sexta-feira, 31 de julho de 2015

Democracia no Brasil é frágil (Por Thiago Muniz)

É assustadora a fragilidade da democracia brasileira. O atual desequilíbrio entre os três poderes reflete, nada mais que a derrocada institucional da política entre nós.

A crise aberta com os sucessivos escândalos junto à administração pública, privada e de entidades não governamentais parece ter derrubado de vez as poucas convicções políticas da população. Mas, ao invés de ser tomada como necessário e indispensável conserto para algo melhor, ela é vista como um caos, uma desordem sem fim, a certeza de que “esse país não dá certo mesmo”. Urubus e mariposas infestam a mídia, os auditórios, os cultos e sessões plenárias, diuturnamente, para destilarem seu veneno, prognosticando o fim dos tempos.

O que mais se vê são os oportunistas que, faturando sobre a desordem, levam a melhor. Já transitaram ou transitam pelo Congresso inúmeras leis que fazem reserva de mercado para esse ou aquele setor; retiram direitos civis adquiridos; alteram a legislação trabalhista e previdenciária, subtraindo direitos da população; se apropriam de terras indígenas, entre outros. Muitas das conquistas da Constituição de 88 já foram por água abaixo, deixando nossa democracia mais pobre.

Mas o que assusta é a passividade da maioria da população em relação a tais abusos e desmandos. Uma avassaladora onda de “não tenho nada a ver com isso” campeia solta, especialmente nas redes sociais. Parece que todo mundo virou budista, preocupado com a transcendência da alma, a boa alimentação e o lazer saudável, ao lado do incondicional amor aos animais. É sintomático da despolitização que, no momento em que lhe estão roubando direitos, o cidadão faça de conta que não é com ele. E agradeça, agradeça muito pelo fato do terremoto ser no Nepal, do avião ter caído na Malásia, não trabalhar na Saúde, não ser índio nem negro. Ele cuida de sua alma, o resto “que se lixe”.

Mas, e o corpo? Como salvar nossos corpos das atrocidades de todo dia? Linchamentos se avolumam dia a dia. Espancamentos e mortes abarrotam os noticiários. Agressões físicas e verbais se tornaram tão comuns que já mais ninguém liga. Isso o “deixa pra lá” não resolve. O amor incondicional se esfumaça diante da criminalidade à solta. E cria cidadãos passivos, inertes, presas fáceis do desespero e da falta de sentido, facilmente conduzidos por opiniões as mais temerárias. Para não pensar, o sujeito acaba concordando, abrindo espaço para a conivência. E, com a moleza moral, vem a permissividade, ambiente perfeito para que todos os bandoleiros se sintam à vontade para agir, deixando nossa débil democracia mais agonizante.

Está faltando a "revolta" que o Camus já falava: O mal que apenas um homem sentia torna-se peste coletiva. Na nossa provação diária, a revolta desempenha o mesmo papel que o cogito na ordem do pensamento: ela é a primeira evidência. Mas essa evidência tira o indivíduo de sua solidão. Ela é um território comum que fundamenta o primeiro valor dos homens. Eu me revolto, logo existimos” (In "O homem revoltado", de Albert Camus, p. 35).

Chega às raias da incompreensão o que vem ocorrendo nesse nosso país. Porém, enquanto imperar a falta de vontade política, a ignorância cultural e a despolitização geral de uma população que aceita passivamente ser enganada e manipulada cotidiamente por toda forma de demagogia política, religiosa e mediática, a situação deverá continuar como está e ainda corre o risco de, infelizmente, vir a piorar muito mais.




"...Deus é um cara gozador, adora brincadeira
Pois pra me jogar no mundo, tinha o mundo inteiro
Mas achou muito engraçado me botar cabreiro
Na barriga da miséria nasci batuqueiro (brasileiro)*
Eu sou do Rio de Janeiro...
"

(trecho de Partido Alto - Chico Buarque de Hollanda)



BIO

Thiago Muniz tem 33 anos, colunista dos blog "O Contemporâneo", do site Panorama Tricolor e do blog Eliane de Lacerda. Apaixonado por literatura e amante de Biografias. Caso queiram entrar em contato com ele, basta mandarem um e-mail para:thwrestler@gmail.com. Siga o perfil no Twitter em @thwrestler.

O golpismo a ser vencido no Brasil (Por Thiago Muniz)

De um lado está um PMDB poderoso e inconfiável; de outro, um PSDB ensandecido pela paixão golpista. Uma união diabólica.

O Brasil não é uma republiqueta, e aqui não se repetirão os bem sucedidos ensaios do Paraguai e de Honduras. Nem outros, porque a sociedade também não mais aceitará a quebra da legalidade reconquistada após mais de 20 anos de ditadura militar. Muitas de suas cicatrizes ainda estão vivas, outras coçando para nos lembrar do que não poderemos jamais esquecer.

É o que não entendem as novas vivandeiras, felizmente ainda sem tropas para cortejar. Tampouco Aécio é Carlos Lacerda, em comum apenas o desapreço ao jogo democrático. E os muitos desvios de caráter. Também não surpreende a nova postura de FHC: antes dele, muitos homens públicos envelheceram sem sabedoria. É mesmo muito difícil sobrevier à propria biografia.

Eduardo Cunha é um Severino urbano, mais articulado, e com as mesmas raízes no atraso, a que se somam seus negócios com a ala mercenária do pentecostalismo. E por isso mesmo incontrolavelmente audacioso e na mesma medida perigoso. Renan Calheiros é o último vagido do latifúndio canavieiro do Nordeste. Mas todos estão na ativa. Um presidente da Câmara dos deputados, outro presidente do Senado Federal e do Congresso. Todos na linha constitucional da sucessão presidencial.

Dilma rodeada dos Urubus e o Tucano solitário Ordinário.
Charge: Aroeira























Há no país uma coorte assumidamente golpista reunindo imprensa – o maior partido da oposição –, setores ponderáveis da avenida Paulista e partidos políticos. Esta é, oficialmente, a postura do PSDB, açulado pela oscilação macunaímica [com o perdão a Mario de Andrade] de um PMDB que, não sabendo se é governo ou oposição, joga maliciosamente nas duas pontas contra a Presidente.

Mas esse PMDB, artífice da chantagem, é o maior partido da base do governo, que dele depende para governar! Desse PMDB é vice-presidente da República e articulador politico do governo o Sr. Michel Temer, que, em convescote em Nova Iorque anuncia, para aplauso dos presentes, que ‘manteria o Levy no Ministério’. Em quais circunstâncias isso seria possível?

De um lado, portanto, está um PMDB poderoso e inconfiável. De outro, um PSDB ensandecido pela paixão golpista. Uma união diabólica. Girando como pião entre uma força e outra, uma base parlamentar flébil, acuada, e um PT que do velho e aguerrido Partido dos Trabalhadores de anos passados guarda só a sigla.

Nessas circunstâncias movem-se as peças de um oposicionismo canhestro propelido pela irracionalidade da inveja, pelo despeito que alimenta o ódio hepático. Esse filme o Brasil conhece e repudia: já o viu em 1954 e em 1964 e sabe qual foi o preço pago pela democracia em ambas as oportunidades. Rejeitamos sua reprise masterizada.

O golpismo se desenvolve em cascata: o primeiro passo foi a recusa em reconhecer o pleito e sua lisura e a tentativa de ‘recontagem’, insinuação de fraude eleitoral; depois as ridículas tratativas visando a impedir a posse, depois os reiterados ensaios de impeachment (ora por motivação política, ora judicial, ora por isso e ora por aquilo, e sempre sem fundamentação ética ou legal); depois, promessa de ‘sangrar a presidente’, inviabilizando seu governo, ainda que isso cobre preço altíssimo à economia nacional e à vida de nosso povo. A tentativa é asfixiar o governo para vê-lo irremediavelmente sem fôlego.

