossas publicações tipicamente vestais (essas que fazem capas sobre corrupções específicas de grupos políticos específicos) estejam tratando o caso de Mariana de forma secundária, como se fosse um detalhe – um desastre renovável. 

A Globo multiplicou os minutos sobre as mortes na França e parece sem fôlego para manter a catástrofe brasileira no noticiário. Mas não é só isso. Há um problema de postura. Não veremos o William Waack espumando por causa dos povoados arrasados e das espécies extintas. Não veremos analistas econômicos conectarem as vidas destruídas de pescadores (ou camponeses) à doce vida dos sócios da Vale.

E, portanto, no que se refere ao ambiente, o jornalismo brasileiro ganha a sua Escola Base. Mas às avessas: por falta de acusação, por falta de ímpeto de não somente constatar a responsabilidade da Samarco (Vale, BHP), mas constatar com a capacidade exclamativa que demonstra em outras situações. 

E sem que haja esforço de costurar uma narrativa maior, de questionar um sistema predador, que libera nossos recursos naturais para o saque bilionário por um punhado de empresas, livres para acumular (com fartas isenções fiscais) e poluir. Sem que se nomeie com todas as letras o partido – o PMDB – que controla o setor da mineração no país, amplamente financiado pelas próprias mineradoras. Quantas vezes o leitor ouviu o nome do PMDB em meio a essa lama toda?

A Escola Base foi aquele caso em São Paulo em que donos de uma escola infantil foram acusados de abuso sexual. A imprensa foi histérica a respeito (imaginem se o acusado fosse o dono de uma rede gigantesca de escolas privadas) e teve de fazer, tempos depois, um mea culpa: eles eram inocentes. Um mea culpa que simplesmente não é feito em relação aos linchamentos diários, espalhados por todo o país, de acusados – pobres, negros – de outros tipos de crime. 

A imprensa brasileira ainda é protagonista de espetáculos medievais de demonização de indivíduos, satanizações de acusados que servem também para justificar o tratamento excludente a grupos sociais inteiros. (A foto de Marcelo Carnaval, em O Globo, ilustra esse apartheid.) “Eles que não invadam nossa praia”.

E, no entanto, essa imprensa não se move (ou se move em círculos, sem ser incisiva) quando os suspeitos ou criminosos têm colarinho branco, CNPJ e gigantescas equipes de marketing. Briga com o porteiro, nunca com o patrão. Nossa elite não será algemada nem tratada como escória. 

Nem que seja ela a responsável por poluição ambiental e roubo de terras, destruição de biomas e especulação financeira assassina, nem que patrocine a crise, seja ela mesma a crise, nem que ela seja notoriamente atrasada (ou mais despudorada) em relação às demais elites do capitalismo mundial – porque ainda mais cínica e impune. Os cárceres estarão cada vez mais entupidos dos pequenos traficantes de drogas. Teremos 1 milhão de presos, 1 milhão de inimigos convenientes.

Estamos no país onde a ministra da Agricultura vai à Ásia e se deslumbra com mármores e tapetes, em uma missão oficial para promover o agronegócio brasileiro, esse agronegócio primo da mineração predadora, ambos a esmagar as florestas restantes, os povos indígenas e as populações tradicionais. 

E lá estava ela na Índia, toda alegre e intensa, vendendo as supostas maravilhas de uma nova fronteira agrícola, a do Matopiba (Maranhão-Tocantins-Piauí-Bahia), onde a família Marinho tem terras e onde o Cerrado ganha sua destruição diária, com o aval de governo e oposição, sem holofotes, sem proteção legal, sem lama, sem espetáculo – sem uma narrativa, uma cobertura diária que ao menos coloque em dúvida esse modelo, essa lógica.

Uma das coisas mais curiosas da imprensa brasileira a serviço da plutocracia é que ela não se dá conta de nossos rombos socioambientais nem quando o PT também deixa ali sua assinatura, nem quando o governo federal que fustigam tenha papel importante nessa destruição. A não ser que pretendam desprestigiar uma estatal. 

Porque o que querem é apenas colocar outro grupo político no poder, uma espécie de política de substituição de destruições, de preferência sem algum verniz compensatório, alguma inclusão em meio à implosão. É por isso que as próximas capas da Veja vestirão como presidiários apenas aqueles que a revista julgar convenientes; nunca os plutocratas com pedigree. Latifundiários da comunicação a minimizar a dor de multidões e a sacralizar o ódio das minorias. Em nome de seus pais, de seus filhos e apesar da lama no mar do Espírito Santo.

Primeiro enumeremos os donos. 

Já se sabe que 50% da Samarco pertence à Vale, a Vale que tirou o Rio Doce de seu nome e nele despejou lama tóxica. 

A outra metade pertence à anglo-australiana BHP Billiton, uma fusão da australiana Broken Hill Proprietary Company com a inglesa (radicada na África do Sul) Billiton, atuante nas veias abertas do Chile, Colômbia e Peru (onde tomou uma multa ambiental de US$ 77 mil após contaminação por cobre), no Canadá, Reino Unido e nos Estados Unidos, na Argélia, no Paquistão e em Trinidad & Tobago. Já protagonizou na Papua Nova Guiné uma contaminação fluvial histórica. As maiores mineradoras do mundo.

E a quem pertence à Vale? 

Esse capítulo costuma ser omitido, quando se fala de impactos sociais e ambientais. A empresa é controlada pela Valepar, com 53,9% do capital votante (1/3 do capital total). Com 5,3% para o governo federal, 5,3% para o BNDESpar, 14,8% para investidores brasileiros, 16,9% na Bovespa e 46,2% de investidores estrangeiros (este percentual cai para 33,9% no caso do capital total). De qualquer forma já temos que a Samarco – com a metade anglo-australiana e com esses investidores estrangeiros da Vale – tem mais da metade de suas ações nas mãos de estrangeiros.

E quem manda na Valepar, que controla a Vale? 

1) Fundos de investimentos administrados pela Previ, com 49% das ações; 

2) A Bradespar, do Bradesco, com 17,4%; 

3) A multinacional Mitsui, um dos maiores conglomerados japoneses, de bancos à petroquímica, com tentáculos na Sony, Yamaha, Toyota, com 15%; 

4) O BNDESpar, com 9,5. (Ignoremos os 0,03% da Elétron, do Opportunity e seu onipresente Daniel Dantas. E registremos que, com a Mitsui, aumenta ainda mias a participação de estrangeiros na Samarco.)

BNDES? Previ? 

Mas por que, então, a imprensa acostumada a fustigar o governo federal não fiscaliza com mais atenção a Vale, símbolo da privatização a preço de banana? 

Simplesmente porque não tem o saudável hábito – a imprensa brasileira – de fiscalizar corporações. E porque essas instituições não estão sozinhas. 

Porque tem a Mitsui, o Bradesco – o bilionário Bradesco. 

Com um governador petista dando entrevista coletiva na sede da Samarco. (O capitalismo não é para amadores.) 

Não há um acompanhamento sistemático do custo social e ambiental das aventuras plutocratas, sob governos de siglas diversas. Pelo contrário: o que há é um marketing despudorado.


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Thiago Muniz tem 33 anos, colunista dos blog "O Contemporâneo", do site Panorama Tricolor e do blog Eliane de Lacerda. Apaixonado por literatura e amante de Biografias. Caso queiram entrar em contato com ele, basta mandarem um e-mail para:thwrestler@gmail.com. Siga o perfil no Twitter em @thwrestler.




domingo, 22 de novembro de 2015

Refrigerantes são o novo tabaco do século 21 (Por Thiago Muniz)

Apogeu da vida saudável faz com que o consumo de refrigerantes nos EUA caia muito. Comer com os olhos’ aumenta o desperdício de alimentos.

