sexta-feira, 27 de fevereiro de 2015

Estados Unidos: A reencarnação do Império Romano (Por Thiago Muniz)

Os EUA comemoram sempre a sua Declaração de Independência. A nação que o mundo teme, respeita, inveja, admira ou detesta evolui aos poucos, sendo ao menos argumentável que se consolidou, no sentido moderno do termo, depois da Guerra Civil de 1861-1865, em que a autonomia dos Estados, uma das premissas básicas da Revolução de 1776, foi substituída pelo poder central, pelo conceito de união indissolúvel.

Essa guerra nos deu muitos mitos, populares até nos EUA, O mais conhecido de todos, naturalmente, que o “Norte”, sob Abraham Lincoln, lutou para emancipar os escravos negros. Lincoln libertou os escravos em 1863, os do Sul, mantendo durante algum tempo a escravidão em territórios favoráveis à união.

Um dos documentos mais sutis e profundos da história norte-americana é o discurso de Jefferson Davis, presidente dos secessionistas, quando da “revolta”, pois põe a nu a hipocrisia antiescravagista de Lincoln e os interesses econômicos por trás da retórica patriótica e libertária.

A guerra ia incerta. Era constitucional que qualquer Estado se desligasse da união, quando bem entendesse. Estabelecido o recrutamento compulsório, em 1863, houve motins violentos. Um, em Nova York, provocou a morte de mil pessoas. Lincoln deu um molho liberal à luta.

Todo país vive, em parte, de mitos, homens até morrem por mitos, e a justiça da causa sulista e os motivos que levaram Lincoln a proclamar a emancipação não mudam a realidade de libertação dos escravos ou sequer a qualidade da retórica de Lincoln, que recebeu a aprovação do maior homem de letras que o país produziu, Edmund Wilson, cuja obra Patriotic Gore [1962] é indispensável à compreensão dos EUA.

É interessante que os EUA e a URSS sejam os únicos países do mundo criados por intelectuais, em vez de reis, príncipes, padres ou bons burgueses. A Carta de Direitos (os dez primeiros artigos da Constituição) permanece um modelo de libertarismo que sugere ideais sobre-humanos, assim como a visão de mundo leninista, em que “Estado e Revolução” são uma promessa utópica jamais sonhada pelos meros beletristas do gênero, de More a Wells. Entre teoria e prática, há, claro, abismos, mas talvez o impulso de poder e autossuficiência das duas nações se deva, até certo ponto, às origens eminentemente intelectuais. Cessam aí as semelhanças.”
EVOLUÇÃO OU REVOLUÇÃO

“A riqueza de 1776, em inspiração liberal para o resto do mundo, da Revolução Francesa (incomparavelmente mais profunda) à busca de soberania no resto das Américas, dispensa comentários. É preciso notar, porém, que as colônias, como eram conhecidos os doze Estados que fundaram os EUA (Massachusetts, New Hampshire, Rhode Island, Connecticut, Nova York, Pensilvânia, Nova Jersey, Maryland, Virgínia, Carolina do Norte, Carolina do Sul e Geórgia), pouco tinham em comum com o que, hoje, entendemos por “colônias”. Se fiéis à Coroa inglesa, se declararam logo independentes do Parlamento em Londres. Elegiam os próprios governadores-gerais e deputados. Dispunham de uma imprensa livre. Consideravam-se associadas e não dependentes da Inglaterra, o que já é sensível nos documentos existentes sobre Jamestown, fundada em 1607. A mais famosa, estabelecida entre 1630 e 1642, na Nova Inglaterra, trouxe ao Novo Mundo os chamados puritanos, que viam na terra uma nova Canaã, superior moralmente à “dissoluta” matriz.

Um dos grandes controversistas americanos, Gore Vidal, numa alusão à “caça às feiticeiras” – que permeia a história dos EUA -, nota, ironicamente, que, ao contrário da lenda, os puritanos não foram perseguidos na Inglaterra. Deixaram-na porque a Coroa não permitia que perseguissem o próximo.

E, tão importante, o cerne étnico da colonização jamais possuía a pureza anglo-saxônica, que virou também mito. Os EUA receberam, de início, uma população cosmopolita, holandeses, alemães, anglo-irlandeses (protestantes), franceses (huguenotes), escoceses, suíços, judeus, escandinavos e os esquecidos e subjugados negros. Essa mistura de povos e raças e as dificuldades tremendas que os colonizadores encontraram, tendo de resolvê-las por si próprios, criaram uma consciência especificamente americana.

Não é, portanto, correto pensar que em 1750, quando as divergências entre Londres e colônias começaram a explodir, homens de gênio como George Washington, Thomas Jefferson, George Mason, Alexander Hamilton e Benjamin Franklin desceram, de súbito, das árvores, armados da filosofia liberal de John Locke e da concepção de Estado de Montesquieu. Seis das maiores universidades do pais, Harvard, Yale, King’s College (Columbia), Princeton, Brown e Dartmouth, são pré-revolucionárias e educaram uma sofisticada classe dirigente “nativa”. No período, publicavam-se mil títulos ao ano, produção que, até hoje, faz inveja a muita nação subdesenvolvida.

Esquecido também é que, durante o século XVII até 1763, a França disputou o controle do continente norte-americano, deixando profundas marcas na cultura nacional, até que foi derrotada no Canadá. Nova Orleans, Detroit e Mobile (Alabama) foram colonizações francesas e, mais importante, pela fertilidade, o vale do Ohio. Os colonos sentiram a própria força numa série de combates ferozes, contra franceses aliados aos índios, e partilhavam o comando das tropas com generais ingleses. Beneficiaram-se também da introversão da Inglaterra, de 1640 ao fim do século, um período altamente revolucionário, a era de Cromwell.

Logo, o 1776 foi mais evolução do que revolução. Significativamente, quando a Inglaterra decidiu tratar os colonos como tais, pela primeira vez, taxando-os e tentando confinar-lhes e controlar-lhes o comércio, é que eles se rebelaram.”