Essa gente não leva em conta as consequências para a economia do país. Aí entra em cena a felonia do PMDB, que escala os presidentes da Câmara dos Deputados (este na expectativa de ser processado por crime comum [extosão] pelo STF) e do Senado Federal, de biografias conhecidas, para o ofício da sabotagem. São eles os verdadeiros líderes da oposição, juncando de trambolhos o governo da presidente Dilma, no afã de jogá-la e seu partido contra a população.

Na verdade, não se trata do salutar exercício da oposição – sem a qual não existe democracia digna do nome –, mas da tentativa de exterminar politicamente a presidente e seu partido, tentativa que em si mesma nega e repele o processo democrático. O leitmotifdessa oposição desvairada deixa de ser a crítica pontual ou em tese ao governo. Em seu lugar se instala a lógica do ódio que gera ódio, o mais eficaz fermento da intolerância que gera a violência, que descamba da ofensa verbal para a agressão física.

Este é um labor mesquinho, quando todos deveríamos estar unificados na busca de saída para a crise. Esta é a hora de buscar compromissos honrosos, é o momento de abandonar a mesquinhez da luta pequena que empobrece a política e passara pensar no país.

Que tempestades espera a oposição colher com os ventos que ora sopra?

A análise só se justifica como instrumento de ação. Se a tentativa de golpe está posta, que se erga a defesa do governo. Sem lamentar a oposição, mas, denunciando seus arreganhos golpistas, cuidar de sair do imobilismo em que se acham a centro-esquerda e os liberais. O momento, portanto, não permite nem a contemplação inativa nem a autocomiseração (“estamos no volume morto!” “temos que ser punidos pelas besteiras que fizemos!”).

Essas duas alternativas, se escolhidas por nós, favorecem o conservadorismo. Há uma terceira que igualmente nos enfraquece, a da automistificação (“O petismo no poder foi revolucionário, emancipou as massas e alijou do poder as classes dominantes!”). O primeiro passo, agora, é distinguir o fundamental do acessório. E o fundamental me parece ser, nas atuais circunstâncias, a sustentação do governo Dilma, até para poder alterar-lhe a equivocada política econômica. A pura crítica nossa só interessa, neste momento, aos setores golpistas.

Mas o governo tem que ajudar: ele precisa definir de que lado está. A presidente Dilma Rousseff precisa se convencer de que:

1) O Brasil não vive um 'pacto de classes': um esboço desse pacto, encarado taticamente pela burguesia, foi feito no governo Lula, pois o projeto tucano havia se esfacelado;

2) Fortalecida, a direita já fez sua opção, e ela é, neste primeiro momento, Aécio Neves, candidato ‘consagrado’ em uma campanha que para ela não acabou nem acabará antes de seu triunfo, independentemente do preço a pagar; 

3) Logo, só é possível ocupar o espaço da centro-esquerda, deixado vago, em parte, pelo próprio governo petista, com sua tática de conciliação permanente.

Isso implica definir uma agenda progressista mínima e buscar implementá-la na medida que as circunstâncias permitirem. Contrário senso, limitar as concessões à direita ao mínimo indispensável para sobreviver. Ou seja, procurar só fazer recuos que permitam avançar. Se necessário, dois passos à frente e um atrás, jamais o contrário.

A preocupação em reconhecer o ponto pode levar a paralelos exagerados, até beirando o ridículo. Mas há algo difuso e ominoso se aproximando nos céus do Brasil, à espera que alguém se dê conta e diga “Epa” para detê-lo? Precisamos urgentemente de um “Epa” para acabar com esse clima. Pessoas trocando insultos nas redes sociais, autoridades e ex-autoridades sendo ofendidas em lugares públicos, uma pregação francamente golpista envolvendo gente que você nunca esperaria, uma discussão aberta dentro do sistema jurídico do país sobre limites constitucionais do poder dos juízes… Epa, pessoal.

Se está faltando algo para nos avisar quando chegamos ao ponto de reconhecimento irreversível, proponho um: o momento da posse do Eduardo Cunha na presidência da nação, depois do afastamento da Dilma e do Temer.

Renan Calheiros é o último vagido do latifúndio canavieiro do Nordeste; Eduardo Cunha, um Severino Cavalcanti urbano, mais articulado, e com as mesmas raízes no atraso.




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Thiago Muniz tem 33 anos, colunista dos blog "O Contemporâneo", do site Panorama Tricolor e do blog Eliane de Lacerda. Apaixonado por literatura e amante de Biografias. Caso queiram entrar em contato com ele, basta mandarem um e-mail para:thwrestler@gmail.com. Siga o perfil no Twitter em @thwrestler.


quinta-feira, 30 de julho de 2015

O Rio de Janeiro coberto de cocô (Por Thiago Muniz)

'Está sitiada por coliformes fecais', diz biólogo sobre o Rio de Janeiro.

Estudo feito a pedido de uma agência de notícias aponta que atletas vão competir nas Olimpíadas de 2016 em águas contaminadas.

Atletas que vão competir nas Olimpíadas de 2016 terão que nadar e velejar em águas contaminadas. É isso que aponta um estudo feito a pedido de uma das maiores agências de notícias internacionais, a Associated Press, para analisar a qualidade da água da Baía de Guanabara, da Lagoa Rodrigo de Freitas e da Praia de Copacabana. O resultado foi ainda pior do que o imaginado. O biólogo Mario Moscatelli analisou os efeitos dessa pesquisa.

“São cinco anos desde que a indicação da cidade do Rio de Janeiro para as Olimpíadas e a situação é a mesma. De um lado temos as autoridades falando que está tudo sob controle, e de outro – ambientalmente falando – temos uma situação onde praticamente toda a bacia hidrográfica, todos os rios, são podres de lixo e esgoto. E isso tudo chegando tanto na baía como nas lagoas. Eu não sei o que as autoridades fizeram nesses cinco anos”, diz Mario Moscatelli.

O investimento em expansão de infraestrutura e saneamento básico foi de 4 bilhões de dólares, quando o Rio de Janeiro se comprometeu na candidatura a recuperar as águas da cidade. “As autoridades se comprometeram para sediar as Olimpíadas. O que fica muito claro é que nunca em tempo algum elas desejaram efetivamente recuperar a Baía de Guanabara. Investiram em um discurso paralelo. De água limpa só no discurso.A gente vive em uma situação de calamidade. Uma cidade eminentemente turística está sitiada por coliformes fecais”, completa o biólogo.

E os riscos dessa contaminação para a saúde são muitos. “Até câncer de fígado, através de uma cianobactéria que se desenvolve na Lagoa de Jacarepaguá e que durante o verão ela explode demograficamente em grande quantidade. A gente vive – claramente - uma crise em relação ao saneamento. A metrópole do Rio de Janeiro do século XXI, vive uma realidade de saneamento do século XVIII", afirma o profissional.

Segundo o relatório, se a cidade coletasse e tratasse todo o esgoto de forma imediata, ainda assim as águas ficariam sujas por muito tempo. Existe a possibilidade de 99% de infecção se o atleta ingerir, por acaso, três colheres de chá de água dos locais de competições aquáticas. A pesquisa menciona a Lagoa Rodrigo de Freitas, onde vão acontecer as provas de remo e canoagem, como uma das mais poluídas. “Não tem mais jeito. Essa vergonha não é fruto de falta de conhecimento nem de recursos. É falta de gestão e vontade política”, finaliza Mario.

