domingo, 5 de abril de 2015

Você pratica a Intolerância? (Por Thiago Muniz)

"Nenhuma qualidade humana é mais intolerável do que a intolerância." (Giacomo Leopardi)

Intolerância é uma atitude mental caracterizada pela falta de habilidade ou vontade em reconhecer e respeitar diferenças em crenças e opiniões.

Num sentido político e social, intolerância é a ausência de disposição para aceitar pessoas com pontos-de-vista diferentes. Como um construto social, isto está aberto a interpretação. Por exemplo, alguém pode definir intolerância como uma atitude expressa, negativa ou hostil, em relação às opiniões de outros, mesmo que nenhuma ação seja tomada para suprimir tais opiniões divergentes ou calar aqueles que as têm. Tolerância, por contraste, pode significar "discordar pacificamente". A emoção é um fator primário que diferencia intolerância de discordância respeitosa.

A intolerância pode estar baseada no preconceito, podendo levar à discriminação. Formas comuns de intolerância incluem ações discriminatórias de controle social, como racismo, sexismo, antissemitismo, homofobia, heterossexismo, etaísmo (discriminação por idade), intolerância religiosa e intolerância política. Todavia, não se limita a estas formas: alguém pode ser intolerante a quaisquer ideias de qualquer pessoa. Enquanto prossegue o debate sobre o que fazer com a intolerância alheia, algo que frequentemente ignora-se é como reconhecer e lidar com a nossa própria intolerância.

Campos da Líbia, Faixa de Gaza, Ruanda, China...Não é preciso ir muito longe para encontrar sinais de profunda intolerância pelo mundo. Tente, por exemplo, a fila preferencial de uma agência bancária perto da sua casa. Aquela destinada a idosos, grávidas e pessoas com deficiências físicas, problemas de locomoção, etc... Têm sido frequentes, por mais exótico que possa parecer, ocorrências de verdadeiros combates de MMA por ali. Segundo os registros, moças grávidas e senhoras idosas vêm chegando às vias de fato depois de discussões acaloradas em razão de um lugar melhor na tal fila. Mortes por assassinato já foram registradas depois de disputas por vagas em estacionamentos de shopping centers.

A intolerância não significa simplesmente discordar daqueles que pensam ou agem de maneira diferente de nós – o que é perfeitamente aceitável –, mas fazê-lo com um espírito de rancor, agressividade e desrespeito pela dignidade humana. Com freqüência a intolerância tem ligação com o poder. O intolerante utiliza alguma situação de força para ferir e esmagar aquele que se encontra em desvantagem ou fragilidade. Na área religiosa, esse comportamento consiste em suprimir ou limitar a liberdade de consciência, expressão e associação no âmbito da fé. Ao longo da história, a igreja tem sido palco de muitas manifestações dessa natureza, o que exige uma reflexão cuidadosa por parte dos cristãos.

Para entender um pouco mais profundamente a intolerância importa ir um pouco mais a fundo na questão. A realidade assim como nos é dada é contraditória em sua raiz; complexa, pois é convergência dos mais variados fatores; nela há caos originário e cosmos (ordem), há luzes e sombras, há o sim-bólico e o dia-bólicos. Em si, não são defeitos de construção, mas a condição real de implenitude de tudo que existe no universo. Isso obriga a todos a conviver com as imperfeições e as diferenças. E a sermos tolerantes com os que não pensam e agem como nós. Traduzindo numa linguagem mais direta: são pólos opostos mas pólos de uma mesma e única realidade dinâmica. Estas polaridades não podem ser suprimidas. Todo esforço de supressão termina no terror dos que presumem ter a verdade e a impõem aos demais. O excesso de verdade acaba sendo pior que o erro.

Para fazer coexistir sem confundir estes dois princípios devemos alimentar em nós a tolerância. A tolerância é capacidade de manter, positivamente, a coexistência difícil e tensa dos dois pólos, sabendo que eles se opõem mas que com-põem a mesma e únca realidade dinâmica. Impõe-se optar pelo pólo luminoso e manter sob controle o sombrio.