CARTA DE DIREITOS

“A Constituição dos vitoriosos, ratificada pelo nono Estado (New Hampshire: nove era o número necessário para que valesse) em 1788, entrou em vigor em 1789. Continha sete artigos. Foi se expandindo ao correr do tempo, estando longe de ser, portanto, o “documento de uma sociedade agrária”, como a apelidou desdenhosamente Richard Nixon. Basta dizer que a Carta de Direitos só recebeu a ratificação de Massachusetts, Geórgia e Connecticut em 1939, às vésperas da Segunda Guerra.

Por trás do liberalismo abrangente havia duas concepções de Estado em conflito. A de Jefferson, que previa uma “livre associação de Estados”, em que cada homem (branco) fosse senhor de sua terra, cultivando-a em paz e liberdade. E a de Alexander Hamilton, que propunha um sistema federal centralizado, em suma, os EUA de hoje. Jefferson derrotou Hamilton nas polêmicas da época, da mesma forma que Rosa Luxemburgo bateu Eduard Bernstein no debate entre revolução e reformismo, na Alemanha de 1900. Em outras palavras, o derrotado em teoria estabeleceu a prática. Jefferson, ao assumir a Presidência em 1801, já era hamiltoniano e, no mesmo ano, a incipiente Marinha norte-americana procurava negócios nas costas da África, sob o pretexto de perseguir piratas. Começara a expansão nacional e imperial.”

O SÉCULO DECISIVO

“Em cem anos, até 1900, os EUA passaram de uma próspera colônia à maior potência industrial do mundo. A partir da compra da Louisiana (da França), em 1805, não importa qual a fraseologia empregada ou o invólucro autoexculpatório, seja “Doutrina Monroe” (1823) ou “Destino Manifesto” (de criar uma sociedade superior às demais; a concepção original e teocrática, de 1630, traduziu-se sem dificuldade ao mundo material…), o país se tornou imperial. Em 1848, anexou mil milhas quadradas do México (Utah, Nevada, Califórnia, Arizona, Colorado Ocidental e Novo México), pagando uma soma ridícula, 15 milhões de dólares. Em 1898, na guerra contra a Espanha, se apossou de Cuba, Porto Rico e estendeu-se às Filipinas, iniciando o avanço mundial, cujo primeiro fruto foi o controle da América Central e uma influência decisiva em toda a América Latina (já reservada aos EUA na linguagem ambígua da Doutrina Monroe).

Internamente, a consolidação nacional também se processou a ferro e fogo, em guerras de genocídio contra os índios, no uso cruel do trabalho escravo negro e na exploração de mão de obra barata dos imigrantes europeus. É significativo, em relação ao mito da origem étnica anglo-saxônica, que, de uma população de 225 milhões, em 1976, apenas 30 milhões se declarem descendentes dos ingleses.”

O AVANÇO DA DEMOCRACIA

“As mulheres só obtiveram o voto em 1920, e os negros foram excluídos oficialmente do processo político até a guerra civil e “informalmente” até a década de 1960. E vale notar que o conceito jeffersoniano de democracia, apesar das beatitudes filosóficas libertárias e de muito palavrório sobre os direitos do homem “comum”, era, em verdade, aristocrático, dando o voto em relação à propriedade do eleitor, excluindo, portanto, a maioria do povo. A reforma começou em 1830, sob o presidente Andrew Jackson, grande massacrador de índios, porém, em revolta contra a supremacia das grandes famílias, das quais a mais famosa é a dinastia de John Quincy Adams (ora glamourizada numa asnática série de televisão). Jackson abriu as porteiras à ralé, “terminando o nosso mundo”, observou o poeta e elitista americano T. S. Eliot.

A famosa frase de Jefferson na declaração de independência sobre os direitos do ser humano, “vida, liberdade e procura da liberdade”, era, no original, “vida, liberdade e propriedade”. Jefferson mudou-a aconselhado por George Mason, o inspirador da Carta de Direitos; “Felicidade” é um conceito vago numa nação que sente os próprios músculos e os flexiona em todas as direções possíveis, derrubando obstáculos. Os mais fracos pereceram, como os índios (quatrocentos tratados entre brancos e índios. Todos, sem exceção, rompidos unilateralmente pelos brancos), ou foram submetidos a humilhações indizíveis, como os negros.

O século XIX, porém, foi a era de ouro do capitalismo liberal e nenhuma potência importante se desenvolveu de maneira muito diferente. Vale dizer que um dos admiradores das “cirurgias radicais” da elite branca dominante contra índios, mexicanos e negros era Karl Marx, sempre favorável a que o capitalismo se expandisse aos limites possíveis, antes do advento do socialismo.

E seria ignorância supor que não houve resistência interna, intelectual, humanista, contra as violências peculiares à época. Escritores como Mark Twain, Waldo Emerson e Henry Thoreau castigaram verbalmente o imperialismo e a crueldade do sistema na acumulação de riquezas. Harriet Beecher Stowe, em A cabana do Pai Tomás [1852], levantou a consciência abolicionista da nação e do mundo.

O ideal democrático, nos tumultos do século XIX, sempre coexistiu com o expansionismo interno e externo. Eugene Debs, líder socialista, obteve boa votação quando candidato à Presidência, no início do século XX. Em 1932, o socialista Norman Thomas foi candidato, com apoio expressivo da intelectualidade. Ideias radicais que transcendessem o liberalismo de 1776 nunca, porém, vingaram, e até hoje os EUA são o único país industrializado sem um movimento esquerdista consolidado em partidos e sindicatos operários.”

POTÊNCIA IMPERIAL

“Se os EUA já eram a maior nação industrial do mundo em 1960, disputando mercados imperiais com as competidoras europeias na China, Japão e América Latina, o centro político permanecia na Europa, particularmente o Império Britânico, dominando 500 milhões de pessoas e uma extensão de terra que deu origem à frase de que “o sol nunca se põe” sobre a bandeira inglesa. O capitalismo liberal europeu, porém, se despedaçou na guerra de 1914-1918, permitindo que os EUA “apanhassem os pedaços”, ao entrar no conflito em 1917, quando os adversários estavam esgotados de recursos e moralmente arrasados.