#‎Rio2016‬ ‪#‎VelaEmBúzios2016‬ ‪#‎OlympicGames‬ ‪#‎COI‬ ‪#‎COB‬

Se as provas serão na baía de Guanabara ou em Búzios eu sinceramente não tenho a menor ideia e muitíssimo menos sobre teorias de conspiração visando tirar as provas da baía visando otimizar o desempenho de competidores de fora do Brasil. Do que eu sei, é que a baía continua podre e suja, com quase todos seus rios podres e com o crescimento desordenado comendo solto, onde tudo é denunciado, e nada acontece para reverter esse caos ambiental regado com centenas de milhões de dólares.

Portanto, se tem vírus, se tem bactéria, se tem protozoário, quanto tem, o que eu sei é que rios de merda e lixo rumam para a baía todos os dias e o resto é conversinha para enrolar trouxa. 

Enquanto isso, delinquentes ambientais governamentais continuam degradando praticamente todos os corpos d´água sem serem incomodados, pois todos são colegas do lado de lá da mesa.
O resto, como já disse, é conversa para enrolar trouxa!

Você pensa que a baía continua degrada por quê? Simples, se for recuperada, a mamata de empréstimos bilionários para projetos de recuperação de brincadeirinha acaba!

Ou seja, a baía degradada é fundamental para que de tempos em tempos, novos governantes estaduais obtenham empréstimos de centenas de milhões de dólares e façam a alegria dos mesmos em detrimento da vida da baía.

Simples e maquiavélico como deve ser a vida de uma colônia de exploração como o Brasil!

Como o Rio gastou bilhões e não despoluiu a Baía de Guanabara?

Em 23 anos, sete governos desembolsam R$ 3 bi e mais de 50% do esgoto despejado não é tratado.

Daqui a pouco mais de um ano, os melhores velejadores do mundo estarão colocando seus barcos na água, no Rio de Janeiro, em busca da medalha de ouro nos Jogos Olímpicos. Água limpa para os atletas significaria evitar imprevistos que podem comprometer anos de treinamento. Mais importante, a população da região enfrentaria menos doenças e poderia explorar a pesca, entre outros fatores econômicos.

A Olimpíada era uma oportunidade enorme para o governo do estado finalizar a execução do plano que anunciou com pompa durante a Eco 92: a despoluição da Baía de Guanabara. Ainda geraria publicidade espontânea para o atual mandatário Luiz Fernando Pezão utilizar numa futura campanha de reeleição. Mas a gente sabe que no espaço entre prometer e executar muitos administradores públicos se perdem.

Desde o final do governo Sérgio Cabral, a administração estadual começou a dar sinais de que não conseguiria cumprir com uma das promessas da campanha do Rio para sediar a Olimpíada — tratar 80% do esgoto que é despejado na Baía de Guanabara.

Em maio deste ano, o secretário estadual do ambiente armou um circo e mergulhou na Baía de Guanabara bem em horário de maré e corrente favoráveis para provar que não havia poluição. Ficou feio pra ele, que bate o pé e garante que a meta será cumprida apesar das evidências em contrário — lixo boiando, água completamente poluída e fedor insuportável em vários locais, inclusive nas praias de Botafogo e Flamengo, nas proximidades da raia olímpica.

Leonel Brizola (PDT) — renunciou e foi substituído pelo vice Nilo Batista (PDT) — , Marcello Alencar (PSDB), Anthony Garotinho (PDT-PSB) — renunciou e foi substituído pela vice Benedita da Silva (PT) — , Rosinha Garotinho (PSB-PMDB), Sérgio Cabral (PMDB-dois mandatos) e Luiz Fernando Pezão (PMDB). A bronca, que começou com uma promessa durante a Eco 92, já passou pela mão de sete governos e oito governadores diferentes.

E mais da metade do esgoto (55% segundo números do governo, 75% segundo ambientalistas) de uma região com nove milhões de pessoas ainda cai diretamente na Baía de Guanabara sem qualquer tratamento.

Eco 92 (ou Rio 92) foi a primeira grande conferência mundial sobre o meio-ambiente. realizada no mundo. Daí sua importância. Durante o evento, se fez um balanço dos problemas ambientais que o mundo deveria enfrentar. Na esfera estadual, um dos principais deles era a poluição da Baía de Guanabara. Em 2012, a Organização das Nações Unidas realizou a Rio+20, cujo foco foi principalmente discutir ações para combater o aquecimento global. No entanto, não houve um consenso sobre as iniciativas que as principais potências mundiais deveriam tomar para combater o problema.

As fontes de financiamento da despoluição variam: Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID), Agência de Cooperação Internacional do Japão (Jica) e governo do estado. Foram gastos mais de R$ 3 bilhões para a despoluição não chegar nem perto de ser completada.

Pesquisadores do Coppe/UFRJ fizeram um estudo a pedido do Comitê Olímpico Internacional (COI) e concluíram que, caso todos os projetos necessários fossem executados exatamente como deveriam, ainda se levaria pelo menos 10 anos para despoluir a baía.

Entenda como o dinheiro escorreu pelo ralo e a Baía de Guanabara não está nem perto de ser despoluída:

Falta de transparência

Em 2012, o então secretário estadual do ambiente, Carlos Minc, considerou a falta de transparência um dos principais problemas do Programa de Despoluição da Baía de Guanabara (PDGB). Os governadores anteriores não fizeram muito esforço para mostrar à população o andamento das obras previstas.

Minc prometeu que a questão seria solucionada com boletins mensais do governo no site do programa. Ele deixou o governo em abril de 2014 para retomar seu mandato de deputado estadual. A última atualização do site foi a publicação de um documento de 27 de maio de 2013 em que a Jica manifestava sua satisfação com o “adiantado estado de execução das obras”.
Ou seja, o problema não foi solucionado. Apenas falta de transparência, no entanto, não é capaz de explicar como tanto dinheiro foi diluído na água podre da Baía da Guanabara.
Problemas de gestão e execução

Na mesma época, Minc e o presidente da Companhia Estadual de Águas e Esgotos (Cedae), Wagner Victer, citaram também problemas de gestão como motivos para o Programa de Despoluição da Baía de Guanabara (PDGB) nunca ter alcançado seu objetivo. Superfaturamento de obras foi um deles.

Estações de tratamento foram construídas com o dinheiro de financiamento internacional, mas o governo não cumpriu com as contrapartidas de interligá-las com as devidas redes. Foram os casos das estações de São Gonçalo e Pavuna, por exemplo.

A incompetência para estabelecer responsabilidades entre os 14 municípios banhados pela baía também não ajudou. Enquanto o governo constrói estações para tratamento de esgoto residencial, parte das indústrias das margens dos rios que desaguam na baía seguem despejando poluentes na água com pouco controle.

Projetos equivocados

Outra falha, segundo ambientalistas, foi tratar a despoluição da baía como uma questão apenas de saneamento, quando também seria necessário um projeto ambiental. Assim, com a inauguração das estações de tratamento contidas no PDGB, o governo considera o programa finalizado — sem chegar nem perto de alcançar o objetivo de despoluir a Baía.

Um novo projeto, chamado Programa de Saneamento Ambiental dos Municípios do Entorno da Baía de Guanabara (Psam) está sendo colocado em prática nesse sentido. Custo: R$ 1,7 bilhão.

Mais uma vez, o BID entra com a maior parte do montante: R$ 800 milhões, enquanto o governo estadual arcará com R$ 330 milhões. Além desse montante, o Programa de Aceleração do Crescimento (PAC) do governo federal encaminhará outros R$ 570 milhões.

O dinheiro deve ser usado não apenas em obras de saneamento, mas também em convênios com os municípios para implantação de políticas sustentáveis.

Desperdício de dinheiro?

A meta para a conclusão do Psam é até 2016. Estamos no segundo semestre de 2015 e nada indica que o prazo será respeitado. Às vésperas da Olimpíada, o Rio deverá sofrer novas críticas de atletas por causa da incompetência em deixar a Baía de Guanabara em condições mais próximas das ideais para a disputa das competições de vela.

