domingo, 12 de abril de 2015

Carlos Imperial: o pilantra e canalha (Por Thiago Muniz)

Carlos Imperial foi e ainda é muito subavaliado. Ele foi inovador, revolucionário e rompeu barreiras num país que era (e acho que ainda é) careta, moralista e conservador. Sua importância como produtor musical é muito subestimada. Difícil imaginar se sobreviveria nos tempos de hoje - ou se prosperaria ainda mais. Com certeza esse mestre na adaptação e sobrevivência faria ambas as coisas, não necessariamente nessa ordem.

Filho do meio da professora Maria José e do banqueiro e ex-prefeito de Cachoeiro Gabriel Corte Imperial, Carlos Eduardo (assim batizado em homenagem ao personagem de “Os Maias”, de Eça de Queiroz) chegou com a família ao Rio aos 7 anos. Entre 1950 e 1960, já rapaz, ganhou popularidade ao criar o Clube do Rock, em Copacabana, e revelar artistas em programas de rádio e televisão. Apresentou, por exemplo, quadros musicais no “Meio-dia”, na TV Tupi.

— Era o YouTube da época. Se o músico estava em algum programa do Imperial, era sinônimo de sucesso — compara o ator Luis Lobianco, que fez o papel do descobridor de talentos no filme “Tim Maia” (2014), de Mauro Lima.

Imperial teve dois filhos com Rose Gracie (sim, a sua primeira mulher era da família que disseminou o jiu-jítsu no Brasil): Maria Luíza e Marco Antônio. Os herdeiros acompanham — e aprovam — todos os projetos envolvendo o nome do pai. Numa boa.

— Censurar qualquer coisa envolvendo Carlos Imperial é absurdo. Demos carta branca para o livro, o documentário e, agora, o musical abordarem o lado bom e o lado ruim. Não dava para, depois de morto, papai virar santo — diz o fotógrafo Marco Antônio Gracie Imperial, de 57 anos. — Tivemos uma relação difícil. Ele me perseguiu quando me pegou fumando maconha, aos 12 anos. Mesmo sendo ele que tinha me mandado contestar o mundo. A questão era que papai era avesso a drogas. Os vícios dele eram Coca-Cola, trabalho e mulher.

Imperial era contra Marco Antônio casar. À revelia do pai, o fotógrafo teve 11 filhos com sete mulheres diferentes. O apresentador também achava uma besteira danada Maria Luíza esposar (“Dá o maior trabalho casar e mais ainda separar”, costumava dizer). Mas a filha se casou, de papel passado, com um primo, Rorion Gracie (o criador do UFC), com quem teve duas filhas, Rose e Riane. Elas viraram o chamego e o xodó do vovô.

— Ele foi melhor avô do que pai. A Rose e a Riane conviviam bem com todas as namoradas que moravam junto com ele no apartamento de Copacabana. Quando elas tiravam nota baixa na escola, corriam para lá. Pedia para ele botá-las de castigo e ele as levava para tomar sorvete — lembra Maria Luíza.

No final dos anos 1960, havia quem fosse capaz de jurar: o sucesso brasileiro tinha chegado à Inglaterra, e os Beatles gravavam uma versão de Asa Branca. A canção seria a mais tocada nas rádios de lá, e o próprio Gonzagão teria comemorado a novidade, sugerindo que o quarteto usasse uma gaita escocesa para conseguir melhores efeitos.As múltiplas facetas de Carlos Eduardo Corte Imperial, produtor musical, compositor, jornalista, apresentador, marqueteiro, botafoguense, portelense, mulherengo e, com muito orgulho, pilantra. Até hoje, há quem acredite que a gravação de fato existiu. É tudo, claro, mentira. Não passava de uma invenção do produtor, cantor, ator, cineasta e polemista que é o centro do documentário Eu Sou Carlos Imperial, filme de Renato Terra e Ricardo Calil em exibição no festival É Tudo Verdade.

Ele lançou Roberto Carlos. Descobriu Elis Regina. Produziu disco para Clara Nunes. Escolheu o nome artístico de Sebastião Rodrigues Maia (Tim). Compôs, entre outros sucessos, “Vem quente que eu estou fervendo” e “Mamãe passou açúcar em mim”. Chegou a morar com 20 mulheres, suas “lebres”, num apartamento de frente para a Praia de Copacabana. Fez teatro, cinema, televisão. Foi um dos vereadores mais votados do Rio. Criou o bordão “dez, nota dez!” na apuração dos desfiles das escolas de samba. E só bebia Coca-Cola. Personagem de si mesmo, Imperial era dono de uma qualidade ímpar de ver à frente do seu tempo novas tendências e produtos culturais, aliada à desfaçatez própria dos canalhas inveterados. Por conta disso, era uma fábrica de ídolos (Roberto e Erasmo, Simonal, Tim Maia, Elis Regina), hits (Pode Vir Quente que Eu Estou Fervendo, O Bom, Mamãe Passou Açúcar em Mim, Nem Vem que Não Tem) e incontáveis histórias de procedência duvidosa.

O caso de Roberto Carlos é emblemático. Ele mesmo conta que, no começo da carreira, teria desistido após tantas negativas não fosse a persistência de Imperial. “Elvis Presley brasileiro” era como o chamava. Equiparável a seu gênio, apenas sua predisposição a comportamentos muitas vezes questionáveis. Tomava para si direitos autorais dos outros, aproveitava-se de mocinhas inocentes e foi o responsável pela mais infame história envolvendo Mario Gomes e uma cenoura.