O “problema soviético” emergia somente no pós-guerra de 1945. O presidente Woodrow Wilson, que levou os EUA à chamada Grande Guerra, é a figura dominante do período. Propôs o internacionalismo, que, até hoje, 1976, é a política externa do país. Wilson via um mundo à maneira norte-americana, povoado de democracias representativas, liberto de esferas de influência (a causa das guerras, segundo o presidente), aberto ao livre comércio, que aproximaria os homens pelos interesses em comum.

A imagem é bonita e não há dúvida de que foi, em parte, baseada em convicções sinceras. A realidade, porém, era e é diferente. Já em 1919 a democracia representativa estava longe de ser a forma de governo preferida pela maioria das elites dirigentes do mundo. E o “livre comércio”, dada a superioridade industrial dos EUA, significaria, na prática, a hegemonia de Washington, que, de resto, emergiu do conflito credora de praticamente todas as nações envolvidas. E obrigaria os velhos impérios, Inglaterra e França, a desmontar o sistema autárquico e protecionista pelo qual mantinham as respectivas colônias.

A visão de Wilson também não correspondia à própria realidade do continente americano. Os EUA mantinham as mais altas tarifas protecionistas do mundo, na época, e queriam preservar a parte da Doutrina Monroe que lhes interessava, a não interferência europeia nas Américas, quando já haviam infringido outra componente da doutrina, a que haviam descartado na guerra, o não envolvimento dos EUA na Europa.

Os líderes econômicos norte-americanos, a comunidade de negócios, fizeram coro com Clemenceau e Lloyd George, rejeitando o curioso e seletivo idealismo wilsoniano. Daí o mito do “isolacionismo”, entendido como abstenção dos EUA dos assuntos mundiais, quando, em verdade, quer dizer apenas desligamento político, pois as multinacionais se expandiam em todos os continentes, querendo evitar, isto sim, acordos diplomáticos que lhes restringissem os movimentos.”

ISOLACIONISMO

“A Depressão de 1929 foi, em grande parte, causada pelo que Wilson abominava, esferas de influência que se traduziam em sistemas econômicos fechados, protecionismo, a luta anárquica por matérias-primas, a falta de coordenação do comércio mundial, a inexistência de uma comunidade mundial que gerisse harmoniosamente os recursos da Terra em favor das potências industrializadas e a praga corrosiva do nacionalismo.

Franklin Roosevelt, presidente de 1933 a 1945, encaminhou os EUA à hegemonia mundial e à reforma interna. O New Deal, o programa rooseveltiano, adotou ipsis litteris a visão internacionalista de Wilson, ao mesmo tempo que lançou os alicerces do Welfare State no país, criando a previdência social, o seguro contra o desemprego, e estendeu as franquias democráticas do povo. Foi um fracasso no sentido de que não resolveu o problema estrutural da Depressão (em 1940, os EUA enfrentavam 15% de desemprego), minorando apenas, pelo reformismo, a miséria social.

Em 1937, num agravamento da crise econômica, Roosevelt pronunciou o famoso discurso “Quarentena para os agressores”, a plataforma da política intervencionista que os EUA seguiriam a partir de 1941. Os “agressores”, naturalmente, eram Hitler, Mussolini e Hiroíto, nacionalistas ressentidos, derrotados direta ou indiretamente em 1918, que exigiam agora um lugar ao sol, usando violência se necessário, num mundo devastado pela Depressão e, mais grave, sob ameaça de uma revolução das massas no modelo do abominado bolchevismo.

O discurso foi mal recebido nos EUA, pois a concepção de expansionismo econômico sem amarras políticas, o “isolacionismo”, continuava dominante. Os acontecimentos, porém, trabalhavam a favor de Roosevelt.

A guerra europeia de 1939, em 1941, se tornou mundial, atraindo os EUA, a URSS e o Japão. A aliança entre EUA, URSS e Inglaterra foi um casamento de conveniência que se desfez rapidamente na realidade da paz. Stálin queria segurança no Leste Europeu, em suma, uma esfera de influência soviética. Churchill pretendia, cego à ruína econômica inglesa, manter o império e o sistema de “bloco da libra”, que obrigava colônias e domínios a negociar exclusivamente em termos favoráveis à Inglaterra. Uma quimera que a necessidade inglesa de obter auxílio dos EUA, quando sozinha em face da Alemanha, destruiu rapidamente, tornando a Grã-Bretanha sócia menor de Washington, condição em que se encontra até hoje.

A URSS era diferente. Venceu a guerra na Europa, arcando com 70% da luta contra Hitler, o que fica evidente nos documentos da Conferência de Ialta (fevereiro de 1945). Estabeleceu seu sistema no Leste Europeu. O resto do mundo caiu sob controle americano, ao menos até que ocorressem as revoluções chinesa, cubana e vietnamita.

O enriquecimento dos EUA na Segunda Guerra pode ser aferido pelos seguintes dados: em 1941 o PIB do país era 96 bilhões de dólares: em 1942,122 bilhões: em 1943,149 bilhões; em 1944,160 bilhões. Hoje, é 1 trilhão e 300 bilhões, dobrando praticamente a cada ano do pós- guerra.

Roosevelt montou, em Dumbarton Oaks e Bretton Woods, os sistemas político (Nações Unidas) e econômico (Banco Mundial etc.) em que se alicerçaria a hegemonia americana. Se atas de conferência valem alguma coisa, sem falar de extensos estudos históricos disponíveis, Roosevelt pretendia respeitar algumas aspirações soviéticas a uma esfera de influência no Leste Europeu. Não viveu o bastante para que saibamos, com certeza.