Indra Nooyi foi taxativa em sua última apresentação aos analistas de Wall Street. O refrigerante, admitiu, “é algo do passado”. As palavras da executiva chefe da PepsiCo soaram como se desse por perdida uma guerra travada também pela Coca-Cola e a Dr Pepper. Os consumidores que preferem água mineral, chá e bebidas energéticas aos refrigerantes aumentam cada vez mais. Isso está fazendo com que o consumo de bebidas gasosas caia a níveis de três décadas atrás.

A quantidade de líquido consumida por um norte-americano é bem conhecida. São 680 litros por ano, o equivalente a três banheiras cheias até a borda. Isso significa que qualquer mudança de tendência no consumo é notada rapidamente, mesmo que seja mínima. Em outras palavras, quem compra um fardo de Dasani, Red Bull ou de Monster muito dificilmente comprará também um de Coca Zero, Diet Pepsi ou de Diet Mountain Dew, simplesmente porque substitui um pelo outro.

Esse é o ponto de partida em um mercado saturado de refrigerantes. Um quarto de todo esse líquido consumido é de refrigerante e 27% das vendas pertencem à Coca-Cola. Apesar do vício do açúcar, a distância com outras categorias de bebidas cai rapidamente, porque cada vez mais pessoas evitam as prateleiras das colas. É um negócio em crise, segundo a JPMorgan. Isso se deve em boa parte, como diz a Morningstar, às políticas feitas no âmbito da saúde.

Na última década o refrigerante se transformou no novo tabaco na batalha por uma vida saudável, uma luta que começou quando cidades como Nova York proibiram a venda de refrescos nos colégios. A mobilização ganhou força com as campanhas contra a obesidade e esse sentimento ficou bem forte entre a geração da ioga, que prefere uma dieta diferente da feita por seus pais. Como dizem os especialistas, “o consumidor agora faz sua própria escolha”.

O negócio dos refrigerantes chegou ao seu auge em 1998. Essas bebidas representavam então um terço da dieta líquida por habitantes. No começo do milênio eram consumidos 190 litros de refrigerante em média por ano, de acordo com as estatísticas da IBISWorld. Agora não chegam aos 145 litros. Ao mesmo tempo, nos Estados Unidos o consumo de água mineral cresceu 50% e o de bebidas energéticas dobrou de tamanho.

As estatísticas da Beverage Marketing Corporation também refletem essa mudança nos gostos. De fato, boa parte do aumento registrado nas vendas de bebidas não alcoólicas em 2014 é baseado em opções aparentemente mais saudáveis do que os refrigerantes. O consumo de água mineral, por exemplo, cresceu 7% até chegar aos 41,15 bilhões de litros em 2014. O de refrigerante caiu 1%.

O auge das bebidas energéticas

O volume do café expresso, como o vendido pela Starbucks, cresceu 11% no último ano enquanto o de chá aumentou 4%. As bebidas energéticas cresceram 6%, e as utilizadas no esporte, 3%. O crescimento das duas últimas categorias é importante, segundo A IBISWorld, porque são o substituto direto de produtos como a Coca Diet e a Pepsi Diet.

O nível de consumo atual de refrigerante por habitante não era visto desde 1986, segundo a Beverage Digest, e antecipa que em dois anos será superado pelo da água mineral. Não é somente o fato dos consumidores estarem acostumados a contar as calorias que entram em seu corpo. Eles se preocupam também pelo efeito de adoçantes artificiais como o aspartame. As redes sociais, ao mesmo tempo, alimentam o debate sobre as mudanças no metabolismo.

Esse estigma está no livro da professora de nutrição Marion Nestle, Soda Politics, no qual relata como a batalha contra as grandes empresas da indústria está sendo ganha e como está modificando a própria natureza do negócio. Mas como no caso do tabaco, ninguém dá o refrigerante como morto. De fato, os refrescos são a maior categoria de bebidas não alcoólicas por faturamento, com 77,40 bilhões de dólares (286,15 bilhões de reais) por ano. Em comparação, o da água mineral está em 13 bilhões (48,06 bilhões de reais).

Como dizem os analistas de Wall Street que acompanham as empresas dessa indústria, a mudança não se deve somente ao fato de existirem mais alternativas ao refrigerante do que duas décadas atrás. A demografia também mudou. As famílias não querem que seus filhos bebam refrigerante, o que torna mais difícil consumi-los em idade adulta. Os mais velhos também consomem menos. O cálculo demonstra que os distribuidores estão perdendo mercado a um ritmo de quase 2% ao ano.

Ao invés de lutar para aumentar o consumo de refrigerantes, os três grandes do setor decidiram se distanciar oferecendo novos produtos para responder aos novos gostos e aceitaram assim a mudança de tendência, criando alianças com empresas que comercializam bebidas alternativas como Monster Beverage e Green Mountain. A Coca-Cola dobrou sua carteira de produtos na última década enquanto o refrigerante representa um quarto do faturamento da PepsiCo.

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Thiago Muniz tem 33 anos, colunista dos blog "O Contemporâneo", do site Panorama Tricolor e do blog Eliane de Lacerda. Apaixonado por literatura e amante de Biografias. Caso queiram entrar em contato com ele, basta mandarem um e-mail para:thwrestler@gmail.com. Siga o perfil no Twitter em @thwrestler.



Ganhe dinheiro destruindo a natureza impune: Venha para o BRASIL (Por Thiago Muniz)

EI VOCÊ! QUER GANHAR DINHEIRO SEM SE PREOCUPAR COM O AMBIENTE?

VENHA PARA O BRA$IL.

Onde o amplo direito de defesa é garantido aos delinqüentes ambientais privados e governamentais por lei e onde a degradação ambiental é garantida pela política governamental da porteira arrombada!

Ia esquecendo, a população esculachada pelos acidentes, se comporta direitinho aguardando ser ressarcida algum dia pelos danos causados.

Quer melhor?!

Obs: favor não esquecer de apoiar nas eleições as principais quadrilhas da situação e oposição.

A análise de documentos do Departamento Nacional de Produção Mineral (DNPM), órgão responsável pela fiscalização de barragens de mineração em todo o Brasil, revela que a tragédia que atingiu Mariana (MG) pode se repetir em pelo menos 16 outras barragens de quatro estados do país. O drama que matou 11 pessoas, desapareceu com outras 12 e atravessou Minas Gerais e Espírito Santo em direção ao mar ameaça mais meio milhão de pessoas. O Cadastro Nacional de Barragens de Mineração de abril de 2014 mostra que 16 reservatórios e uma cava de garimpo possuem categoria de risco alto — quando a estrutura não oferece condições ideais de segurança e pode colapsar — e alto dano potencial associado — quando pode afetar e matar populações, contaminar rios, destruir biomas e causar graves danos socioeconômicos.

De acordo com cálculos feitos, se essas barragens rompessem, os rejeitos potencialmente atingiriam 14 municípios, cuja população soma 540 mil habitantes. Incluindo-se na conta a cava de Serra Pelada, no Pará, são 780 mil pessoas em risco. As unidades possuem volume de 84 milhões de metros cúbicos para abrigar o material descartado no processo de mineração de ferro, estanho, manganês, caulim e ouro. O montante é 50% maior que a quantidade de lama que vazou da Samarco, que pertence à Vale e à australiana BHP.