O ambientalista Mário Moscatelli, do projeto de monitoramento ambiental Olho Verde, que sobrevoa mensalmente toda a Baía de Guanabara e examina os focos de poluição, diz que falta vontade política ao governo do estado para resolver o problema. A despoluição da baía, na sua opinião, não é uma prioridade governamental.

Iniciativas paliativas com o intuito de diminuir o lixo na baía também não parecem estar funcionando. Os 10 barcos de coleta de lixo que o governo colocou na Baía de Guanabara têm seu trabalho — que é considerado insuficiente por Moscatelli — paralisado. Barreiras contra o lixo em rios também nào tem realizado o serviço.

A previsão do ambientalista é que, assim como na Copa do Mundo, governantes brasileiros perderão uma oportunidade de criação de legadocomo prometeram durante as candidaturas aos eventos esportivos. Moscatelli sugere a assinatura de um Termo de Ajuste de Conduta (TAC) entre o governo estadual e o Ministério Público Federal para que os projetos estipulados no Psam sejam realmente executados.

































































































BIO

Thiago Muniz tem 33 anos, colunista dos blog "O Contemporâneo", do site Panorama Tricolor e do blog Eliane de Lacerda. Apaixonado por literatura e amante de Biografias. Caso queiram entrar em contato com ele, basta mandarem um e-mail para:thwrestler@gmail.com. Siga o perfil no Twitter em @thwrestler.

Águas contaminadas são risco para atletas na Rio 2016 (Por Thiago Muniz)

Análise da qualidade da água encomendada pela Associated Press encontrou níveis perigosamente altos de vírus e bactérias em locais de provas.

Os atletas que vão competir nos Jogos Olímpicos de 2016 terão que nadar e velejar em águas tão contaminadas por fezes humanas que se arriscam a contrair alguma doença e não poder concluir as provas, de acordo com uma investigação da Associated Press.

Uma análise da qualidade da água encomendada pela AP encontrou níveis perigosamente altos de vírus e bactérias de esgoto humano em locais de competições olímpicas e paralímpicas. Esses resultados alarmaram especialistas internacionais e preocuparam os competidores que treinam no Rio, alguns dos quais já apresentaram febres, vômitos e diarreia.

A poluição extrema das águas é comum no Brasil, onde a maior parte dos esgotos não é tratada e uma grande quantidade de resíduos puros corre por valas abertas até riachos e rios que alimentam os locais das competições aquáticas dos Jogos Olímpicos.

Em consequência, os atletas olímpicos quase certamente entrarão em contato com vírus causadores de doenças, que, segundo alguns testes, estão presentes em níveis até 1,7 milhão de vezes acima do que seria considerado alarmante em praias no sul da Califórnia, EUA.

Apesar de décadas de promessas oficiais de limpar a sujeira das águas, o fedor de esgoto ainda recebe os viajantes que pousam no aeroporto internacional Antônio Carlos Jobim do Rio. Belas praias estão desertas, porque as ondas chegam à areia cheias de uma lama pútrida e, de tempos em tempos, a lagoa olímpica, Rodrigo de Freitas, fica repleta de peixes mortos em decomposição.

— O que se tem ali é basicamente esgoto puro —,” disse John Griffith, biólogo marinho do instituto independente Southern California Coastal Water Research Project. Griffith examinou os protocolos, metodologia e resultados dos testes da AP. — É água dos banheiros, dos chuveiros e do que as pessoas jogam na pia, tudo misturado, que vai para a água das praias. Isso seria interditado imediatamente se fosse encontrado aqui — disse ele, referindo-se aos Estados Unidos.

Autoridades brasileiras encarregadas da qualidade da água nos locais olímpicos afirmaram que não estão monitorando a presença de vírus.

Mesmo assim, Leonardo Daemon, gerente de Qualidade da Água do Inea, disse que eles estão seguindo as normas brasileiras de qualidade de água para uso recreativo, todas baseadas em níveis bacterianos.

— Qual é a norma que deve ser seguida para quantidade de vírus? Porque presença e ausência de vírus na água ... ela precisa de um padrão, um limite — disse Daemon. —Você não tem um padrão, uma norma que transfira a quantidade de vírus em relação a saúde humana, isso para contato em água.

Mais de 10 mil atletas de 205 nações devem competir nos Jogos Olímpicos do ano que vem. Quase 1.400 deles estarão velejando nas águas próximas da Marina da Glória na Baía de Guanabara, nadando na praia de Copacabana e praticando canoagem e remo nas águas insalubres da Lagoa Rodrigo de Freitas.

A AP encomendou quatro rodadas de testes em cada um desses três locais de competições olímpicas, e também na água que alcança a areia da praia de Ipanema, que é muito frequentada por turistas, mas onde não será realizado nenhum evento. Trinta e sete amostras foram testadas para três tipos de adenovírus humano, além de rotavírus, enterovírus e coliformes fecais.

Os testes virais da AP, que continuarão em 2016, indicaram que nenhum dos locais é seguro para nadar ou velejar, segundo os especialistas em qualidade da água que tiveram acesso aos dados da AP.

Os resultados dos testes indicaram altas contagens de adenovírus humanos ativos e infecciosos em algumas amostras, que se replicam no trato intestinal ou respiratório de pessoas. Esses são vírus conhecidos por causar doenças estomacais, respiratórias e outras, incluindo diarreia aguda e vômitos, além de doenças cerebrais e cardíacas, que são mais graves, porém mais raras.

As concentrações dos vírus foram aproximadamente as mesmas que são encontradas no esgoto puro, mesmo em uma das áreas menos poluídas testadas, a praia de Copacabana, onde serão realizadas as provas de natação do triatlo e maratona aquática e onde muitos dos 350.000 turistas estrangeiros esperados podem dar seus mergulhos.

— Todos correm risco de infecção nessas áreas poluídas — disse o Dr. Carlos Terra, hepatologista e presidente do Grupo de Fígado do Rio de Janeiro.

Um especialista americano em avaliação de risco para vírus transmitidos pela água examinou os dados da AP e estimou que os atletas internacionais em todos os locais de competições aquáticas teriam uma chance de 99% de infecção ao ingerir apenas três colheres de chá da água, embora a probabilidade de uma pessoa ficar doente dependa da imunidade e de outros fatores.

Além dos nadadores, os atletas de iatismo, canoagem e, em menor grau, remo com frequência ficam encharcados durante a competição, e também respiram as gotículas no ar.

A Lagoa Rodrigo de Freitas, que passou por obras de limpeza em anos recentes, foi declarada segura para remadores e canoístas. No entanto, os testes da AP revelaram que suas águas estão entre as mais poluídas dos locais de competições olímpicas, com resultados que variam de 14 milhões de adenovírus por litro no extremo inferior a 1,7 bilhão por litro no extremo superior.

Em comparação, especialistas em qualidade da água que monitoram praias no sul da Califórnia ficam alarmados se encontram contagens virais de 1.000 por litro.

— Se eu fosse participar das Olimpíadas provavelmente chegaria com antecedência, para me expor e fortalecer meu sistema imunológico contra esses vírus antes de competir, porque não vejo como eles vão resolver esse problema do esgoto — disse Griffith, o especialista em água da Califórnia.

UM RISCO ENORME PARA OS ATLETAS

Ivan Bulaja, o técnico croata da equipe de iatismo austríaca da classe 49er, está começando a compreender isso. Ele disse que seus iatistas perdem valiosos dias de treino depois de ficar doentes com vômitos e diarreia.

— Esta é de longe a pior qualidade de água que já vimos em toda a nossa carreira no iatismo — disse Bulaja.

Treinando no início deste mês na Baía de Guanabara, o velejador austríaco David Hussl conta que ele e seus colegas de equipe tomam precauções, como lavar o rosto imediatamente com água mineral quando se molham com as ondas e tomar banho assim que retornam à terra. No entanto, Hussl disse que adoeceu várias vezes.