O sucessor, Harry Truman (1945-1953), inseguro, temeroso de que o desmantelamento da economia de guerra trouxesse de volta a Depressão e armado da “invencível” bomba nuclear, então monopólio dos Estados Unidos, interpretou diferentemente o acordo (ambíguo, é verdade) de Ialta e resolveu enfrentar a “ameaça soviética”. Nenhum estrategista norte-americano previra que a Europa Ocidental, devastada pelo conflito, se sentisse atraída a modelos socialistas de recuperação, o que aconteceu entre 1943 e 1947, quando então a influência dos EUA e programas de rearmamento (Otan) e recuperação econômica (Plano Marshall), sem falar da Doutrina Truman, de 1947, que prometia intervir em qualquer canto do globo sob risco de subversão, contiveram o surto revolucionário. O preço foi a divisão permanente da Europa, oficializada em Helsinque, 1975.”

AUTOCRÍTICA E RECUO

“Se a hegemonia dos EUA não foi total, pós-1945, não há dúvida de que se imprimiu na maior parte do mundo, toda aquela, de resto, que não caiu sob controle comunista. O país prosperou de maneira estupenda, dobrando o PIB de 1950 a 1960, de 1960 a 1970, enquanto missionariamente bloqueava surtos nacionalistas que suspeitava fossem de origem ou em proveito da “outra igreja”, com base em Moscou.

Uma guerra entre nações industrializadas se tornou difícil depois que a URSS atingiu paridade nuclear com os EUA. A luta ideológica se transferiu para o Terceiro Mundo, onde está até hoje. Não há vitoriosos. Ambos os blocos podem apontar sucessos e fracassos.

Nos EUA, porém, a partir da guerra no Vietnã, um intenso movimento de autocrítica está em curso. Os horrores do conflito penetraram em todos os lares americanos pela televisão em cores. A tenacidade dos vietnamitas, um dos povos mais pobres da Terra, enfrentando a maior máquina militar e tecnológica da história, chocou profundamente o povo americano. O liberalismo da sociedade permitiu que a crítica virulenta às premissas básicas da política externa de Washington tivesse ampla divulgação, o país rachou entre intervencionistas e não intervencionistas, tema que sublinha a campanha eleitoral de 1976.

Se isso não bastasse, o escândalo de Watergate, em 1972, levando à renúncia, pela primeira vez na história, um presidente, revelou insuspeitadas vulnerabilidades no sistema, em sua ação interna.

Essas crises certamente diminuíram muito o sentimento anticomunista, que beirou o patológico, entre 1949 e 1956. Isso não significa que haja simpatia pelo comunismo. Ao contrário. O PC tem 100 mil membros nos EUA. O regime soviético é visto como uma monstruosidade totalitária.

Há, porém, maior tolerância pela diversidade do mundo e uma repulsa forte à tese de que os EUA devem determinar o rumo a ser seguido pelos outros países. O espírito liberal de 1776 se reafirmou em face dos desastres na Indochina e de Watergate.

A própria elite dirigente parece ter reconhecido os limites do seu poder. Esse é um dos significados da política de détente, “negociar em vez de confrontar”, só não aceita, e de boca, por um dos candidatos à Presidência de 1976, Ronald Reagan.

O quadro mundial mudou completamente. Hoje, os EUA e as demais nações capitalistas industrializadas enfrentam uma rebelião, anárquica e contraditória, porém inequívoca, do chamado Terceiro Mundo, fornecedor passivo no século XX de matérias-primas e mercados, em troca de muito pouco. O símbolo dessa rebelião, encabeçado por nações na maioria conservadoras, é a Opep. Os EUA dizem-se dispostos a negociar. É provável que não exista alternativa.

O país, porém, está mais próspero do que nunca, prevendo-se em 1976 um crescimento real de 7% sobre um PIB de 1 trilhão e 300 bilhões de dólares, depois de vencida a recessão de 1974- 1975. Os americanos produzem mais e consomem mais que dois terços da humanidade. E gozam do sistema político mais livre do mundo. Têm muito por que se autocongratularem.

Existe consciência de problemas sociais profundos. Nenhum é insolúvel. É possível integrar o negro, a mais alienada componente da sociedade, às benesses que já se tornaram rotineiras para a classe média branca. Basta haver liderança. Virão com certeza um seguro médico nacional, uma garantia de emprego a cada cidadão apto e outros aperfeiçoamentos do Welfare State inaugurado por Franklin Roosevelt.

A maioria do povo permanece fiel ao sistema, se bem que um número crescente de pessoas lhe nota as deficiências internas e privilégios incompatíveis com uma ordem mundial em que a justiça prevaleça. O país, porém, é jovem e nunca revelou incapacidade de aprender. E o povo, o que é mais importante, nunca permitiu que lhe roubassem o direito de pensar e agir livremente.”


Em guerra contra todos

Em todas as suas ações, os Estados Unidos estão engajados em preservar ou ampliar sua hegemonia como única potência mundial. Esta é a tese central de A Segunda Guerra Fria: Geopolítica e Dimensão Estratégica dos Estados Unidos – Das rebeliões na Eurásia à África do Norte e ao Oriente Médio(Civilização Brasileira, 714 páginas, R$80), novo livro de Luiz Alberto Moniz Bandeira, um dos maiores especialistas brasileiros no assunto. A seguir, Moniz Bandeira, professor titular aposentado de história da política exterior do Brasil da Universidade de Brasília (UnB), aprofunda alguns dos argumentos de sua tese, entre eles o de que, sem o apoio dos EUA, a chamada Primavera Árabe não teria ocorrido.

Que os EUA buscam o controle global sobre o mundo está documentado. O general Colin Powell, chefe do Estado-Maior Conjunto das Forças Armadas, no governo de George H. Bush, recomendou aos EUA impedir a União Europeia de tornar-se uma potência militar, fora da OTAN, a remilitarização do Japão e da Rússia, e desencorajar qualquer desafio à sua preponderância ou tentativa de reverter a ordem econômica e política internacionalmente estabelecida. Em 1992, Dick Cheney, então secretário de Defesa, divulgou um documento no qual estabeleceu que a primeira missão política e militar dos EUA pós-Guerra Fria consistia em impedir o surgimento de algum poder rival na Europa, na Ásia e na extinta União Soviética. A dominação de espectro total significava a ampliação e consolidação da hegemonia planetária dos Estados Unidos. Era o objetivo dos neoconservadores de George W. Bush, endossado por Barack Obama. A espionagem da NSA, da qual tratei também no meu livro Formação do Império Americano, é um instrumento para a conduzir as operações de informação, com o propósito de "facilitar e proteger os processos de tomada de decisão nos EUA, e, em um conflito, degradar os do adversário". Quando se trata de estabelecer dominação de espectro, a guerra é contra todos os países, por diferentes meios, para submetê-los à condição de vassalos.