Os rejeitos ameaçam três das maiores bacias hidrográficas brasileiras: a do Rio Paraguai, no coração do Pantanal sul-matogrossense; a do Rio Amazonas, que irriga a floresta amazônica; e a do Rio São Francisco, que banha o Nordeste.

A estimativa foi feita a partir da localização das barragens, dos cursos d’água e da localização da jusante — o sentido da vazão dos rios. Foram considerados municípios em risco imediato aqueles que estão a menos de 50 quilômetros das barragens e no caminho da correnteza de igarapés, riachos e rios que banham a área.

Apenas para comparação, a lama que saiu de Mariana já percorreu cerca de dez vezes a distância de 50 quilômetros usada na estimativa e partiu do reservatório a uma velocidade de cerca de 70 km/h. Repetidas as condições da barragem de Fundão, vilarejos desses municípios seriam afetados em menos de uma hora.

Os dados usados são do DNPM e do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). Nenhuma das empresas responsáveis pelas barragens de alto risco forneceu laudos técnicos sobre o que aconteceria com seus rejeitos se as estruturas colapsassem, o que permitiria traçar uma rota mais certeira do impacto nos municípios e até dos atingidos indiretamente, por falta d’água, por exemplo. Esses estudos compõem os Planos de Ações Emergenciais de Barragens de Mineração, que incluem também a lista de procedimentos para salvamento de pessoas e contenção de desastres em caso de emergência, cuja formulação é obrigatória por lei.

— Não há porque as empresas não tornarem esses documentos públicos, é uma informação importante para a população. O comportamento é estranho e preocupante. Sugere que o plano possa não existir ou que tenha sido feito de qualquer maneira — alertou o geólogo Álvaro dos Santos, do Instituto de Pesquisas Tecnológicas.

O plano de contingência da Samarco só foi apresentado mais de uma semana após o incidente e criticado pelo Ministério Público de Minas Gerais. O documento não previa alerta sonoro nem treinamento de pessoas que moravam na área de risco.

Entre as barragens listadas como potencialmente perigosas, há empresas reincidentes em acidentes. Uma delas, a Imerys Rio Capim Caulim S/A, é responsável pelo vazamento de cerca de 450 mil metros cúbicos de rejeitos de caulim — mistura de água e barro esbranquiçado — de uma das bacias, em 2007. Os rejeitos atingiram igarapés e rios do município de Barcarena (PA). Em 2014, o Ministério Público Federal investigou pelo menos outros dois vazamentos dos tanques da companhia. Agora, a empresa aparece como controladora de três barragens de classificação A: alto risco quanto à conservação e alto dano potencial. Ainda assim, sua produção não foi reduzida nem paralisada.

O Brasil está entre os dez maiores produtores mundiais de caulim, minério fundamental para a produção de papel. A Imerys afirmou, em nota, que não paralisou as atividades porque a lei não obriga, e negou que as estruturas estejam fora de controle. “Entre 2013 e 2015 foram investidos cerca de R$ 15 milhões na segurança de operações de barragem”, disse a nota, que ressaltou ainda que sistematicamente são tomadas “medidas como monitoramento do nível das bacias, acompanhamento do nível dos lençóis freáticos e estudos de estabilidade dos maciços das bacias”. A empresa reconheceu que “onde está a planta de beneficiamento da Imerys, existem pessoas” e disse ter plano de emergência voltada para elas, mas não apresentou documentos nem detalhes.

— É óbvio que as atividades deveriam ser suspensas nesses casos, mas a fiscalização não obriga. Aliás, não há nem prazo para que a empresa melhore suas estruturas, ela pode fazer quando quiser — diz a procuradora Zani Cajueiro, especialista no assunto.

Em Corumbá (MS), a Vale controla a Urucum Mineração, dona de dois reservatórios de classificação A, usados na extração de manganês. Esse tipo de atividade costuma produzir como rejeito quantidades de arsênio, substância altamente tóxica, de acordo com o Centro de Tecnologia Mineral (Cetem), do Ministério da Tecnologia. A Vale negou que o rejeito seja perigoso e disse que manteve as operações a despeito do resultado negativo das condições das estruturas. Afirmou ainda que inspeções feitas em 2015 reenquadraram as bacias para baixo e médio risco, mas não apresentou documentos que comprovem isso.

Já a Gerdau AçoMinas, controladora da Barragem Bocaina em Ouro Preto (MG), disse que, em análise do fim de 2014, o reservatório foi considerado de baixo risco e que está fora de operação. Apresentou um documento do DNPM que mostra a mudança de classificação para nível C. No entanto, a página não tem data.

Dona de bacias de água barrenta encravadas no meio da floresta amazônica, a Taboca Mineração é a empresa com maior número de barragens na lista: são dez, usadas para mineração de estanho. A empresa admitiu que, em caso de rompimento, a maior delas poderia provocar uma onda de cinco metros de rejeitos, que atingiria áreas indígenas. Afirmou que nas bacias há água e areia de granito. As estruturas não estão em operação e passam por recuperação ambiental. A Taboca afirmou que adota criteriosos padrões de segurança, “inclusive com mais rigor que o exigido pela legislação”.

Especialistas, no entanto, questionam as condições das barragens, mesmo daquelas que não estão em situação de alto risco. Em Mariana, a barragem rompida era considerada de baixo risco.

— Quem produz os laudos são as próprias empresas ou consultorias contratadas por elas. A raposa cuida do galinheiro — disse Francisco Fernandes, pesquisador do Cetem.

O DNPM não respondeu à reportagem.

Ora, ora, apenas avaliem o valor das doações lícitas, dentro da lei, das empresas envolvidas nesse desastre ambiental de proporções bíblicas para com os chamados partidos políticos da situação e oposição!

Precisa explicar mais o quê?


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Thiago Muniz tem 33 anos, colunista dos blog "O Contemporâneo", do site Panorama Tricolor e do blog Eliane de Lacerda. Apaixonado por literatura e amante de Biografias. Caso queiram entrar em contato com ele, basta mandarem um e-mail para:thwrestler@gmail.com. Siga o perfil no Twitter em @thwrestler.



O mercado de serviços incompetente no Brasil (Por Thiago Muniz)

Setor de serviços concentra mais de 75% dos empregos formais do Brasil.

Área é uma das mais representativas no desenvolvimento do país e sobreviveu às últimas crises econômicas.

Um dos principais responsáveis pelo crescimento econômico do Brasil, o setor de serviços concentra mais de 75% dos empregos formais no país e 68,5% do Produto Interno Bruto, segundo o IBGE. Em termos de mundo, o indicador sobe: chega a 80% do PIB de países desenvolvidos. A área é tão imprescindível que nem mesmo as dificuldades financeiras dos últimos tempos sacudiram suas bases – a queda nas exportações brasileiras de serviços durante a crise, aliás, foi menor do que a de bens.

Essa matriz econômica, tradicionalmente conhecida por setor terciário – termo em pouco uso atualmente – se traduz em amplitude: da manutenção da conta bancária ao ensino em sala de aula, tudo é prestação de serviço ora voltado às empresas, ora aos consumidores finais. Por essa característica de abrangência, a categoria é uma área de muitas áreas. E, portanto, sinônimo de oportunidade.

Mas nem sempre foi assim. Até meados do século XX, o setor era tido por improdutivo, servindo apenas como complemento à indústria. Foi somente com a intensificação da atividade industrial que os serviços passaram a ser vistos com outros olhos. Hoje, são eles que levam a melhor. Só em 2012, geraram mais de 1,2 milhão vagas no mercado de trabalho, e tudo indica que continuarão bem pelos próximos anos.