— Tive febre e problemas de estômago. É sempre um dia totalmente na cama e, depois, mais uns dois ou três dias sem velejar — afirmou.

O técnico destaca o risco enorme para os atletas.

— A gente vive por uma medalha olímpica e pode realmente acontecer de ficar doente alguns dias antes da prova e não conseguir competir — disse Bulaja.

O Dr. Alberto Chebabo, que chefia o Serviço de Doenças Infecciosas e Parasitárias do Hospital Universitário Clementino Fraga Filho da UFRJ, disse que o esgoto puro é causa de problemas de saúde pública endêmicos entre os brasileiros, principalmente diarreia infecciosa em crianças.

Quando chegam à adolescência, disse ele, as pessoas no Rio já foram tão expostas aos vírus que desenvolvem anticorpos. Mas os atletas e turistas estrangeiros não terão essa proteção.

— Alguém que não foi exposto a essa falta de saneamento e vai a uma praia poluída corre, obviamente, um risco muito mais alto de ser infectado — disse Chebabo.

Estima-se que 60% dos brasileiros adultos tenham sido expostos à hepatite A, segundo o hepatologista Dr. Terra. Os médicos insistem que estrangeiros que vierem ao Rio, sejam atletas ou turistas, vacinem-se contra hepatite A. Os Centros de Controle e Prevenção de Doenças dos Estados Unidos também recomendam que os viajantes ao Brasil sejam vacinados para febre tifoide.


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Thiago Muniz tem 33 anos, colunista dos blog "O Contemporâneo", do site Panorama Tricolor e do blog Eliane de Lacerda. Apaixonado por literatura e amante de Biografias. Caso queiram entrar em contato com ele, basta mandarem um e-mail para:thwrestler@gmail.com. Siga o perfil no Twitter em @thwrestler.

quarta-feira, 29 de julho de 2015

Itaboraí do céu ao inferno: o sonho do petróleo as ruínas (Por Thiago Muniz)

A Cidade de Itaboraí, no Rio, definha junto com o caos da Petrobras. A descoberta de reservas petrolíferas levou Itaboraí a vislumbrar um futuro radiante. Uma década depois, a cidade ainda espera um complexo petroquímico que nunca chegou.

A aparência desértica do estacionamento e dos corredores do único shopping center de Itaboraí é uma perfeita metáfora do colapso sofrido por essa localidade a 50 quilômetros do Rio de Janeiro. Apenas meia centena de automóveis se distribuem em um estacionamento com capacidade para 1.000 veículos, enquanto um hotel, uma faculdade, 160 espaços comerciais, 10 salas de cinema e uma praça de alimentação que pode abrigar mil pessoas completam uma área praticamente vazia.

“Mal chegamos a 60% da cifra planejada do negócio”, explica Sharline Oliveira, dona de um salão de manicure situado no shopping. Durante a meia hora de duração da entrevista, suas seis funcionárias aguardam sentadas a chegada de clientes que, prevê João, empregado de uma franquia de fast-food, dificilmente aparecerão. “Como as pessoas vão vir consumir se toda Itaboraí perdeu o emprego?”, argumenta.

Para um centro urbano de apenas 200.000 pessoas, que não passava de mais uma cidade-dormitório do Rio, o investimento de 265 milhões de reais destinado a erguer o shopping center foi notável. Mas, até que tudo desmoronasse, os ambiciosos planos petroleiros que o Governo brasileiro e sua empresa de ponta de lança, a estatal Petrobras, tinham para a localidade convidavam a ser otimistas. Muitos pensaram que a história de Itaboraí daria um giro em 2006, quando em decorrência do descobrimento das maiores reservas petrolíferas da história do Brasil (o chamado pré-sal, mar adentro), o então presidente Luiz Inácio Lula da Silva anunciou no município “o maior investimento feito no país”: o Complexo Petroquímico do Rio de Janeiro, conhecido em geral pelos brasileiros por sua sigla, Comperj.

O projeto era extraordinariamente ambicioso em seu impacto socioeconômico. Uma unidade de tratamento de gás natural, duas refinarias e uma zona de processamento petroquímico deveriam ser erguidas em uma área de 45 quilômetros quadrados, e os empregos gerados direta ou indiretamente superariam os 200.000. “Não conheço na América Latina um investimento da magnitude do que estamos lançando aqui”, disse Lula em 2010, ao inaugurar as obras com um discurso marcadamente nacionalista. “O século XXI é o século do Brasil. Já perdemos algumas oportunidades, mas não perderemos esta”, concluiu o ex-sindicalista, ao lado de sua mão direita à época, Dilma Rousseff, que liderou o Conselho de Administração da Petrobras entre 2003 e 2010, antes de se tornar presidenta do país.

Ao evocar esse episódio, Helil Cardozo, prefeito de Itaboraí, sente uma irrefreável indignação. “Riram da população e dos investidores que acreditaram nessas palavras. Disseram que iríamos ser a segunda renda mais alta do Estado do Rio de Janeiro. Foi uma piada de mau gosto”, recorda esse prefeito pelo PMDB, paradoxalmente o maior aliado do Governo.

Quase uma década depois de seu anúncio, o Comperj é talvez a melhor ilustração da corrupção, das ineficiências e do intervencionismo político que gangrenam a Petrobras, a maior empresa do Brasil, guardiã das reservas de petróleo e até pouco tempo motivo de orgulho nacional. Como ponto forte de um longo decálogo de más práticas sobressai a redução drástica e súbita do Comperj original – inicialmente, a ideia era criar um polo petroquímico, mas agora tudo se resumirá a uma refinaria com capacidade diária para 165.000 barris –, sem que essa degradação tenha evitado, porém, que o custo orçamentário triplicasse, até os atuais 70 bilhões de reais. Uma cifra colossal à qual terão de ser adicionados alguns milhões mais para concluir as obras, hoje paradas, com 85% terminado.

Longe de se transformar no novo eldorado do Brasil moderno, o fracasso do projeto provocou “uma situação de caos no município”, explica o prefeito. Um cenário que é consequência da chegada de mais de 30.000 trabalhadores, com suas famílias, em busca de oportunidades, e que motivou um aumento da demanda de serviços e fez disparar os gastos públicos, hoje insustentáveis. “Foram construídas escolas e creches, inaugurados novos postos de saúde. O hospital foi melhorado e houve obras de infraestrutura. Como íamos deixar as crianças recém-chegadas sem salas de aula ou os doentes morrerem sem atendimento médico?”, diz Cardozo, que recebeu o Contemporâneo com camisas de manga curta e com a iluminação e o ar-condicionado de seu gabinete desligados, segundo ele, para ser coerente com os cortes orçamentários que está efetuando. “Reduzi meu salário e o dos funcionários em 20%, e estamos cancelando contratos de fornecimento”, garante. A arrecadação municipal caiu pela metade. Cardozo faz uma analogia com o setor automobilístico para definir o atual estado de coisas em Itaboraí. “Antes do Comperj éramos um Fusquinha com combustível. Passamos a dispor de uma Ferrari que ia a toda a velocidade, mas que agora não tem nem gasolina nem pneus.”

O fracasso do macroprojeto tem uma visível cicatriz social. Ao desolado panorama do shopping center se somam dezenas de cartazes de “vende-se” pendurados em lojas fechadas e residências particulares que ninguém quer alugar. Grandes projetos imobiliários – como as ambiciosas torres comerciais Van Gogh Corporate e Hellix Business Center – que foram erguidos para responder à eventual demanda de serviços sofisticados são hoje elefantes brancos com acabamento de primeira e piscinas em terraços ainda sem estrear. Pequenos empreendedores que montaram pousadas fecharam o negócio e vendem, no desespero, as camas e o restante do mobiliário para recuperar uma parte dos investimentos fracassados.