Não parecia haver limites para um homem que não titubeava diante de quase nada. Custasse o que custasse, Imperial estava determinado a se impor e ser aceito. Dizia alimentar-se das vaias. De diretor de pornochanchadas, virou "católico apostólico romano" quando entrou para a política, ocasião que o fez também equiparar Tancredo Neves a Jesus Cristo.

Em dada ocasião, sentou-se na privada, a mão no queixo em pose reflexiva e tirou uma foto que seria o seu cartão de Natal. Na legenda, desejava que “Papai Noel não faça no seu seu sapato o que estou fazendo”. Entre os destinatários, autoridades do Regime Militar. Em plena ditadura, o resultado não seria outro que não sua detenção sob acusação de atentado ao pudor.

Os diretores de Uma Noite em 67 são especialistas num estilo de narração da história da música brasileira que se mostra tão forte quanto fluida. A voz dos protagonistas de nossa cultura é o que serve para expor histórias sem as quais não teríamos uma cultura como hoje a conhecemos.

Dos relatos dos que o conheceram, vai se construindo uma imagem benevolente de um homem que certamente despertou mais desafetos que amigos por onde passou. Quaisquer que fossem os erros ou males que pudesse ter cometido em vida, estes são tratados quase como traquinagens de um menino travesso em uma produção que se priva de cair em qualquer moralismo. Pornógrafo, libertino e misógino, Carlos Imperial é envolto por uma atmosfera folclórica que dificulta sua apreensão por rótulos simplificadores que hoje circulam mais livremente. Difícil imaginar se sobreviveria nos tempos de hoje - ou se prosperaria ainda mais.

As imagens dos vários filmes feitos por Imperial (que incluem títulos como A Viúva Virgem e Loucuras, o Bumbum de Ouro) ajudam a entender a visão do personagem de si e do mundo ao mesmo tempo em que permitem vislumbrar as muitas contradições que o moviam. Assim, a graça maior de Eu Sou Carlos Imperial talvez seja dar conta do universo de uma figura quase arquetípica, cercando-o de uma atmosfera que se expande até o limite de fazer com que a própria narrativa do filme seja apropriada pela anarquia de Imperial. Poucas figuras seriam mais propícias para tamanha experiência. Onde começa a verdade documental e termina a ficção que se reinventa?

Uma das lendárias encrencas foi no Natal de 1968, quando Imperial resolveu distribuir cartões de “boas festas” para amigos e inimigos. No lugar de um fofo Bom Velhinho, uma foto do próprio, sentado no vaso sanitário e com mão no queixo, ilustrava a dedicatória: “Espero que Papai Noel não faça no seu sapato o que eu estou fazendo neste cartão.” A irreverente mensagem foi parar na mão de um militar e, em plena ditadura, Imperial foi parar na Ilha Grande, fichado pelo Dops (Departamento de Ordem Política e Social da Polícia).

Tempos após a prisão, ele relatou, em tom heroico, que foi torturado e que chegou a levar um tiro no joelho.

— Tudo mentira. A cicatriz no joelho era de uma cirurgia de varizes. Ele viveu um mês lá tocando violão e passeando no barco do Castor de Andrade, que conheceu na ilha — relata o biógrafo Denilson Monteiro. — Soube usar a prisão a seu favor até quando se candidatou a vereador, nos anos 80. Era um articulador de primeira.

Foi na Ilha Grande também que Imperial conheceu Natal da Portela, então presidente de honra da agremiação de Madureira. A amizade o aproximou do carnaval. Para o desfile de 1970, ele chamou Clóvis Bornay para assinar o enredo “Lendas e mistérios da Amazônia” e deu vários pitacos no samba — foi o último título da Portela. No início dos anos 80, já como vereador, foi membro da Comissão de Carnaval da Câmara e acompanhou as obras do Sambódromo. Em 1984 e 1985, narrou a apuração do resultado dos desfiles, e criou o bordão “dez, nota dez!”.

Carlos Imperial foi, ao longo de quase 40 anos, uma espécie de médico e monstro do show-business brasileiro. Descobriu, ajudou ou deu impulso à carreira de gente como Roberto Carlos, Tim Maia, Wilson Simonal, Erasmo Carlos, Elis Regina e todo um time de cantores bregas, menos votados. Compôs músicas de sucesso na Jovem Guarda. Produziu peças de teatro que marcaram época, como “Um Edifício Chamado 200”. Igualmente, produziu inúmeros filmes na fase de ouro da pornochanchada brasileira.



Ogro midiático. Amado ou odiado, Carlos Imperial soube como poucos como conseguir espaço os meios de comunicação.

Ao mesmo tempo, Imperial usou e abusou de métodos escusos para promover seus artistas e projetos culturais. Inventou histórias, mentiu, armou falsas brigas, plantou notas na imprensa. Pessoalmente, o “Gordo”, como era chamado, cultivou uma imagem debochada, sempre cercado de muitas mulheres (a quem chamava de “as lebres do Imperial”), e de desprezo à moral reinante. Era um “ogro midiático”, na feliz expressão de Denilson Monteiro.

Tão amado quanto odiado, ou desprezado, Imperial morreu cedo, aos 56 anos. “Ao todo, cerca de cem pessoas compareceram ao enterro. Nem chegava perto da quantidade de gente que o Gordo ajudou”, anota Denilson Monteiro, com precisão, na biografia.















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