É primordial que as lideranças desenvolvam competências (cognitivas e emocionais) necessárias para progredirem na vida bem como alavancar o negócio ao qual estejam à frente. Aliás, a palavra competência é definida no dicionário Houaiss como “soma de conhecimentos ou de habilidades”. Então, pelo menos para mim, não me soa ofensivo o termo “fulano é incompetente para tal ocupação”. Ele simplesmente não desenvolveu, ainda, as habilidades nem acumulou conhecimentos necessários para gerir certo projeto.

Então, qual tem sido o maior problema de gestão na esfera pública do Brasil? E na iniciativa privada, em grandes corporações, qual é o modelo de sucesso?

Manter um funcionário incompetente pode contaminar toda a equipe.

Nada incomum é ter um colega de trabalho que, aparentemente, não faz o

trabalho que deveria. Nas conversas de corredor, os colegas comentam: “não sei como fulano ainda não foi demitido". Ter "costas quentes", ou seja, amizades de elevados níveis hierárquicos normalmente é o que se assume sobre essa situação, muitas vezes incômoda para quem depende dessa pessoa para fazer o próprio trabalho.

Mas, a perpetuação dos incompetentes no mercado, -- ou daqueles que aparentemente o são -- tem uma rede mais complexa que a sustenta. "As pessoas são contratadas e são mantidas na medida em que representam a solução para o problema de alguém da empresa. Ele é incompetente para aquele problema visível, mas pode ser competente para resolver outros problemas que a gente não sabe. Tem contato com acionista majoritário, com o governo", reflete Gilberto Guimarães, professor da BSP – Business School São Paulo.

O professor também lembra que competência não é uma característica perene. "Eu estou competente para isso hoje, mas amanhã posso não estar mais, porque não sei guiar carro mecânico, só o automático. Se a empresa mudou toda a frota para carros automáticos, fiquei incompetente."

Guimarães elenca outros motivos que ajudam a alimentar esse sistema. Um chefe inseguro prefere manter pessoas incompetentes a ter subordinados que possam substituí-lo. Outros chefes acreditam que, por aquele valor que estão dispostos a pagar, não há como conseguir alguém mais competente.

Outro fator pode ser a legislação brasileira, que cobra da empresa encargos altos para mandar um funcionário embora. Ou, se ele for demitido, a vaga ficará congelada ou será extinta e não será possível substituí-lo.

"Os chefes não querem demitir ao menos que a empresa concorde em recontratar. Não veem como isso é um horror em termos de produtividade. A partir do momento em que o incompetente permanece, não há mérito em ser competente e você desmotiva um competente", acredita.

Guimarães ilustra o problema com o exemplo oposto colocado em prática por Jack Welch, escolhido pela revista Fortune o melhor executivo do século 20, CEO da General Eletric por 20 anos. "Toda vez que fechava um período, ele demitia quem não atingia o objetivo esperado. Demitia 10% da base da pirâmide e trazia gente nova. Assim, os que ficavam se sentiam escolhidos. Era um incentivo, pois o funcionário sabia que os piores seriam desligados", conta.

Mas o que fazer quando não é o mérito que define quem permanece na equipe e o trabalho de um está sendo prejudicado pela falta do outro? Gilberto acredita que o melhor a fazer é procurar o gestor e ter uma conversa franca sobre a questão. Explicar que, para desempenhar as funções, faltam os recursos que dependem do outro.

“Uma pessoa dentro da equipe é um recurso. Se você não tem aquele recurso, você tem que ser claro. Ser objetivo não é ser grosseiro. Se esse é o caso, diga isso para a pessoa e para quem cobra o resultado. Mas de maneira aberta”, aconselha.

Compartilho o relato do meu amigo Tom Valença, que recentemente sofreu com a incompetência de um segurança na ida de um restaurante junto com a sua companheira em Salvador - BA.

"A segurança que gera insegurança! (Por Tom Valença)

Na noite passada me dirigi com Bela Saffe ao Póstudo. Estacionamos na frente do restaurante na vaga central das três disponíveis. Quando começamos a subir a escada o segurança apareceu saindo do recinto ao lado e perguntou se estávamos indo para o Póstudo. 


Respondemos que sim apesar de acharmos a pergunta sem sentido já que estávamos na escada que conduz exclusivamente ao restaurante. Chegando lá e não encontrando ninguém conhecido resolvemos ir ao Boteco do França. Saímos e fomos andando para o França, pois com essa reforma do Rio Vermelho está difícil encontrar uma vaga para estacionar.

Quando estávamos quase chegando, passando na frente da pizzaria Cheiro de Pizza, escutamos alguém gritando e correndo na nossa direção. Era o segurança que se se dirigiu à Bela Saffe dizendo que o carro não poderia ficar na garagem do Póstudo já que não estávamos lá. 

Expliquei que iríamos procurar uns amigos e em breve voltaríamos. Ele continuou sem me olhar e disse que pela câmera viram a gente sair e que "ela" tinha de tirar o carro pois ali não iria ficar já que ele foi advertido. 

Como ele estava aumentando a voz eu disse que era comigo que ele tinha que falar já que o carro era meu e eu o conduzia. Nesse momento ele aumentou mais a voz dizendo de modo agressivo pra tirar o carro. Eu disse que não iria, pois o dono do Póstudo era o mesmo do Boteco do França e não iria continuar batendo boca com um sujeito tão mal educado. 

Nesse momento ele disse que iria furar os pneus do carro num tom ameaçador. Eu então aumentei a voz perguntei quem ele achava que era pra agir daquela forma. Ele continuou dizendo que iria furar os pneus. Dei as costas e fomos procurar Zé Raimundo no Boteco do França para relatar o ocorrido.

Como ele não estava, relatamos o ocorrido aos funcionários da casa que ficaram indignados e ligaram para o Póstudo para saber o motivo desse procedimento. 

O funcionário que ligou disse duas ou três vezes para quem estava do outro lado da linha que Zé Raimundo autorizou os clientes do França a usarem o estacionamento do Póstudo. Depois de encerrada a ligação, todos os funcionários presentes foram solidários e acharam tal comportamento descabido.

Comemos alguma coisa e voltamos para o Póstudo. O segurança dessa vez estava sentado na frente do recinto ao lado do restaurante. Subimos e fomos conversar com os funcionários. 

Um deles reconheceu o descontrole do segurança, mas ainda quis justificar alegando que na chegada deveríamos ter avisado que estávamos indo para o Póstudo - observe que ele não se referiu ao Boteco do França, mas sim ao Póstudo e não faz o menor sentido avisar que estamos indo para onde já estamos.

Descemos, o funcionário foi atrás para verificar se o carro estava intacto, e fiz questão de dizer ao segurança que ele não sabia trabalhar, que estava sendo incompetentemente ao ameaçar os clientes. Ele reagiu de forma agressiva vindo pra cima de mim e me chamando de incompetente. Rebati de forma mais agressiva afirmando que ele além de incompetente, era um imbecil.

O funcionário do restaurante pediu que ele se calasse, se colocando entre nós. Nesse momento o segurança se afastou dizendo que nós agimos de má fé. Eu mais uma vez disse ao funcionário que o segurança era mal preparado e por causa dele o restaurante teria sua imagem prejudicada pois eu iria publicizar o ocorrido.

Não sei que tipo de pressão fizeram no segurança, mas é injustificável esse comportamento. Sequer havia movimento no restaurante, era por volta de 20h - duas mesas ocupadas quando chegamos pela primeira vez, e duas quando chegamos pela segunda - para que ficasse óbvio tamanha reserva por vagas. Um dos próprios funcionários do França chegou a comentar que Zé Raimundo só tinha problemas desde que comprou o Póstudo.