O ambiente de decepção e pessimismo impregna as conversas na cidade, onde o desemprego continua crescendo com força, como explica Anderson Santana, coordenador do único centro de atendimento a desempregados. “Todo mês recebemos umas 5.000 pessoas que querem se inscrever nas listas. Muitos fazem filas até mesmo às três da madrugada”, afirma.

Numa vista aérea, o Comperj é apenas um exemplo – entre muitos outros, como a refinaria Abreu de Lima, também com custos disparatados – do impacto do sonho petrolífero brasileiro, a maior trama de corrupção da história do país. Essa é a definição que usou o procurador-geral Rodrigo Janot para descrever a Operação Lava Jato, que investiga os desvios no interior da Petrobras.

Desde que foi desvendado em meados de 2014, o país – fervoroso amante das telenovelas – assiste atônito a essa novela que gira em torno da estatal, e que tem executivos, políticos, intermediários e empreiteiras do porte da Odebrecht – a maior construtora da América Latina – como elenco de primeira categoria, todos em conluio para cometer um multimilionário desfalque por meio de obras superfaturadas em licitações de cartas marcadas. Os promotores estimam que 3% do valor dos contratos firmados pela petroleira com prestadores de serviços foi desviado durante pelo menos uma década para benefício de seus diretores e, sobretudo, dos partidos políticos, entre os quais o PT. O escândalo prejudicou a imagem do país e ensombrece o mandato de Dilma Rousseff.

Para a debacle petrolífera contribuíram, com a corrupção e a ineficiência, a derrocada dos preços do petróleo, que acumula uma queda de 40% em apenas um ano. Uma dinâmica que afeta todas as companhias energéticas do planeta, mas ainda mais a Petrobras, cujas valiosas reservas se encontram a quilômetros de profundidade no mar, sob uma camada de sal que chega a espessuras de até 2.000 metros.

Extrair o ouro negro nessas condições não só representa um desafio técnico, do qual o Brasil está na vanguarda, mas também investimentos anuais no valor de bilhões de dólares, que a Petrobras – obrigada por lei a ser operadora nas grandes jazidas – parece não estar em condições de realizar. Em especial, quando se leva em conta que sua dívida colossal – que passa de 100 bilhões de dólares (335 bilhões de reais) e supera, por exemplo, o PIB da Eslováquia – é a maior do mundo para uma petroleira.

“Para conseguir que o pré-sal tenha efetivamente um impacto no desenvolvimento social e econômico brasileiro, como se pensou que iria acontecer quando as reservas foram descobertas em 2006, é preciso realizar mudanças legislativas e uma reformulação”, opina José Mauro de Morais, membro do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (IPEA) e autor de um livro recente sobre a história da Petrobras.

Queda do preço do petróleo

O impacto da queda dos preços do petróleo é palpável em Macaé, a “capital brasileira do petróleo”, como garantem os cartazes na entrada dessa cidade situada 250 quilômetros a nordeste do Rio. Estradas de mão dupla cortam vales de espetaculares colinas de terra vermelha e natureza tropical. As águias cruzam o céu azul, alheias ao desesperador ritmo que os caminhões impõem em um país que sofre com um extraordinário déficit de infraestrutura.

A economia de Macaé, base de operações de exploração e produção de petróleo na Bacia de Campos, cresceu 600% entre 2003 e 2013. No porto pesqueiro, o movimento de navios e barcos de grande porte é visível a qualquer hora. Mas a imagem pode ser enganosa. “As coisas não vão bem. A crise está sendo muito notada”, comenta Mike, capitão norte-americano de um navio que levará, nas próximas sete semanas, víveres e peças de reposição até as plataformas petrolíferas.

A poucos metros dali, em uma praia na qual é impossível nadar por causa dos tanques de diesel que abastecem pequenas embarcações, um grupo de transportadores joga bola. “Reduziram nossas horas extras e muitos perderam o emprego”, diz João em um intervalo do jogo. Os sindicatos cifram em 20.000 os empregos perdidos no último ano, um terço da força de trabalho que vive do petróleo na cidade.

Na principal área de compras, a avenida Rui Barbosa, o grau de incerteza também é alto. Os comerciantes – de lojistas de eletrodomésticos a vendedores de tecidos ou acessórios para celulares – calculam que a atividade caiu cerca de 30%. “Está tudo parado. Não há trabalho”, queixa-se Francisco José de Holanda, um pintor industrial desempregado cheio de currículos. Jorge Gomes, de 34 anos, vendedor de colchões, está trabalhando, mas mal ganha para viver. “Como dependemos da comissão por vendas, passei a ganhar 2.000 reais, em vez de 4.000”, explica, deixei de cobrar 4.000 reais e passei a cobrar 2.000”, explica, vestindo um vistoso avental branco.

A crise também afeta a arrecadação municipal, e a previsão é que algumas cidades do Estado do Rio – onde se extrai 80% do petróleo brasileiro – percam até 40% das receitas por direitos de exploração. No total, o Estado fluminense arrecadará este ano entre 7 bilhões e 11 bilhões de reais a menos. São números que exigem, inevitavelmente, reduzir os gastos sociais.

No bairro de Lagomar, esse argumento é visto como uma desculpa. Nesta favela de construções sem acabamento, falta água corrente e as ruas estão sem asfalto, embora a cerca de vinte metros da comunidade passe um gasoduto, perceptível pela crista de areia levantada pela tubulação subterrânea. “Os políticos só se lembram de nós quando há eleições”, diz Maria Luisa Santos, dona de um vistosa mercearia. Querem que sejamos ignorantes para que não exijamos deles educação e saúde. Quanto mais burros, mais fáceis nós somos de manipular”, concorda Cintia, uma vizinha.

No entanto, talvez a maior desilusão pelo choque de realidade petrolífero não ocorra em terra, mas no mar. Magé é um modesto município às margens do Atlântico. Ali, na Baía de Guanabara, pescam Alexandre Anderson e seu companheiro de batalhas, Maicon de Carvalho, apelidado de Pelé. Esse lugar, epicentro natural do Rio, é um enclave estratégico para a Petrobras, já que a empresa gera ali uma usina de regaseificação e dois terminais que, por meio de oleodutos, enviam para refinarias o petróleo trazido do alto mar por navios.

Esses navios, diz Anderson, têm “expulsado gradualmente milhares de pescadores” que vivem da captura de espécies como o pregado, o camarão ou a sardinha. “Em 1990 podíamos pescar em 78% da baía, mas hoje essa zona está reduzida a 12%”, denuncia. A associação que ele preside, a Ahomar, representa 9.000 famílias pesqueiras. Seu histórico de vitórias inclui o fato de ter evitado, por meio de uma campanha ecológica, que a Petrobras usasse em 2010 o exuberante rio Maracu – cuja desembocadura gera um mangue que acolhe belas aves, como a fragata – para transportar grandes equipamentos destinados ao Comperj.

Quatro homens carregam o barco até a margem, e Anderson sua. “Já não estou acostumado”, diz o ativista, baixo, forte e eloquente, referindo-se à mudança forçada de seu modo de vida – o fim da pesca e a imposição de uma residência itinerante – desde que entrou, em 2009, em um programa de proteção de defensores dos direitos humanos. Havia sofrido seis ataques a tiros lançados pelas chamadas milícias, formadas por criminosos e até por ex-policiais. “Durante dois anos e meio, o Governo brasileiro pôs policiais militares para me escoltar 24 horas por dia, mas nem assim conseguiram evitar os ataques”, lembra ele. “Uma investigação posterior revelou que os mesmos policiais que me protegiam trabalhavam para a milícia em seus dias de folga. No Brasil, o maior violador de direitos humanos é o Governo”, diz, enquanto conduz o barco perto de um enorme petroleiro.

