segunda-feira, 27 de abril de 2015

Tim Lopes: o arcanjo do jornalismo investigativo (Por Thiago Muniz)

Arcanjo Antonino Lopes do Nascimento nasceu em 18 de novembro de 1950, em Pelotas, no Rio Grande do Sul, mas era carioca de coração. O filho de Maria do Carmo e Argemiro Lopes do Nascimento foi criado, desde os 8 anos, no Morro da Mangueira, Rio de Janeiro, junto com os irmãos Miro e Tânia Lopes. Teve dois filhos, Bruno, do primeiro casamento, e Diogo, do segundo. Deixou uma viúva, Alessandra Wagner, com quem viveu por dez anos.

Formado em jornalismo pela Faculdade Hélio Alonso, Tim Lopes começou a trabalhar como contínuo na revista Domingo Ilustrado, do jornalista Samuel Wainer. Ele contava que seu apelido fora dado pelo próprio dono no jornal, devido a sua semelhança com o cantor Tim Maia.

Ainda na década de 1970, trabalhou no extinto jornal O Repórter. Para uma matéria sobre as condições de trabalho nas obras do metrô do Rio, vestiu-se de operário. “Sempre procurei investigar, no fundo, a alma das pessoas”, afirmou certa vez. 

O repórter costumava entrar na pele dos entrevistados: passou-se por mendigo para retratar a realidade de meninos de rua em reportagem do Jornal do Brasil. Quando trabalhou no jornal O Dia, disfarçou-se de obreiro e sem-teto. Em uma das primeiras reportagens que fez na Globo, para o Fantástico, fantasiou-se de Papai Noel e ouviu crianças carentes sobre seus sonhos. Para realizar uma matéria sobre gangues de rua, se fez passar por vendedor de água de coco na Central do Brasil – e acabou gravando, com uma microcâmera escondida, a morte de um bandido.

Apesar de conhecer a fundo os personagens de suas matérias, para a maioria dos telespectadores brasileiros Tim Lopes não tinha rosto. O fato de ele se dedicar à produção jornalística, apurando os fatos, poupava-o de ficar na frente das câmeras. Somente assim o repórter era capaz de mostrar o que, muitas vezes, ninguém tinha coragem de denunciar.

Ganhou muitos prêmios em sua carreira, inclusive o Prêmio Esso, em 2001. Em 1985, ganhou o 11º Prêmio Abril de Jornalismo na categoria Atualidades, pela matéria Tricolor de Coração, publicada na revista Placar. No ano seguinte, foi novamente agraciado com o Prêmio Abril, desta vez pela matéria Amizade sem Limite.

Tim Lopes trabalhou cerca de dez anos no jornal O Globo. De meados da década de 1970 até o começo dos anos 1980, cobriu como poucos a cidade do Rio de Janeiro. Em 1986, entrou para o Jornal do Brasil, no qual permaneceu por cinco anos. Trabalhou também na sucursal carioca da Folha de S. Paulo e no jornal O Dia, quando realizou a reportagem Funk: Som, Alegria e Terror, que recebeu, em fevereiro de 1994, o Prêmio O Dia de Melhor Reportagem. Sua matéria investigava a exploração sexual de menores em bailes funk, tema que voltaria a abordar oito anos mais tarde, tragicamente, na apuração que o levaria à morte.

Tim Lopes começou a trabalhar na Globo em março de 1996, como produtor de reportagens do Fantástico. Realizou a série Hora da Verdade, na qual familiares de vítimas ficavam frente a frente com assassinos presos. “É um desafio. Relatar a violência a partir dos próprios personagens e por eles mesmos. Mostrar a dor, o sentimento de vingança, a resignação, o perdão. Falar do sentimento humano, da emoção. Colocar a vítima e seu algoz cara a cara num momento de catarse, sofrimento e alívio. Propiciar a sua hora da verdade”, declarou à época, a respeito do programa.

Após quatro meses de Fantástico, o repórter foi deslocado para a editoria Rio, na qual coordenou a equipe que realizou a série Feira das Drogas, exibida com grande destaque no Jornal Nacional. O trabalho, que recebeu o Prêmio Esso de Telejornalismo de 2001, denunciou a livre ação dos traficantes na Favela da Grota, no Complexo do Alemão, Rio de Janeiro.