Se o segurança estava ali para controlar o estacionamento ele deveria estar em seu posto tanto na nossa chegada quanto na saída, mas não estava, e nunca se dirigindo aos clientes de forma tão estúpida. Exemplos (ou antiexemplos) como esse só mostram o despreparo na prestação de serviços que em muito contribuiu para que a vida noturna da cidade se torne cada vez mais esvaziada.

A violência do comportamento do segurança poderia ter descambado pro envolvimento físico como recentemente aconteceu em um restaurante na Barra, por pura falta de qualificação e bom senso dos funcionários que deveriam promover a segurança, não a insegurança dos clientes.

PS - o nome do insegurança é Zé!
"

Esse ocorrido aconteceu em Salvador, mas com certeza acontece diariamente em todas as capitais e regiões metropolitanas deste país.

Falta treinamento.

Falta preparo.

Falta estudo.

Falta educação.

Falta respeito.

É por essas e outras o Brasil só regride.


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Thiago Muniz tem 33 anos, colunista dos blog "O Contemporâneo", do site Panorama Tricolor e do blog Eliane de Lacerda. Apaixonado por literatura e amante de Biografias. Caso queiram entrar em contato com ele, basta mandarem um e-mail para:thwrestler@gmail.com. Siga o perfil no Twitter em @thwrestler.



sexta-feira, 20 de novembro de 2015

O rio agora é uma calha estéril cheia de lama (Por Thiago Muniz)

Na mesma semana em que atentados deixavam Paris, cidade onde mora com a família, em estado de choque, o fotógrafo Sebastião Salgado viu um outro tipo de terror atentar contra o vale de sua infância e as águas que o banham: uma explosão de lama, que já vitimara moradores de Mariana, matava o Rio Doce.

Da China, onde estava, viajou 44 horas até o Espírito Santo para reencontrar o rio pouco antes de seu oxigênio extinguir-se de vez. Homem de ação, venceu o luto: encontrou-se com as empresas, os governadores dos dois estados atingidos, a ministra do Meio Ambiente e a presidente Dilma Rousseff e apresentou uma proposta para recuperar o rio, que envolve recursos da ordem de R$ 100 bilhões.

Parece muito diante das multas aplicadas (que vão para os cofres públicos) e da verba emergencial, mas é um plano realista quanto a padrões de desastres semelhantes no resto do mundo, e considerando os recursos de que a Vale e a Samarco dispõem. Segundo Sebastião, as gigantes do minério estão dispostas a arcar com o custo.

O problema estaria na destinação: como impedir que o dinheiro vá parar no remoinho do sistema ético-político que, como a lama, tudo digere e nada recicla? Nesta entrevista, pistas para a salvação e o testemunho da peregrinação do fotógrafo pelas áreas atingidas.

Relato de Sebastião Salgado:

"As notícias são péssimas. Hoje vim descendo até Colatina, Espírito Santo. Antes, passei por um distrito, Itapina, onde o rio estava morto. Continuei descendo, mais veloz que as águas, e quando cheguei a Colatina, ainda estava lindo, como sempre. Foi a última vez que eu vi o rio vivo. Fui embora e agora sei que morreu.

Olha, é um rio morto, mas morto de uma maneira que é morto mesmo. Tenho um amigo fotógrafo de natureza que estava em Governador Valadares e fotografou uns camarõezinhos fugindo do rio e entrando na terra, para morrer, porque morrer no rio não fazia sentido, não era mais o seu lugar. E umas ostras pequenas, que saíam da água, subiam na pedra (elas têm umas patinhas), mas a pedra estava muito quente. Então voltavam para a água e para a pedra de novo, onde acabavam morrendo. Uma agonia que a gente não consegue descrever. Nunca vi tanto peixe grande morto. Como é um rio nacional, de grandes dimensões, largo, tem peixes imensos. Muitos eu nem sabia que existiam. Ninguém sabia. Agora que o rio morreu, a gente passa a conhecê-los...

Eram peixes de profundidade, habitavam um departamento do rio que ninguém conhecia. Não se deixavam pescar, se protegiam, tinham outra função. Tudo morreu. Agora o rio é uma calha estéril cheia de lama. Uma hora vai decantar, começar a correr, mas sem vida. A vida futura em forma de ovos, plantinhas — está tudo sendo quase que asfaltado. E é a partir daí é que começa a acontecer a coisa mais terrível.

São 230 municipalidades no Rio Doce. Compostas, cada uma, de dezenas de aglomerações urbanas. Pouquíssimas dentre estas cidades têm estações de tratamento, mas o rio normalmente digeria os rejeitos. Agora, vai passar a ser um caudal infinito de bactérias, impossibilitando a ressurreição. Como você vai tratar essas bactérias para consumo humano? Como é que o gado vai beber só bactéria? E a agricultura de irrigação, típica das suas margens? É um desastre difícil de avaliar. São décadas, de 20 a 30 anos para recuperar.

Para o rio volar a viver é preciso construir sistemas de tratamento de esgoto em todas as cidades para evitar que rejeitos de toda natureza cheguem às águas. E construir também um sistema de matas ciliares para fazer o filtro na beirada de todos os córregos e dos pequenos rios. Falo também dos rejeitos químicos naturais: é um rio extremamente mineral, que não tem mais cobertura vegetal. O Vale é lavado pela chuva, com toda essa concentração de minas. Teremos que criar a mata.

As empresas. Através de um fundo, nos termos em que propus nos últimos dias. Estive com os governadores do Espírito Santo e de Minas, e com a presidente Dilma, que é extremamente favorável. As empresas são responsáveis. Não digo só no sentido de serem responsáveis pelo acidente, que em parte são, mas sabem de suas responsabilidades. Tenho certeza de que vão assumir a catástrofe.

R$ 1 bilhão? Pelo menos cem vezes isso! Falamos de R$ 100 bilhões. As multas? Essas vão para os cofres públicos para pagar despesas. Veja, a British Petroleum, por aquele desastre em 2005 no Golfo do México — um dano muitíssimo menor —, pagou US$ 20 bilhões para uma limpeza que durou uns dois anos. No caso do rio Doce, são décadas. As empresas estão de acordo, a presidente está de acordo. Tudo tem que ser estudado pelos órgãos competentes e pelos especialistas. Será um fundo compensatório de recriação e regulação do Vale. Para recuperar uma bacia tão grande quanto Portugal. A Suíça é menor que o Vale do Rio Doce.

Elas têm condições de arcar e vão arcar. A anglo-australiana BHP é a maior do mundo. A Vale é a segunda. Vão arcar porque têm que proteger suas imagens, têm compromissos com sustentabilidade, se esforçam para serem limpas, apesar de serem mineradoras. O problema maior não é esse.

Saber se esse fundo vai ser aplicado em seu destino: o Rio Doce. O dinheiro não pode se transformar em pequena praça pública para campanha de prefeito, não pode se converter em camisetas de grupamentos políticos, e não em natureza refeita. Temos que saber como esse fundo vai ser gerido.

Uma vez criado o fundo, penso que é preciso que seja depositado no BNDES, uma entidade nacional. Como ocorre com o Fundo Amazônia, que é bem gerido através deste banco. Uma vez aprovado o fundo, minha preocupação maior, meu maior medo, é realmente o que o sistema ético-político pode fazer com esse dinheiro. A Dilma acha que tem que fazer (o fundo). É a fiel da balança. Como já disse, falei com governadores, a ministra do Meio Ambiente, empresas. Mas não sou um salvador da pátria. Eu sou um homem do Vale, que dirige a única organização da região com um projeto de replantio e recuperação das nascentes, uma das variáveis, não a única, que tem que ser reconstituída.