“Somos vulneráveis porque o Estado de Direito é vulnerável. Não estamos contra a Petrobras, mas contra a forma como ela é administrada”, afirma, antes de lembrar a morte ou o desaparecimento de sete pescadores nos últimos cinco anos. Homicídios carregados de crueldade – colocaram uma das vítimas de mãos amarradas em seu barco e o afundaram – para minar a resistência. Trata-se de um crime frequente no Brasil, que lidera o índice mundial de países com mais assassinatos de ativistas de defesa do meio ambiente, com 29 mortes em 2014, segundo a ONG britânica Global Witness.

Os pescadores não reclamam apenas que as atividades petrolíferas na baía lhes causem um prejuízo econômico que tem consequências sociais como o aumento do alcoolismo, a depressão ou o êxodo de população das localidades pesqueiras. “Estão acabando com um processo histórico, com uma pesca herdada por gerações, que agora não poderemos transmitir para nossos netos”, critica Anderson, que em plena travessia mostra uma barragem de pesca, um viveiro artesanal feito com varas de bambu erguidas sobre o fundo arenoso. “Estão colocando em risco um modo de vida que perdura há séculos”, concorda o biólogo Breno Herrera.







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Thiago Muniz tem 33 anos, colunista dos blog "O Contemporâneo", do site Panorama Tricolor e do blog Eliane de Lacerda. Apaixonado por literatura e amante de Biografias. Caso queiram entrar em contato com ele, basta mandarem um e-mail para:thwrestler@gmail.com. Siga o perfil no Twitter em @thwrestler.

domingo, 26 de julho de 2015

Jing-Jin-Ji: a futura megalópole na China (Por Thiago Muniz)

Os planos da China para construir uma megalópole de 130 milhões de habitantes. Sonho chinês desde os anos 80, a nova região de Jing-Jin-Ji parece agora estar virando realidade. Pelo menos é o que diz o projeto apresentado recentemente pelo presidente Xi Jinping, que propõe uma união das três principais metrópoles do norte do país – Pequim, Tianjin e a província de Hebei – e será um modelo para a urbanização na China, segundo o governo.

País das megalópoles, a China quer ir ainda além com esse projeto: criar uma supermegalópole. Todos os números são "mega": 215 mil quilômetros quadrados de área (quase duas vezes o tamanho do Estado americano de Nova York), 130 milhões de habitantes, US$ 6,4 trilhões (R$ 20,5 trilhões) em investimentos.

O plano não surgiu do nada. Há décadas, as autoridades chinesas têm estudado formas de atender às demandas de uma população que tem crescido absurdamente, resultando em torres e mais torres de prédios habitacionais, novos aglomerados de avenidas e estradas e milhões de pessoas lutando diariamente por espaço.

Xi Jinping, presidente da China, anunciou um ambicioso plano que prevê investir US$ 6,4 trilhões ao longo dos anos para criar uma super megalópole no norte do país







No início deste mês, as autoridades chinesas anunciaram que, como parte do megaprojeto de Jing-Jin-Ji, terá início uma importante reestruturação da capital Pequim. A proposta inclui, por exemplo, a transferência de hospitais, empresas e comércio atacadista para fora do centro da cidade.

Há ainda a previsão de limitar a população da cidade, que hoje tem 22 milhões de habitantes, a 23 milhões.

Para atingir esse objetivo, o prefeito de Pequim, Wang Anshun, anunciou que será implementado um plano para remover as indústrias mais poluentes – cerca de 1.200 – e as que requerem mais mão de obra, junto com seus trabalhadores.

A principal medida de reestruturação, porém, será a criação de um centro administrativo do governo – hoje fincado no coração da cidade imperial – no subúrbio de Tongzhou.

Segundo o secretário do Partido Comunista em Pequim, Guo Jinling, a mudança terá início em 2017.

Essas medidas serão parte da primeira etapa da criação de Jing-Jin-Ji, cujo nome une o das três áreas que a supermegalópole englobará: "Jing" por Beijing (Pequim), "Jin" por Tianjin, e "Ji", antigo nome da província de Hebei.

O objetivo desse projeto, segundo o líder chinês, é fazer com que a região norte atinja o grau de desenvolvimento econômico alcançado no sul do país.

Como escreveu Cary Huang, do diário South China Morning Post, "diferentemente do sul, as regiões do norte não dispõem dos deltas geográficos (os rios Yangtsé e das Pérolas) para o desenvolvimento da iniciativa privada, não têm uma base industrial coesa e estão menos abertas ao mundo exterior".

"Em 2012, a exportações (do norte) somaram 15% de seu PIB, enquanto foram 60% no delta do rio Yangtsé e 63% no do rio das Pérolas", continuou.

Entre as mudanças, o plano chinês prevê transferir o
centro administrativo do governo,
hoje instalado no coração da capital Pequim,
para o subúrbio de Tongzhou
No entanto, apesar do anúncio em que Xi Jinping oficializou a criação de Jing-Jin-Ji, ainda são desconhecidos os detalhes da execução do projeto.

"É um plano extremamente ambicioso", explica Yuwen Wu, editora do serviço chinês da BBC. "A ideia é que essas três regiões se complementem entre si, compartilhem seus recursos e se integrem para criar um moderno núcleo econômico."

Segundo Yuwen Wu, "a ideia é que Pequim seja o principal centro político e cultural, e Tianjin o centro de pesquisa e desenvolvimento da indústria manufatureira, além de, com seu porto, ser a base de transporte marítimo internacional no norte da China".

"Hebei ainda não tem um papel definido, mas poderá ser pólo manufatureiro e, como é uma área mais barata que as outras duas, poderá ser núcleo de habitação dos trabalhadores da região."

Os planos para abrigar os 130 milhões de habitantes estimados para as três metrópoles incluem a criação de linhas de trem de alta velocidade. O objetivo é que os trabalhadores possam acessar as principais cidades da região em cerca de uma hora.

"Já há um trem rápido que liga Tianjin a Pequim em apenas 30 minutos", diz Yuwen Wu. "Ir das cidades de Hebei até a capital, por sua vez, pode levar mais de três horas."

Melhorar os meios de transporte, no entanto, não será o principal desafio do projeto.

Especialistas concordam que os problemas que têm persistido nas grandes cidades chinesas nas últimas décadas, como a falta de infraestrutura para acomodar o acelerado desenvolvimento econômico e urbano, serão alguns dos principais obstáculos.

Outro grande desafio serão as enormes diferenças sociais e econômicas existentes entre as três metrópoles.

Enquanto o PIB per capita de Pequim é de US$ 15 mil (R$ 48 mil) e o de Tianjin alcança US$ 11,5 mil (R$ 37 mil), o de Hebei é de apenas US$ 6,3 mil (R$ 20 mil).

Em um de seus discursos sobre o projeto de Jing-Jin-Ji, cuja criação parece ter se convertido em uma meta pessoal, o presidente Xi Jinping instou os líderes dos três governos locais a promoverem um desenvolvimento integrado e coordenado entre as regiões. Mas, será que isso é possível?

"As principais queixas até agora têm vindo de Pequim, das pessoas que não veem com bons olhos terem de se mudar para fora da capital", disse Yuwen Wu.

"Mas é preciso observar que, na China, a resistência e a falta de consenso não têm lugar. Se o presidente tem uma visão, todos têm de trabalhar para que essa visão se torne realidade."

Segundo o Ministério das Finanças, o projeto Jing-Jin-Ji custará cerca de US$ 6,4 trilhões (R$ 20,5 trilhões) ao longo dos anos.

Mas, para a editora da BBC China, a criação dessa supermegalópole não dependerá tanto de seu financiamento, mas da forma com a qual as autoridades decidam implementá-la.