As relações econômicas moderam a rivalidade, mas não a eliminam. Grandes corporações americanas entre as quais Boeing, Caterpillar, General Motors, 3M, United Technologies, DuPont, Apple, Qualcomm, Intel Corp e IBM estão a depender do crescimento do mercado na China. E a economia dos EUA, como um todo, depende fortemente do influxo de capitais de outros países, como a China. O Banco Central chinês, em setembro de 2013, possuia reservas da ordem de 3,6 trilhões de dólares. Um calote dos EUA, cuja possibilidade não se pode descartar, abalaria profundamente a China. O governo de Beijing passou a acelerar a estratégia para destituir o dólar do status de moeda de reserva mundial, impulsionando a globalização do yuan. Enquanto o dólar for moeda internacional de reserva, os EUA manterão a supremacia mundial. A economia de “free markets” no estilo que os Estados Unidos querem manter engata os países a um sistema de força, compelindo-os a aceitar dólares sem limites. E há no mínimo cerca de 20 trilhões de dólares, valor muito superior ao PIB americano, em circulação no mundo. A China e demais países têm de comprar esses dólares sem lastro (US Treasury Bond) apresentados como os investimentos mais seguros, porque não há alternativas, e assim eles voltam aos Estados Unidos, para financiar o consumo do povo americano, o déficit orçamentário e suas guerras. E a China quer libertar-se desse sistema, assim como a Rússia, Brasil e outros países.

Existem também fatores geopolíticos que aguçam a rivalidade. Através da rota marítima, ao sul da China, circula cerca de um terço do comércio mundial e a região possui reservas inexploradas de gás e petróleo. A essa região do Pacífico o presidente Barack Obama deu "máxima prioridade" na política externa dos Estados Unidos e lá aumentou sua presença militar, inclusive com o envio de 2,2 mil soldados para o norte da Austrália, o que provocou forte reação da China. Os Estados Unidos temem o rápido crescimento e militarização da China. Porém, nada podem fazer para impedi-lo. Com o desenvolvimento tecnológico e a globalização da economia, a possibilidade de guerras entre grandes Estados virtualmente desvaneceu. E os Estados Unidos, com todo o seu potencial bélico, dificilmente prevaleceriam sobre um país cuja população é cinco vezes maior do que o tamanho da população americana.

O pretexto dos Estados Unidos sempre foi a promoção da democracia, porém, uma democracia que signifique livre mercado, livre circulação de capitais e de mercadorias, livre câmbio e que eles possam controlar através do seu poder econômico. E a experiência já demonstrou, no Brasil e em toda a América Latina, que os Estados Unidos intervieram, apoiando golpes militares, quando a democracia atendeu às demandas populares, em detrimento dos seus interesses. Agora os Estados Unidos continuam a intervir, mas sorrateiramente, por meio de organizações não governamentais (ONGs), financiadas pela National Endowment for Democracy (NED), Agency for International Development (USAID), Freedom House e outras entidades e fundações americanas, que lavam o dinheiro da CIA e financiam os movimentos para promover a mudança de mudança de regime, sem golpe de Estado. A estratégia agora adotada, baseada nos ensinamentos do professor Gene Sharp, no From Dictatorship to Democracy, e do coronel David Galula é a da "guerra fria revolucionária", na qual as atividades de insurgência permanecem, na maior parte do tempo, dentro da legalidade, realizando manifestações e provocando medidas a serem denunciadas como violência das autoridades, a divulgação de rumores falsos ou verdadeiros destinados a solapar a credibilidade e a confiança no governo por vários meios, mediante a guerra psicológica, social, econômica e política. A Segunda Guerra demonstra, documentadamente, como esses métodos nas revoltas ocorridas na Sérvia, Ucrânia, Geórgia, bem como nos países da África do Norte e Oriente Médio.

Democracia e liberdade para os Estados Unidos não significam, atualmente, o mesmo que em 1776, quando a guerra pela independência das 13 colônias da Inglaterra começou. Naquela época, para Tom Paine, os Estados Unidos eram o "império da liberdade", onde havia igualdade perante a lei, igualdade de direitos políticos e igualdade de oportunidades. Com o tempo, tanto os conceitos de democracia e liberdade foram corrompidos. Os Estados Unidos estão a converter-se em uma democracia totalitária. E o que sempre pretenderam foi exportar para outros países, desde que começaram a expandir o "imperialismo da retidão" não foi a forma de de­mo­cracia mas a democracia de forma, aquela que atendia aos seus interesses econômicos, comercias, políticos e estratégicos.

Os EUA não são um país homogêneo. Há profundas contradições internas refletidas na sua política exterior e nas relações exteriores. A grande maioria do povo não queria enviar seus filhos para o Kosovo. A tática adotada, então, foi fazer a guerra desde as altitudes, sem empregar tropas terrestres de modo que os americanos não morressem e as baixas não provocassem protestos domésticos, como acontecera durante a guerra no Vietnã. Os Estados Unidos pretendiam expandir a função da OTAN e dominar a Bósnia-Herzegovina e o Kosovo, pois os Bálcãs se revestem de importância econômica e estratégica, dado ser a rota para a Palestina, Iraque, Irã, o Mar Cáspio e a Transcaucásia, onde as corporações americanas projetavam explorar vastas jazidas de petróleo lá existentes. Quanto ao Egito, a situação era muito diferente, pois o país tornara-se estrategicamente de maior relevância para os EUA. O relacionamento com o Egito, cuja situação não está estabilizada, é muito delicado para os EUA dada a situação de Israel e o conflito na Palestina.