Se ele era importante, agora se torna vital. O rio já havia diminuído brutalmente antes do desastre. Agora, a água é essencial para lavar a calha (isto é, o rio). Só esse projeto precisa de R$ 3 bilhões, a custos de hoje, atualizados ano a ano, para recuperar 377 mil nascentes. Já recuperamos mil delas, ou seja, o piloto está pronto, o projeto entrou no BNDES aprovado, mas não tem, por causa do contingenciamento, o dinheiro a fundo perdido necessário. Infelizmente, foi eliminado.

É o vale mais detonado do Brasil. Só tem 0,5% de cobertura florestal. As nascentes já estavam todas morrendo. Mas é delas que virá a fonte da salvação.

Por que aconteceu este desastre? Eu não tenho como explicar, nem cabe a mim. Há mais de 765 barragens como esta em Minas Gerais. Um acidente pode acontecer. E outros podem vir. Você tem um carro? Tenho certeza quase absoluta de que ele saiu de uma dessas minas. A sociedade de consumo em que vivemos faz com que tenhamos minas, com que tenhamos exploração de petróleo. As pessoas gritam porque polui, mas têm seus carros. Mas quem polui mesmo somos nós, é o nosso modo de vida. É este modelo que temos que questionar.

Qualquer coisa que se diga agora é um tiro no escuro. Todas essas minas são feitas para garantir o conforto no qual optamos por viver. As empresas fazem parte de tudo isso. E somos coproprietários às vezes sem saber. Você tem um pouquinho mais de dinheiro, seu gerente vai dizer: “Eu te compro umas ações”. Se você examinar que ações são essas, a Vale e a Samarco estão lá.

Eu estava na China, participando de um encontro da Associação Nacional de Fotógrafos Chineses no interior do país, com 1.200 profissionais. Soube com 12 horas de atraso. Eu já viria ao Brasil, tinha compromissos aqui. Cheguei no dia 10, como planejado, depois de 44 horas de viagem, e no mesmo dia já encontrei o governador do Espírito Santo.

E, três dias depois, explodiam os atentados em Paris, minha residência principal. Em duas semanas, duas tragédias, na minha terra de origem e na minha terra de moradia.

E o atentado foi a 150 metros da nossa casa. Lélia, minha mulher, coitadinha, ficou em estado de choque total. Nossa rua foi bloqueada. Metralhadoras. Só entrava com identidade. A antiga redação do “Charlie Hebdo” também fica pertinho de lá. A gente passa duas vezes por dia pelos bares e restaurantes alvejados. E vamos sempre comer alguma coisa no Petit Cambodge. É a vida. Vamos em frente.

Depois de chegar ao Brasil, meu primeiro reencontro com o rio foi dramático. No território dos índios krenak, um pouco acima da nossa cidade, Aimorés. Um choque brutal. A água que corria não era água. Era um gel. Um gel sem oxigênio. Morto. Por isto estamos clamando para que o fundo seja criado e gerido com responsabilidade. Que não sirva de base para politicagem. E que a população que perdeu o rio, a qualidade de vida, seu manancial, sua pesca, seja o destino de toda a energia. Chamo a atenção mas não tenho poder político. Somos uma pequena ONG que tenta ser referência em valores éticos. Mas tenho medo."

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quarta-feira, 18 de novembro de 2015

O 11 de setembro europeu: Cavalo de Tróia (Por Thiago Muniz)

A estupefação com os atentados terroristas em Paris é proporcional à incapacidade de se admitir as verdadeiras causas desta barbárie.


O Cavalo de Troia foi um grande cavalo de madeira usado pelos gregos durante a Guerra de Troia, como um estratagema decisivo para a conquista da cidade fortificada de Troia, cujas ruínas estão em terras hoje turcas. Tomado pelos troianos como um símbolo de sua vitória, foi carregado para dentro das muralhas, sem saberem que em seu interior se ocultava o inimigo.

À noite, guerreiros saem do cavalo, dominam as sentinelas e possibilitam a entrada do exército grego, levando a cidade à ruína. A história da guerra foi contada primeiro na Ilíada de Homero, mas ali o cavalo não é mencionado, só aparecendo brevemente na sua Odisseia, que narra a acidentada viagem de Odisseu de volta para casa. Outros escritores depois dele ampliaram e detalharam o episódio.

O cavalo é considerado em geral uma criação lendária, mas não é impossível que tenha realmente existido. Pode, mais provavelmente, ter sido uma máquina de guerra verdadeira transfigurada pela fantasia dos cronistas. Seja como for, revelou-se um fértil motivo literário e artístico, e desde a Antiguidade foi citado ou reproduzido vezes incontáveis em poemas, romances, pinturas, esculturas, monumentos, filmes e de outras maneiras, incluindo caricaturas e brinquedos. 

Várias reconstruções conjeturais do cavalo foram feitas em tempos recentes. Tornou-se também origem de duas conhecidas expressões idiomáticas: "cavalo de Troia", significando um engodo destrutivo, e neste sentido denomina atualmente uma espécie de vírus de computador, e "presente grego", algo recebido aparentemente agradável mas que acarreta consequências funestas.

O mundo inteiro é afetado pelos desdobramentos da guerra travada pelas potências mundiais contra o Estado Islâmico, a Al Qaeda e outras organizações terroristas. Mas esta não é uma guerra mundial, e os países que estão no seu centro causal e na arena dos combates não enchem duas mãos: EUA, França, Espanha, Inglaterra e alguns aliados.

Com suas guerras de dominação e de exploração no norte da África e no Oriente Médio realizadas a pretexto de combater regimes tirânicos, as grandes potências esgarçaram completamente a relação com o mundo árabe-muçulmano. E, com isso, trouxeram para o continente europeu o mesmo inferno que instalaram nas ex-colônias.

Há poucos dias, Tony Blair se desculpou pela “pequena falha” cometida na ocupação criminosa e ilegal do Iraque em 2003. Ele reconheceu que eram falsos os pretextos de George W. Bush de que o regime de Saddam estocava armas químicas de destruição massiva.

Apesar desta fraude, Blair [que com a confissão deveria ser julgado pela Corte Internacional de Haia] mesmo assim considera válida a guerra não autorizada pela ONU contra o Iraque, que visava se apropriar das reservas petrolíferas e devastar totalmente a infraestrutura do país, para depois os capitais estadunidenses e ingleses “reconstruírem-no”.

No início da “guerra preventiva”, como ficou conhecida a cruzada contra o “eixo do mal” desatada por Bush após o 11 de setembro de 2001, apenas a Inglaterra, a Austrália e a Polônia atuaram diretamente na invasão do Iraque. Outros 45 países declararam apoio não-material e não-militar, e não condenaram o descumprimento da decisão da ONU.

Nos anos subsequentes, vários países – dentre eles, de modo marcante a França – passaram a buscar participação na partilha do butim das guerras. O país governado por François Hollande inclusive foi com sede ao pote; foi mais realista que o próprio rei: em 2011, convocou uma coalizão bélica da OTAN para invadir a Líbia e assassinar Muamar Kadafi, antes mesmo de Obama tentar obter autorização congressual para atacar aquele país.