"Para unir uma região, não basta só criar estradas e trens rápidos", diz Yuwen Wu. "São necessários infraestrutura e serviços para que as pessoas sintam que pertencem a esse lugar, e isso pode levar muitos anos."

O projeto prevê que Tianjin, com seu porto, seja a base do transporte marítimo
no norte da China, hoje menos desenvolvido economicamente que o sul do país


Fonte: BBC





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Thiago Muniz é colunista do blog "O Contemporâneo", do site Panorama Tricolor, do blog Eliane de Lacerda e do blog do Drummond. Apaixonado por literatura e amante de Biografias. Caso queiram entrar em contato com ele, basta mandarem um e-mail para: thwrestler@gmail.com. Siga o perfil no Twitter em @thwrestler.

sexta-feira, 24 de julho de 2015

Táxi x Uber (Por Thiago Muniz)

Acho que os taxistas deverão repensar qual papel de fato eles fazem na sociedade. Devem sair de suas zonas de conforto e pensarem que a população não é idiota e otária.

Não vou fazer lobby ao Uber, mas colocar corridas grátis até o valor de 50 reais no dia de hoje em contra ataque a paralisação dos taxistas numa via expressa do Rio de Janeiro foi uma tacada de mestre, faz com que mais adeptos surgem ao aplicativo e levantem alternativas para que as pessoas possam se locomover.

Lei da Oferta e da Procura existe em qualquer segmento de mercado, basta normas e regulamentação. Isso não quer dizer que o táxi irá morrer e nem o Uber vai preencher essa lacuna, mas cada um traçando estratégias para conquistar mais clientes. Esse é o lema.

Manifestação dos taxistas só vai levar a antipatia da população. Sinceramente, eu acho que os taxistas deram um tiro no pé com esta manifestação no Rio. Eu por exemplo, expliquei para quatro pessoas diferentes o motivo dela e elas ficaram conhecendo o Uber que nunca tinham ouvido falar.

Acho que o protesto deveria ser feito de uma forma que não atingisse o povo, tipo, não pagar a vistoria, por exemplo. Agora, quem não conhecia o Uber, ficou conhecendo. Uma covardia com esta classe tão trabalhadora que é o taxista, mas que a própria classe cava a própria cova através dos oportunistas.

E não me surpreendeu a atitude do secretário estadual de transportes, sr. Osório, que prometeu erradicar com os carros que prestam serviço através do Uber, isso é atitude normal de repressão do Estado.

Repreende, Pune pra depois um "possível" diálogo no futuro. Essa repressão também vale aos taxistas piratas ou aqueles oportunistas que dão o preço do trajeto antes de pegar o passageiro, isso é uma prática comum no carnaval e Réveillon.

A Uber não deve ser proibida, mas ou se enquadra em uma legislação que seja tão rigorosa em termos de fiscalização e tributos que os taxistas, ou facilitam a vida fiscal e tributária dos taxistas. Do jeito que está, é muito mais negócio ser da Uber, que ter um táxi.

A Uber não pode ser proibida, mas o taxista também não pode morrer de fome. Pois o mesmo está enquadrado em um regime oneroso e rigoroso.

Uma pergunta, qual é a organização sindical desses membros da Uber. Esse tipo de serviço é regulamentado frente ao ministério do trabalho.

Não se esqueçam que não é de hoje que o Paes está se chocando contra os taxistas. Pois o mesmo tem o interesse em controlar financeiramente esse serviço.

Eu não pego Uber. Tenho conhecidos taxistas e sei bem a luta que os mesmos tiveram para conseguir uma autonomia e um carro para trabalhar.

Acho que os taxistas não podem é continuar em suas zonas de conforto achando que são a "última bolacha do pacote". Eu já fui lesado por taxista, conheço inúmeras pessoas que foram lesadas por taxistas oportunistas mas nem por isso deixei de pegar o táxi porque eu confio no serviço, mas ainda existem os táxis piratas e os oportunistas de plantão que escolhem itinerários e os bandidos que dão o preço antes de pegar o passageiro.

O Uber não surgiu do "nada". Com certeza foi oriundo de uma pesquisa de satisfação e de mercado. E essa insatisfação com os taxistas é de âmbito global, não é restrito somente ao município do Rio de Janeiro.

Com a proibição do Uber pela cidade de São Paulo as redes sociais foram tomadas de assalto por gritos de desespero dos cidadãos que não entendem como podemos ter uma medida tão retrógrada, que não se pode ir contra a inovação, que a tecnologia sempre vence e por aí vai. Considero que a discussão não é tão simples e nem tão maniqueísta como a maioria está se propondo.

Mas não podemos esquecer de uma das visões de longo prazo do CEO do Uber é bem tecnológica: empregar carros robôs que se auto-dirigem. Ou seja, hoje ele utiliza os humanos apenas como um meio no médio prazo de manter uma cliente para seu futuro exército de carros-robôs.

Parece para mim um futuro digno do "uma bota na face humana" profetizado em "1984" de George Orwell: nosso deslocamento atrelado a um grande monopólio.

Não concordo que o Uber foi feito como uma maneira de ostentar. O Uber preenche um nicho de mercado que o Taxi infelizmente não preencheu. Mas porque não preencheu? Devido a má qualidade de seus serviços num todo. É óbvio que existe bons taxistas, estaria cometendo uma infâmia de afirmar que todo taxista é um merda, pelo contrário.

O que os taxistas não entenderam e não querem entender é que na prática o Uber não é um concorrente direto do Taxi. Os taxistas já fizeram isso com as Vans e historicamente há muita política envolvida nisso. Atentamos que tem muitos políticos donos de frotas de taxis.

Reitero que o intuito não é ostentação, e sim conforto e qualidade. Carros sedãs de luxo (e de preços caros aqui no Brasil) é pra preencherem uma demanda que tem poder aquisitivo para isso. Nichos de mercado são segmentos ou públicos cujas necessidades particulares são pouco exploradas ou inexistentes.

A estratégia de aproveitamento de nichos está justamente na identificação das bases de segmentação que, quando explorados, representam o diferencial ou vantagem competitiva à empresa (ou pessoa).

Sabemos que tem taxistas que se desdobram pra colocar dinheiro em casa e matarem um leão por dia pela sobrevivência. Mas é notório que num conjunto, a qualidade do serviço de táxi recaiu muito.

Não é uma palavra só minha, é de milhares de pessoas.

É aquilo que eu disse, é um serviço confiável, mas caiu no medíocre. Não entendas que estou falando do taxista X ou do Y, não é isso; mas a análise do conjunto da obra, o serviço num todo.

Pois bem;

É válido os taxistas saírem agredindo os motoristas e também os passageiros do Uber?

É válido os taxistas pararem uma via de acesso importante como o Aterro do Flamengo?

Eu substituiria Ostentação por Diferenciação. Como você mesmo citou, porque não ofereceria carros populares?

Porque aí que seria um concorrente direto dos taxistas, aí que os taxistas sofreriam mais ainda. Carro popular com serviço de qualidade e exclusivo a um preço digamos justo. O Uber preenche nicho e não uma demanda completa que as frotas de taxis conseguem preencher, está até com taxis demais na cidade.

Se você é professor e fecha uma avenida para reclamar do péssimo estado da educação na cidade, você apanha da PM. Se você é um taxista e reclama que um aplicativo está tratando as pessoas bem e roubando seus clientes você pode fechar a cidade inteira que a PM não faz nada.

É Taxistas...deixem de ser idiotas!

Marionetes dos grandes empresários e dos políticos mafiosos envolvidos no setor, só prejudicam a população fechando as vias de acesso, não se ganha na base do porrete, se ganha com bom atendimento e qualidade no serviço. Desta maneira só ganha antipatia da opinião pública.

Uma pergunta: Quem pagará a diária de vocês? Subsídio ou Abono?
























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