Há muitas exceções, na mídia, sobretudo em jornais dos Estados Unidos, Grã-Bretanha e a Alemanha, onde trabalham notáveis jornalistas, que exercem a profissão com a maior independência, embora alguns jornais possam atender às pressões do governo, como aconteceu quando passaram a chamar a resistência no Iraque de insurgência, quando os Estados Unidos e Grã-Bretanha derrubaram o regime de Saddam Hussein. E o fato é que o Army Civil Affairs and Psychological Operations Command (USACAPOC), dos Estados Unidos, e o MI6, ramo externo do Serviço Secreto de Inteligência da Grã-Bretanha usaram e usam a mídia internacional como veículo de desinformação e contra-informação, encobrindo o envolvimento direto e/ou indireto do Ocidente, sobretudo, nos levantes na Líbia e na Síria. O MI6 tem uma divisão dedicada às Operações de Informação, que planeja as operações de guerra psicológica. Uma de suas principais tarefas é plantar, na imprensa, falsas histórias, rumores e desinformação. E a estratégia para intervir na Líbia consistiu em construir, através da mídia, um imaginário, em que o ditador Muammar Gaddafi estava na iminência de massacrar os civis. A manipulação das notícias pela mídia – BBC, CNN, Al-Arabiya e Al-Jazeera – desinformando e exagerando o número de mortos, foi o que contribuiu decisivamente para criar no Conselho de Segurança da ONU o clima contra a Líbia e o mesmo se tentou contra a Síria. Um dos rebeldes, Qusai Abdel-Razzaq Shaqfeh, da província de Hama, confessou em programa da TV estatal de Damasco que havia atuado como testemunha e fabricado falsas notícias e vídeos sobre eventos para TV Al-Jazeera, com sede em Doha, e colaborado com estrangeiros para armar grupos e atacar as forças de segurança do governo e civis, e, ajudado por profissionais, a montar programas, filmando demonstrações encenadas, para enviar os vídeos aos canais árabes de televisão.

Os episódios do WikiLeaks e da espionagem da NSA não abalam o poder dos EUA, mas arranharam bastante sua imagem e, possivelmente, o prestígio e influência junto na opinião pública de alguns países, já bastante desgastados pelos presidentes George W. Bush e Barack Obama pelas guerras em que se envolveram e as matanças com drones de civis inocentes, pelo gulag, o campo de concentração de Guantánamo, e pela sistemática violação dos direitos humanos, com soldados americanos brutalizando, torturando e humilhando os prisioneiros em Abu Ghraib, no Iraque.

Os Estados Unidos intoxicaram-se com a vitória na Segunda Guerra Mundial e julgaram, após o fim do regime soviético, que seu império ainda poderia durar 300 anos. Porém, o militarismo sempre constituiu o meio pelo qual todos os impérios se suicidaram. Em agosto de 2007, David M. Walker, chefe do Government Accountability Office (GAO), órgão do Congresso americano encarregado da auditoria dos gastos do governo, advertiu que o país estava sobre uma “plataforma abrasante” de políticas e práticas insustentáveis, escassez crônica de recursos para a saúde, problemas de imigração e compromissos militares externos, que ameaçavam eclodir se medidas não fossem em breve adotadas. Sem um estado de guerra permanente a economia dos Estados Unidos deixa de funcionar. O mesmo aconteceu com o Império Romano. Mas não será nenhuma outra potência que derrotará o Império Americano. Ele há de desmoronar, ao longo de algumas décadas, sob o peso de suas contradições econômicas. Os Estados Unidos não podem aumentar, indefinidamente, a dívida pública, que já se tornou impagável, emitir dólares sem lastros para comprar petróleo e outras as mercadorias – commodities e manufaturas – e importar capitais de outros países, mediante a venda de bônus do Tesouro, para financiar o déficit orçamentário, o consumo, que excede a produção, e as guerras que empreende a fim de sustentar a indústria bélica e sua cadeia produtiva, da qual sua economia tanto depende.

O capitalismo americano


“Years before the Declaration of Independence…Benjamin Franklin, George Washington and Thomas Jefferson, as well as a considerable ratio of New England´s most proeminent Congregationalist ministers already talked of America reaching the Mississippi or even the Pacific to become the next century great empire”
Kevin Phillips, “The Cousins´ Wars”, Basic Books, New York, 1999, P:116


A publicação - em 1894 - do livro do economista inglês, John A. Hobson (1858-1940) - “A Evolução do Capitalismo Moderno” - transformou-se numa referencia obrigatória para a interpretação do desenvolvimento econômico dos Estados Unidos. Depois de Hobson, vários historiadores e economistas retomaram sua tese sobre a originalidade radical do capitalismo americano, vis a vis o desenvolvimento europeu. Em particular, depois da Guerra de Secessão (1861-1865), com o surgimento das grandes corporações e do capital financeiro que teriam revolucionado a organização microeconômica, e mudado a face do capitalismo mundial. Do nosso ponto de vista, entretanto, estas transformações ajudam a entender o “milagre econômico” americano do início do século XX, mas não explicam as próprias transformações.

Os Estados Unidos foram o primeiro estado nacional que nasceu fora da Europa, mas não fora do sistema geopolítico e econômico europeu. Pode-se dizer inclusive, que a “Guerra da Independência” americana foi, em grande parte, um capítulo da disputa entre a Inglaterra e a França pela supremacia mundial. E sua conquista definitiva ocorreu entre as duas grandes guerras (“Dos 7 Anos” e “Bonapartista”) que definiram a hierarquia de poder internacional, e a supremacia inglesa, dentro e fora da Europa, a partir de 1815.

Durante este período de guerras, os Estados Unidos sempre se sentiram “cercados” e ameaçados - simultânea ou sucessivamente - pela Inglaterra, França e Espanha, e tiveram que negociar seu reconhecimento e suas fronteiras com o “núcleo duro” das Grandes Potências europeias.