As incursões das potências mundiais para combater o “eixo do mal” se replicaram nos últimos anos, multiplicando a violência, os conflitos e a diáspora de milhões de imigrantes desesperados que tentam chegar à Europa, onde são repelidos com insuportável inumanidade e desprezo. Aylan Kurdi, o menino sírio de 5 anos, emborcado morto nas areias do litoral grego, é a imagem tenebrosa desta realidade.

Este processo reabre feridas históricas, e reacende a memória da humilhação ancestral dos descendentes árabes e muçulmanos que, na França, representam parcela significativa da população total francesa. A cadeia de transmissão hereditária reserva aos descendentes árabes e muçulmanos o pior dos mundos na Europa: primeiro os avós e bisavós, depois seus pais, agora eles e seus filhos, assim como seus netos e bisnetos, estarão condenados à classe de sub-cidadãos.

As políticas xenofóbicas e segregacionistas, juntamente com a inexistência de oportunidades iguais para os imigrantes e para os descendentes de imigrantes, ajudam a legitimar a cantilena doutrinária do Estado Islâmico, que é cada vez mais eficiente na cooptação de jovens destituídos de perspectivas de futuro.

O ataque à revista Charlie Hebdo em janeiro deste ano, também em Paris, foi um sinal da mudança de padrão da ação terrorista. A partir deste episódio, foram aperfeiçoados e integrados os serviços de inteligência e de monitoramento da União Europeia e dos EUA. 

Apesar disso, no último dia 13 o Estado Islâmico logrou perpetrar sete ataques praticamente simultâneos num intervalo de apenas 40 minutos. Isso evidencia a complexidade e a inteligência operacional desta organização, capaz de driblar os mais especializados serviços de inteligência do mundo.

A resposta impulsiva das potências à barbárie terrorista da sexta-feira 13 de novembro é mais guerra, mesmo que não se saiba qual nação será o alvo ao certo. A espiral belicista, sozinha, além de ineficiente, agrava consideravelmente a violência e os revides terroristas. O assassinato de Bin Laden não arrefeceu o ímpeto da Al Qaeda, como tampouco diminuiu a capacidade operacional do terrorismo.

Ao invés de promover a guerra de civilizações entre o ocidente e o islamismo, as potências dominantes deveriam entender que o inimigo principal está nas políticas empreendidas pelos seus governos com despotismo em todo o mundo, e de maneira mais acentuada no norte da África e no Oriente Médio.

Estas políticas são o verdadeiro ninho da serpente; são laboratórios de multiplicação do Estado Islâmico e de versões deturpadas do Islã. O problema não está no outro lado do Mar Mediterrâneo, mas dentro das fronteiras do próprio continente europeu, como revela a identidade dos terroristas. Dos cerca de 30 mil militantes do Estado Islâmico, mais de 2 mil deles são nacionais europeus. 

O horror desembocou na Europa de uma maneira perturbadora.


BIO

Thiago Muniz tem 33 anos, colunista dos blog "O Contemporâneo", do site Panorama Tricolor e do blog Eliane de Lacerda. Apaixonado por literatura e amante de Biografias. Caso queiram entrar em contato com ele, basta mandarem um e-mail para:thwrestler@gmail.com. Siga o perfil no Twitter em @thwrestler.



domingo, 15 de novembro de 2015

Mulheres Curdas: A resistência é a vida (Por Thiago Muniz)

Recentemente surgiram notícias nos meios de comunicação sobre o que está a ocorrer em Kobane, sobre a resistência curda contra o Estado Islâmico (EI). Vemos imagens de mulheres das Unidades de Defesa de Mulheres (YPJ) a lutar nesta região.

Apesar da surpresa que suscitaram as fotografias, não se deu muita atenção à análise de como ou de onde surgem estes grupos. Dilar Dirik é ativista no Movimento de Mulheres Curdas e investigadora sobre Curdistão e o movimento de mulheres.

Depois da ascensão do Estado Islâmico, o mundo deu-se conta de que há mulheres a lutar no Curdistão. Muitas pessoas que desconheciam o que ocorria nesta região surpreenderam-se ao saberem que as mulheres de uma sociedade que é vista como conservadora e dominada pelos homens lutem e até derrotem esta organização brutal. 

Os média capitalistas, e até as suas revistas de moda, apressaram-se a apropriar-se e a instrumentalizar a luta legítima destas mulheres como se fossem uma espécie de fantasia “sexy” ao estilo ocidental. 

Têm centrado o seu interesse em elementos muito superficiais como “os combatentes do Estado Islâmico temem as mulheres curdas porque se uma mulher os mata não vão para o céu”. Mas ignoram que este é um tema profundamente complexo e que há algo mais do que a luta armada neste conflito. O que há é um projeto político de emancipação radical.

As YPJ são as forças de defesa das mulheres, mas há uma luta bem mais ampla que vai para além do campo de batalha. Yekîtiya Star é a organização guarda-chuva do movimento de mulheres em Rojava (Curdistão ocidental / norte da Síria). 

Nos três cantoẽs de Rojava “no meio da guerra” são cumpridas as normas de copresidência [todos os cargos são compostos por uma mulher e um homem], de quotas, e criaram-se unidades de defesa das mulheres, conselhos de mulheres, academias, tribunais e cooperativas. As leis têm como objetivo eliminar a discriminação de género. 

Por exemplo, os homens que exercem violência contra as mulheres não podem ser parte da administração. Um dos primeiros atos do governo foi a criminalização dos casamentos forçados, a violência doméstica, os assassinatos por honra, a poligamia, o casal infantil, e o “preço da noiva”. 

Não surpreende que muitas mulheres árabes, turcas, arménias e assírias se unam às fileiras das organizações armadas e às administrações em Rojava. O objetivo é assegurar-se de que a sociedade interiorize o facto de que a libertação das mulheres é um princípio básico para a libertação e a democracia, em lugar de ser de exclusiva responsabilidade das mulheres. A revolução tem de mudar a mentalidade patriarcal da sociedade. 

Caso contrário, a história repetir-se-á e as mulheres, que participaram ativamente na revolução, irão perder todo uma vez se consiga a “libertação”. Foi isto que aconteceu a muitas mulheres noutros lugares do mundo. Por isto, o conceito de revolução deve incluir ativamente 50% da população, se pretende conseguir uma liberdade verdadeira.

O YPJ (Unidades de Defesa das Mulheres) não se subordina ao YPG (Unidades de Defesa do Povo); é um grupo só de mulheres que se organiza de forma autónoma e leva a cabo operações militares e treinos de forma independente. Mas nem todas as mulheres devem aderir ao YPJ, já que os grupos não são segregados por géneros. 

Ambos centram-se na educação ideológica e política, mas o YPJ põe muita ênfase na educação e no empoderamento das mulheres. Ambos grupos são forças de defesa legítima de Rojava e estão vinculados entre si.

Infelizmente, devido à intensidade da guerra, muitos dos projetos não podem funcionar como deveriam. A revolução em Rojava é ideologicamente próxima ao PKK e o sistema que está a ser estabelecido ali baseia-se no conceito de “Confederalismo Democrático”, que promove um autogoverno local radical e de base, com igualdade de género e ecológico, que questiona as fronteiras arbitrárias existentes. Mas agora em Kobane toda a cidade está mobilizada para a guerra.

No entanto, no cantão de Cizîre, que é o maior e mais estável dos três cantões, apesar da guerra foram criadas muitas cooperativas, escolas, conselhos, academias e estruturas autónomas de mulheres. Por exemplo, em setembro de 2014, em Qamishlo foi criada a Academia de Ciências Sociais da Mesopotâmia.

