quinta-feira, 16 de abril de 2015

Que herói quer o Brasil?

Um país pode se reconhecer pelo modelo de herói que enaltece ou quer pra si.

Qual seria o padrão do ansiado herói brasileiro? 

A Grécia antiga teve seu Ulisses, padrão mítico do guerreiro desbravador, guerreiro ardiloso, ético, fiel a seus princípios. Desde então, mudou bastante o ideal de herói e o padrão de princípios para cada cultura.

O território a ser desbravado é, atualmente, antes de tudo, o território da própria consciência- e da subconsciência, depois da psicanálise. E do que esta subconsciência faz com o molde de seus princípios.

Esta esquizofrenia latente que explora as intenções que movem as ações personifica a busca multipolar de um herói indefinido brasileiro. Mário de Andrade expressou esta confusão no personagem Macunaíma- herói sem nenhum caráter, malandro, preguiçoso da busca da própria definição, avesso ao trabalho, mas sequioso dos méritos e dos louvores dados aos heróis nobres. Ainda resiste Macunaíma depois de décadas, séculos de perdas causadas justamente por esta cultura do malandro tupiniquim? Até certo ponto. 

O Herói brasileiro ideal ainda tem uma pitada de Ulisses misturada com o jeca tatu, o anti-herói abandonado à miséria pelo estado. O sertanejo que vem do nada, pobre, despossuído, que chega ao sucesso pelo trabalho das próprias mãos, pela própria perseverança e luta. Mas o que impede da malandragem de Macunaíma não ter algo de Ulisses e de Ulisses ter algo do Jeca tatu? Esta mescla favoreceu, por exemplo, a eleição de Lula, que personifica um pouquinho de cada uma destas três variantes. E favoreceu toda sorte de complicações éticas que atravessaram o país nos últimos anos.

A mistura da malandragem – ora saudada, ora criticada pela cultura nacional – ao aspecto heroico da busca do sucesso – ora individual, ora sacrificado pelo outro- constitui o angu de caroço entalado na goela da subconsciência brasileira. Esquece-se permanentemente o Brasil que um herói fora dos mitos tem facetas bem pouco heroicas; que alguém que possa ter vindo do nada e busca o seu sucesso talvez não se importe nem se interessa com o sucesso alheio - que é o verdadeiro ato de heroísmo. O exemplo clássico de heroísmo é aquele que se inspira na abnegação, no sacrifício pelo outro. 

Em nossos tempos modernos, este padrão se inverteu: o sucesso individual é motivo de admiração e espelho para os espectadores. As pessoas gozam pelo gozo do sucesso de quem se espelham e não usufruem nada do gozo de quem se inspiram. Quando transportada para a política, a equação torna-se perversa: o sucesso individual às custas das benesses públicas deixa a população indignada. Mas esta mesma população não percebe que é através de sua concepção difusa de ‘’herói de si mesmo’’, malandro e egoísta,,cioso do próprio sucesso, sensível à própria história, que é construída a figura do político populista e corrupto, que quer vencer na vida a despeito de todos que se colocam à sua frente. 

Todos, inclusive aqueles que o elegeram.

Muito se diz e muito se louva a história das pessoas. Ranço de Homero e seu Ulisses. Joyce esboçou em seu Ulisses moderno a história da consciência de um homem comum em 24 horas, cujas peripécias se resumiam em se manter sobrevivo em face da tragicomédia do cotidiano. Não interessa a história pessoal de ninguém em si. Interessa o que a pessoa faz de si através da história que viveu. 

Quando o Brasil aprender esta lição, aprenderá a não se fiar em pedaços , fragmentos de heroísmo falsificado; aprenderá a ler nas entrelinhas a história da subconsciência de grandes heróis. E terá enfim a perspectiva heroica de uma consciência madura de suas escolhas.

Aos poucos o Brasil vai depurando seus padrões e chegando ao denominador comum do seu grande "herói". O povo não cai mais na ladainha do terno bem cortado, discurso empolado e sorriso de capa de revista. Quer, acima de tudo, conteúdo autêntico, não fórmulas de marketing.




Texto: Adrilles Jorge (filósofo, jornalista e poeta) e finalização de Thiago Muniz (escritor e mercadólogo)

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