Assim mesmo, os EUA acabaram se transformando no único estado nacional extra-europeu que nasceu de um império e de uma economia em plena expansão vitoriosa. Mais do que isto, durante a chamada “revolução industrial” que transformou os Estados Unidos – imediatamente - na primeira periferia “primário-exportadora” de sucesso da economia industrial inglesa. Situação econômica privilegiada que se consolidou e expandiu durante todo o século XIX, antes e depois da Guerra de Secessão, enquanto a Inglaterra abria espaços de expansão comercial para sua ex-colônia, e assumia a responsabilidade – em alguns momentos - por cerca de 60% do investimento direto dentro de todo o território norte-americano, que passou a fazer parte de uma espécie de “zona de co-prosperidade” anglo-saxônica , ou mesmo, num caso avant la lettre, de “desenvolvimento a convite”, da Inglaterra.

Por outro lado, desde sua independência, os Estados Unidos foram governados por uma elite coesa e com um intense commitment imperial, e mantiveram um ritmo de expansão política e territorial contínua, através da guerra, da diplomacia e do comércio. Antes da Guerra Civil, foram 37 “guerras indígenas”, e mais as Guerras do Texas e do México, em 1837 e 1846, responsáveis pela duplicação do território americano. Mais a frente, vieram a Guerra Civil e a Guerra Hispano-Americana, e uma sucessão de intervenções militares no Caribe, num movimento de expansão que se acelerou no século XX, alcançando Europa, Ásia, Oriente Médio e África. De forma que nos cerca de 250 anos de história independente, os EUA iniciaram - em média - uma guerra a cada três anos, exatamente igual como a Inglaterra. Contando com a vantagem de ser “membro por nascimento”, da pequena comunidade dos estados produtores da “ética internacional” que arbitram as “guerras justas” e o “livre comercio”.

A história segue e é extensa, mas já se pode dizer que ela fornece fortes indícios de que:

- o desenvolvimento econômico dos EUA não foi uma exceção, pelo contrário, foi uma parte essencial da expansão e das contradições do sistema inter-estatal e do capitalismo europeu;

- o sucesso do capitalismo americano não foi puramente endógeno, nem foi apenas uma obra das grandes corporações e do capital financeiro que nasceram à sombra da Guerra Civil;

- o “apoio externo” foi decisivo para o sucesso da economia americana, que foi sempre a principal “fronteira de expansão” do capital financeiro inglês;

- a “guerra contínua” teve um papel estratégico no desenho da política industrial e agrícola, e no desenvolvimento científico e tecnológico dos EUA;

- e por fim, a expansão política, territorial e bélica dos EUA foi na frente do processo de internacionalização das grandes corporações, do capital financeiro e da moeda norte-americana.

Uma história de desenvolvimento econômico como a das demais potências do sistema mundial, mas muito diferente da interpretação economicista de Hobson e seus discípulos.

Quando os EUA mentem...

A imprensa ocidental, e por vício habitual de cópia, a mídia brasileira, resolveu assumir uma narrativa da atual e crítica situação do Oriente Média em termos de oposição intra-islâmica, colocando frente à frente a oposição entre as diversas concepções do Islã, em especial entre sunitas e xiitas. Em face do radicalismo das duas interpretações da mensagem do Profeta Mohammed o Islã estaria, definitivamente, dividido e a formação de unidades estatais viáveis seriam impossíveis. De fato, ambas as vertentes se enfrentam, desde a morte do Califa Ali – primo e genro do Profeto - aqueles que defendiam a manutenção indicativa do “Califado” nas mãos dos ricos comerciantes do clã coraixita e os demais, que defendiam a linha sucessória na família do Profeta – com os descendestes de sua filha Fátima casada com Ali – tornou-se um ponto de forte divisão. O califado, esta forma de governo religioso e laico do Islã, foi formalmente extinto entre 1923 e 1924, quando os turcos consolidaram a República em seu país, e o monarca turco, o sultão, que era também o califa, perdeu seus títulos. Desde então o Islã não possui um califa, seja de tradição sunita, seja de tradição xiita.

Tal divisão, entre sunitas (tradicionalistas) e xiitas ( de “shia”, os partidários de Fátima e Ali ) só se aprofundou desde o cisma do século VIII: contatos com o mazdeísmo persa e cristianismo bizantino e a heresia nestoriana, o Islã xiita assumiu aspectos bastante diferentes do sunismo tradicional, admitindo romarias, cerimônias de flagelação, culto aos homens santos, relíquias e santuários (túmulos de homens santos, por exemplo em Karbala e Najaf), além de uma total repulsa ao “califa” ( de “kalifat rasúl Allah”, onde “califa” é o título do “sucessor” enviado por Deus, e que guardaria em si o poder civil e religioso). Após o assassinato de Ali, sangue do Profeto, e seus filhos, todos os “califas” (os “sucessores” seriam ímpios e carregariam a culpa do derramamento do sangue do verdadeiro e único Profeta.

O domínio turco sobre os árabes – desde o século XV até 1918 – e depois disso o domínio francês e britânico só aprofundaram as divisões, com as potencias coloniais escolhendo os sunitas – mais inclinados em aceitar as exigências do poder e reconhecer a autoridade dos governantes – para formar as elites dominantes pro-Ocidente. Foi assim no Iraque: uma rala minoria de sunitas foi organizada pela Grã-Bretanha, desde 1918, para governar a maioria da população xiita. Assim, sunitas e os interesses imperialistas ocidentais uniram-se no Iraque, no Líbano, na Síria, nos Qatar e na Arábia saudita – sempre resultando em ditaduras cruéis e altamente repressoras.

No regime do Partido Baath (Baas), sob Saddan Hussein, houve um arranjo precário com cristãos e certa tolerância com os xiitas, mas nos últimos anos do regime Saddan, os xiitas – muitas vezes apoiados e incentivados pelos EUA – revoltaram-se contra Saddan (um sunita) – e foram brutalmente reprimidos, com milhares de mortes e um amplo uso da tortura.