Intolerância (Marcelo Bonfá)

A vingança é a mãe da estupidez
E a intolerância é mãe de vidas perdidas
A ignorância é mãe de guerras sem fim
Pensem nas outras mães
Há o medo e contra ele
A violência encontrará o conforto
Há o certo e há o torto
E desde cedo já o confronto

Deus sempre esteve em silêncio
Mas nem por isso calado
Nosso destino deixa pegadas disformes
Nossas palavras estão cheias de esquecimentos
O desafio agora é perceber
Onde estão precisando de nós
Estamos juntos numa sala escura

E os fantasmas rondam à luz do dia
A ficção assiste a verdade
Não há ingressos nem poltronas vazias
Destruir é melhor que criar
Futilidades demais nesta vida
Nós somos livres pra escolher
E o que sobrar desta vida fodida
Nosso destino deixa pegadas disformes
Nossas palavras estão cheias de esquecimentos
O desafio agora é perceber
Onde estão precisando de nós


Não é exagero algum achar que a intolerância seja o mais estúpido e egoísta dos sentimentos humanos. Ser intolerante é assumir aos quatro ventos a burra incapacidade de aceitar a conduta diferente do outro. É absorver um ideal com tanta força e ter uma presunção tão grande que tudo tem que funcionar exatamente de uma só forma. Ser intolerante é considerar a possibilidade que todo ser humano tem o mesmo gosto ou o mesmo pensamento. É querer que simplesmente o mundo gire apenas para ela e, pior, é também lutar para que isso seja possível.

A intolerância é excludente, cruel e implacável. Talvez seja inclusive uma das maiores causas de dor nas pessoas. O intolerante se sente no direito de julgar e também definir o certo, como se isso fosse simples e lógico. Ele é capaz de se apegar aos mais puros sentimentos e ideais e transformá-los em uma verdade violenta carregada de opressão e ódio. Tudo movido pelo simples fato de querer que o outro tenha a mesma conduta ou mesmo por achar que determinada prática possa ser uma ameaça.

O intolerante acredita que tem em suas mãos a única e poderosa verdade e é incapaz de questioná-la. Essa deficiência de sequer pensar na possibilidade de estar errado é o mais marcante entre os “donos da verdade”. Impor sobre o outro uma ideia ou comportamento único é praticamente uma agressão à natureza humana.

Não existem no mundo duas pessoas iguais e possivelmente jamais existirão. Como é possível que alguém queira colocar um padrão? Como é possível ser capaz de criar uma verdade que possa mutilar o outro? Como é possível levantar uma bandeira de amor e fé com uma mão e de ódio e exclusão com outra?

Grande parte das atrocidades humanas foram cometidas por pessoas embriagadas pela mais profunda intolerância apoiada sempre por uma verdade imutável e implacável. A escravidão, a inquisição, o holocausto ou mesmo um ato de homofobia são os exemplos “mais simples” do quão sombrio e cruel o ser humano intolerante pode ser. Há tantas formas de pensar, agir, desejar, ser ou gostar. Elas não precisam competir, apenas coexistir.

Nem um terremoto, inundação ou avalanche é tão sombrio e cruel quanto a capacidade da humana de ferir o outro. A intolerância é o primeiro passo para o ódio e para um caminho sem volta que só leva a um lugar: o sofrimento e a dor. Cuidado com ela, pois a intolerância é um fantasma constante que nos ronda e possui quando menos esperamos.










BIO


Thiago Muniz é colunista do blog "O Contemporâneo", do site Panorama Tricolor, do blog Eliane de Lacerda e do blog do Drummond. Apaixonado por literatura e amante de Biografias. Caso queiram entrar em contato com ele, basta mandarem um e-mail para: thwrestler@gmail.com. Siga o perfil no Twitter em @thwrestler.




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