“Tim era um apaixonado pelo jornalismo investigativo e se orgulhava dos resultados positivos de cada denúncia que fazia”, relembra o então diretor-geral de Jornalismo e Esportes, Carlos Henrique Schroeder. Sua última série de reportagens para a Globo revelou os maus-tratos em clínicas para recuperação de dependentes químicos. Para apurar a matéria, internou-se e viveu como um ex-viciado. “Tim trazia grandes histórias, tinha autonomia total para investigar. Ele mesmo as prospectava, era um cara muito experiente”, recorda-se o apresentador e editor-chefe do Jornal Nacional, William Bonner.

Dia 2 de junho de 2002, Tim Lopes deixou a redação da Globo para concluir uma apuração. Ele havia recebido denúncias de moradores do bairro da Penha, no Rio de Janeiro, sobre consumo de drogas e sexo explícito em bailes funks na favela Vila Cruzeiro. O jornalista estivera na região quatro vezes, duas delas com microcâmeras escondidas, para fazer gravações. Na quinta, não voltou para casa.

Na madrugada do dia 2 de junho de 2002, o jornalista Tim Lopes foi morto enquanto realizava uma reportagem sobre abuso sexual de menores e tráfico de drogas em um baile funk na favela da Vila Cruzeiro, no bairro da Penha, Rio de Janeiro. O repórter foi sequestrado, torturado e executado por traficantes liderados por Elias Pereira da Silva, o “Elias Maluco”. O crime chocou a população e foi encarado como um cerceamento à liberdade de imprensa.

Tim Lopes decidiu fazer a reportagem depois de receber denúncias de moradores da região. Os pais diziam que as filhas eram obrigadas por traficantes a participar de bailes funks. No ano anterior, o jornalista havia feito uma reportagem em favelas cariocas para denunciar a ação do tráfico de drogas nas comunidades.

Tim produziu três matérias especiais com a colaboração de Cristina Guimarães, Flávio Fachel, Tyndaro Menezes e Renata Lyra. Com o nome de Feira das Drogas, as reportagens mostravam a venda de maconha e cocaína, a céu aberto, na favela da Grota, nos morros da Mangueira e da Rocinha e nas ruas da Zona Sul do Rio. A série foi exibida pelo Jornal Nacional em agosto de 2001 e recebeu o Prêmio Esso de Telejornalismo e o Prêmio Líbero Badaró.

O Jornal Nacional cobriu o caso Tim Lopes, com os repórteres da editoria Rio – André Luiz Azevedo, Ari Peixoto, Arnaldo Duran, Eduardo Tchao, Vinícius Dônola, Lilia Telles e Edney Silvestre. Eles acompanharam as investigações da polícia e as buscas ao corpo do jornalista em morros do Rio. As reportagens apontavam para a existência de um poder paralelo que dominava as favelas cariocas.

A confirmação da morte de Tim Lopes veio após uma semana, com base nos depoimentos de cinco presos do bando de Elias Maluco, chefe do tráfico na favela. Segundo os envolvidos, o jornalista teria sido torturado, baleado e assassinado pelo próprio traficante. Como a polícia confirmou mais tarde, seu corpo foi esquartejado e queimado em pneus na Favela da Grota, no Complexo do Alemão. Mais de um mês depois, um exame de DNA comprovou que a ossada encontrada no cemitério clandestino da Grota era do repórter.

Tim Lopes foi velado em 7 de julho de 2002. Indignados, os jornalistas organizaram passeatas, clamando por justiça, além de homenagens em prol da memória do colega assassinado. “Com a mobilização de jornalistas, nas ruas, e as reportagens cobrando das autoridades a prisão dos algozes, nós conseguimos que todas as pessoas envolvidas com a morte do Tim fossem presas”, explica Ali Kamel. Nos meses que se seguiram, os setes acusados, incluindo Elias Maluco, foram capturados e condenados.