Os embargos económicos e políticos da guerra puseram em perigo alguns elementos sociais da revolução. Mas isso obriga as pessoas a encontrarem soluções criativas para os seus problemas. Quando sofremos os embargos, as pessoas dedicam-se ainda mais à agricultura e às cooperativas e comunas de trabalho. Mas, evidentemente, a crise dos refugiados, a guerra, os deslocamentos, o trauma e os embargos fazem que seja muito difícil implementar as ações de autonomia democrática como se pretendia.

Este ataque a Kobane é na realidade o último de vários ataques deste ano. O EI atacou Kobane várias vezes devido à importância estratégica e simbólica que tem. Durante dois anos, os curdos em Rojava têm lutado tanto contra o regime de Assad [Presidente de Síria] quanto contra as forças radicais islamistas, como a al-Nusra ou o EI. Mas a sua luta foi completamente ignorada até agora.

Os curdos há anos que advertem o mundo sobre o perigo do EI e acusam a Turquia, a Arábia Saudita e o Qatar de apoiar os jihadistas na Síria. O filho de Salih Muslim, o copresidente do Partido da União Democrática (PYD) em Rojava, morreu a lutar contra o EI em 2013. E isto foi um ano antes de o mundo tomar conhecimento da existência do EI. Muslim tentou falar com diferentes atores internacionais, mas rejeitaram as reuniões e até de lhe conceder os vistos. 

Apesar destes ataques, os curdos também foram excluídos da conferência de paz de Genebra II. Mas os mesmos estados que antes apoiavam os jihadistas são agora parte da coligação contra eles. E, uma vez mais, foram os curdos que lutaram sozinhos em Kobane. 

Durante um mês, o mundo previu que “Kobane cairá a qualquer momento.” Mas Kobane continua de pé graças a uma resistência extraordinária e graças à politização das pessoas. Os últimos ataques aéreos ajudaram, mas não teria sido possível resistir sem as pessoas que ficaram ali lutando.

Foi dito em várias ocasiões que a Turquia, com o fim de derrubar Bashar al-Assad e enfraquecer a autonomia curda na Síria, apoiou os jihadistas na Síria de forma económica, militar, logística e política. E se pôde fazer isto é porque é um importante aliado da NATO na região.

O mundo surpreendeu-se ao ver como o exército turco na fronteira podia literalmente ver os combatentes do Estado Islâmico mas não fazia nada. O Presidente de Turquia, Recep Tayyip Erdogan, estabeleceu mesmo condições para o apoio a Kobane: deveria criar-se uma zona neutra no norte de Síria “basicamente uma ocupação turca em Rojava. 

Além disso, os curdos deveriam unir-se à oposição sírio-árabe, e o Partido da União Democrática deveria distanciar-se do Partido dos Trabalhadores do Curdistão, PKK.

Evidentemente, estas condições são inaceitáveis para os curdos, que têm lutado durante dois anos por criar e defender a região. Estas condições eram também um abuso imoral da situação de desespero em Kobane. 

Salih Muslim respondeu afirmando que os curdos lutavam contra o regime sírio em Rojava e que se tinham oposto a ele desde o ano 2004: “Estávamos a ser torturados enquanto vocês jantavam com Assad”.

A Turquia sempre quis mostrar-se como vítima, recusando-se a participar na luta contra o EI. Mas, nesta guerra, a Turquia não é uma vítima e sim um agente ativo. Erdogan impulsionou esta zona neutra durante muito tempo. Antes, queria-a “para lutar contra Assad”. O que está claro é que a sua prioridade é destruir Rojava e não o Estado Islâmico.

Mediante o apoio a Kobane, ou pelo menos sem atacar aqueles que querem defendê-la, Erdogan tinha a oportunidade de demonstrar que era sincero a respeito do processo de paz com o PKK. Mas, pelo contrário, autorizou ataques contra os curdos que cruzavam a fronteira para defender Kobane, e bombardeou o PKK, que está vinculado às forças curdas na Síria, as quais ganharam reputação internacional ao serem o inimigo mais forte do Estado Islâmico. 







Com estas ações, Erdogan não só ajudou indiretamente e facilitou mais ataques do EI a Kobane, como também utilizou o estado de sítio como a sua oportunidade de ouro para enfraquecer o povo curdo, mostrando de maneira dramática a completa falta de interesse na paz com o PKK.

Representantes do governo da Turquia afirmaram que o PKK e o Estado Islâmico são o mesmo. Com as suas ações, Erdogan dá a entender que o projeto democrático de base, com igualdade de género e inclusivo da região é uma ameaça “terrorista” maior que o EI – que decapita, crucifica, e viola sistematicamente a mulheres e as vende como escravas sexuais.

Os confrontos entre os curdos e os grupos racistas e islamistas, bem como com a polícia na Turquia, mataram já muitas pessoas. Os curdos não querem que o exército turco intervenha. Querem que a Turquia deixe de apoiar o Estado Islâmico, que abandone o plano da zona neutra e que permita que os ativistas e as ajudas possam cruzar a fronteira e ir para Kobane.

Se o processo de paz terminar, se o Estado Islâmico cometer um massacre em Kobane, se mais pessoas morrerem em confrontos nas ruas de Turquia, os curdos, com razão, culparão Erdogan e o seu governo – mas também a inação da comunidade internacional, que evita o conflito com o Estado turco num momento em que apoia os jihadistas.

É muito difícil fazer uma previsão já que, há um ano, ninguém teria dito que o EI se converteria numa preocupação mundial, que os yazidis viveriam outro genocídio ou que Kobane entraria na história pela sua heroica luta. Mas acho que nas últimas semanas o mundo deu-se conta de várias coisas, como da verdadeira face da Turquia. Assim, não posso prever nada, mas posso dizer o que espero.

Espero que a administração de Rojava seja reconhecida sem ser cooptada pelas potências hegemónicas. Espero que as comunidades étnicas e religiosas, após esta guerra, ainda sejam capazes de se olhar nos olhos. Espero que as mulheres continuem a levar a bandeira da revolução sem pôr em perigo a libertação das mulheres. Mas para que isto ocorra, todos temos de nos esforçar mais para apoiar esta revolução.

Não quero falar “em nome” das valentes mulheres que lutam em Kobane, porque justamente agora muita gente está a tentar falar em nome delas. Em vez disso, posso resumir o que muitas delas estão a dizer:

Que a sua luta vai bem mais além da guerra contra o Estado Islâmico. Que estão a lutar por uma sociedade livre na qual as diferentes comunidades étnicas ou religiosas cooperem, na qual as mulheres sejam livres. Elas estão a defender os direitos das mulheres em todos os lados.

Durante a nossa greve de fome, recebemos um telefonema de Kobane. Em lugar de sermos nós a dar ânimo a elas, foram elas que reagiram primeiro e tentaram animar-nos, enviando-nos as suas saudações e solidariedade!

Assim, para além das palavras, o povo de Kobane e especialmente as mulheres, com as suas ações e a sua valentia, já nos disseram muitas coisas. Mostraram-nos o verdadeiro significado de um lema popular curdo: “Berxwedan Jiyan e” – “A resistência é a vida”.


Referência: Dilar Dirik é ativista no Movimento de Mulheres Curdas e pesquisadora sobre o Curdistão e o movimento de mulheres.


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Thiago Muniz tem 33 anos, colunista dos blog "O Contemporâneo", do site Panorama Tricolor e do blog Eliane de Lacerda. Apaixonado por literatura e amante de Biografias. Caso queiram entrar em contato com ele, basta mandarem um e-mail para:thwrestler@gmail.com. Siga o perfil no Twitter em @thwrestler.