No dia 9 de junho, um domingo, a polícia concluiu que Tim Lopes fora executado por traficantes da favela da Vila Cruzeiro. No dia seguinte, o JN foi dedicado à memória do jornalista. Foram exibidos pequenos depoimentos de amigos do repórter, precedidos sempre da vinheta “O colega Tim”. Cerca de 25 minutos do noticiário doJN daquele dia foram dedicados ao assassinato de Tim Lopes. William Bonner encerrou o telejornal lendo um texto em que simulava uma conversa com o repórter assassinado: “Tim, você sabe que em dias tristes como o de hoje nós costumamos evitar o ‘boa noite’, deixando que o silêncio dos estúdios mostre toda a eloquência de nossa dor. Mas hoje decidimos fazer diferente.” O apresentador encerrou o telejornal com aplausos. Ao fundo, na redação, toda a equipe de preto, em pé, também aplaudiu.

Em 7 de agosto, a polícia encerrou o inquérito sobre a morte de Tim Lopes. Nove bandidos da quadrilha de Elias Maluco foram indiciados pelo crime. Os traficantes foram acusados de homicídio qualificado, formação de quadrilha e ocultação de cadáver. Dos nove, cinco estavam presos naquele momento, mas Elias Maluco permanecia em liberdade.

Nos três meses seguintes, o Jornal Nacional acompanhou a caçada da cúpula da segurança do Rio de Janeiro ao chefe do tráfico e mandante da morte de Tim Lopes. O telejornal produziu e apresentou 470 reportagens sobre o poder paralelo dos traficantes, num total de 17 horas e 20 minutos de informação.

A notícia da prisão de Elias Maluco, depois de uma operação policial na favela da Grota, foi dada pelo JN no dia 19 de setembro.

Tim Lopes foi homenageado diversas vezes. No dia em que se confirmou a sua morte, o Fantástico exibiu uma matéria especial relembrando a carreira do repórter. No dia seguinte, o Jornal Nacional teve uma edição especial, encerrada com uma nota da redação, lida por William Bonner, seguida de uma salva de palmas dos colegas. Seu nome batizou uma escola estadual no município fluminense de Paraíba do Sul e uma rua na Barra da Tijuca, no Rio de Janeiro.

Em 2002, foi criado o Prêmio Tim Lopes de Jornalismo Investigativo, com o objetivo de estimular a imprensa a seguir cobrindo o abuso e a exploração sexual infantil – temas da matéria a que o repórter se dedicava quando perdeu a vida. No carnaval de 2003, a escola de samba Acadêmicos do Tucuruvi desfilou ao som de Não Calem Minha Voz, um samba enredo em sua homenagem, cujo refrão clamava pela verdade, “tim-tim por tim-tim”. Em 2012, seu filho, o jornalista Bruno Quintella, da TV Globo, dedicou-se à produção de um documentário sobre o pai, História de Arcanjo — um Documentário sobre Tim Lopes.

Tim Lopes sempre é lembrado com carinho pelos colegas de profissão, que carregam a missão de não deixar que sua morte seja em vão. “Antes do Tim Lopes, você se sentia como super-homem, achando que nada iria acontecer durante uma apuração”, pontua o repórter Roberto Kovalick. “Definitivamente, foi um divisor de águas, antes e depois do Tim”, reitera o jornalista Márcio Gomes.

A segurança das coberturas em favelas foi reforçada, mas a morte de Tim Lopes não calou a imprensa. A Globo continuou apurando os casos de violência, como explica o jornalista Luiz Cláudio Latgé: “Ninguém queria chegar à situação de não cobrir determinados fatos [em favelas]. Seria uma derrota parar de cobrir, e não aceitamos isso.” “Foi muito duro e, certamente, uma das maiores lições que aprendemos”, ressalta o Carlos Henrique Schroder.





BIO

Thiago Muniz tem 33 anos, colunista dos blog "O Contemporâneo", do site Panorama Tricolor e do blog Eliane de Lacerda. Apaixonado por literatura e amante de Biografias. Caso queiram entrar em contato com ele, basta mandarem um e-mail para:thwrestler@gmail.com. Siga o perfil no Twitter em @thwrestler.


2 comentários:

  1. Parabéns pela matéria, Thiago. Sou estudante de jornalismo e estou fazendo um documentário sobre Tim e vim aqui fazer pesquisa. Fico grata com o conteúdo encontrado.Obrigada. Abraços.

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    1. Oi Mayara! Nossa...que honra e ter sido referência em seu documentário, tenhas sucesso em seu trabalho. O que precisar de ajuda, conte comigo. Abraços!!!

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