Assim, a versão de incapacidade de formar um Estado viável, em razão de divergências religiosas, oculta a continua e longa intervenção ocidental no Mundo Árabe, e a responsabilidade do Ocidente de lançar grupos religiosos e étnicos uns contra outros, visando facilitar a dominação estrangeira (foi assim na Índia sob domínio britânico; em Ruanda sob o colonialismo belga ou na Nigéria sob domínio britânico, por exemplo). Desta forma, o papel do imperialismo e do colonialismo, sua responsabilidade nas divisões locais, incluindo aí, a política dos Estados Unidos para a região – e antes dela, a contínua intervenção colonialista da Grã-Bretanha e da França, herdada pelos próprios americanos – fica excluída da responsabilidade factual e moral pela atual situação na região.

A principal “causa” apontada pela imprensa, repercutindo declarações e notas à imprensa, das autoridades de Washington, é a “incapacidade” do governo do premier Al-Maliki, um xiita, em “unir” e liderar um governo com sunitas e curdos.

Ora, um governo de coalizão funcionava no Iraque desde que este recuperou sua autonomia, na era pós-Saddan Hussein – com curdos, xiitas e sunitas. O governo parlamentar, misto, baseado em ampla coalizão étnica e religiosa, visava, exatamente, dar voz e direitos a maioria da população do Iraque, constituída de xiitas, e autonomia controlada para os curdos, e que foram perseguidos, e mortos em grande número, durante os anos da ditadura de Saddan.

Uma das milícias xiitas da era pós-Saddan foi exatamente o “Dawa”, um grupo que enfrentou, além da Al-Qaeda, os remanescentes da Guarda Republicana de Saddan e os próprios americanos, de quem queriam uma rápida saída do Iraque depois da invasão de 2003. Desde 2006, o “Dawa”, transformado em partido político sob a liderança de Al-Malik, governa, com a maioria parlamentar, governa de Bagdá. Trata-se, a bem da verdade, de uma ampla e frágil coalizão. A oposição a Al-Malik não está centrada nos sunitas e/ou na exclusão destes. Mas, em outros grupos xiitas, inclusive nas “Milícias do Mahdi”, do líder Muqtada Al-Sadr, líder da “Milícia do Mahdi”, favorável à criação de um regime islâmico no país.

Nouri Al-Malik, por sua vez, foi exilado longo tempo na Síria (foi condenado à morte por Saddan), opôs-se fortemente aos Estados Unidos. Al-Malik se opõe, em especial, a política americana de reintegrar numerosos quadros do proibido Partido Baath – o partido único no poder na Era Saddan – incluindo a readmissão de militares fiéis a Saddan, policiais acuados de torturas, juízes e funcionários públicos do Baath envolvidos nas brutais repressões da Era Saddan. Na versão americana da recusa de Al-Malik se deve ao sectarismo “xiita” do premier. Na verdade, os Estados Unidos estão propondo ao governo do Iraque – por sinal reeleito em 30 de janeiro de 2014 – é que aceite, e perdoe, os membros do governo de Saddan, que participaram ativamente de ataques brutais contra a maioria o xiita do seu próprio povo.

Em nome da “união nacional”, os Estados Unidos, mais uma vez e em mais um país – tal como fez na América Latina -, exige que criminosos e violadores de direitos humanos, sejam levados ao poder e o passado recente seja esquecido. Washington gostaria, bem mais, de ver no governo homens como Ahmed Chalabi, premier entre 2005 e 2006, é um “cliente” da CIA e pensionista do governo americano. Chalabi, o principal informante dos EUA e chamado “o homem que preparou a invasão do Iraque”, perdeu sua cadeira no parlamento na última eleição. Outro nome defendido pelos EUA seria Ilyad Allawi, um líder secular, não religioso, ex-membro do Partido Baath, de Saddan Hussein, e que foi membro do governo de transição entre o governo de ocupação dos EUA e o novo governo livre do Iraque. O que ocorre é que ambos não possuem votos que legitimem suas possibilidades de formar um governo. Mas, tal qual fora no Vietnã do Sul (com Cao Ky e Van Thieu), nos anos de 1960, os EUA insistem na sua política de “nomear” os governantes de países clientes, malgrado os resultados das eleições.

Al-Maliki, acusado no passado de ter organizado atos terroristas contra os Estados Unidos e a França no Oriente Médio, causa, ainda, outros “transtornos” a Washington. Em primeiro lugar, as exigências americanas de extraterritorialidade para todo seu pessoal, incluindo militares, policiais e “contratados” (ou seja, mercenários) americanos no Iraque, foi recusado pelo Gabinete Al-Maliki. Assim, sob pressão da então secretária de defesa Hillary Clinton (entre 2009 e 2013), os Estados Unidos optaram, para melhorar e adornar a política externa “pacifista” de Obama, por uma retirada total de tropas do Iraque. Tratou-se, claramente, de um ato de chantagem: ou os EUA controlavam amplamente as FFAA e a Polícia iraquiana, com a inclusão dominante dos ex-membros do Baath, ou partiriam.

Al-Maliki optou pelo risco e pela manutenção da abaladíssima soberania iraquiana.
Além disso, em dois pontos fundamentais da política externa de Obama para o Oriente Médio, Bagdá contrariava os EUA. Por um lado, estreitou suas relações com o Irã, o maior país muçulmano xiita, governado por um regime hostil a Washington e a Israel, além de se aproximar da Rússia, onde comprou armas de alta performance (a ex-URSS era uma aliada do Iraque). Obama-Clinton tentaram, largamente, impedir as relações amigáveis entre Bagdá e Teerã e Moscou (o Partido “Dawa” de Al-Maliki possuiu fortes vínculos com o clero xiita iraniano) e sabotava claramente a tentativa americana de isolar o Irã.

Da mesma forma, Bagdá ensaiou uma política externa independente em relação às chamadas revoluções das “Primaveras” árabes, em especial na Síria. Para Bagdá, e Teerã, a situação na Síria era, e é, totalmente distinta das demais “primaveras”. Desde cedo denunciaram uma ampla intervenção externa, oriunda do Catar e da Arábia Saudita, com apoio dos Estados Unidos, Turquia e França, para derrubar o regime de Assad, uma coalizão xiita (alawita) e de cristãos, de caráter nacionalista, pan-árabe e anti-Israel. Teerã e Bagdá denunciaram, desde logo, a intervenção estrangeira e a presença de mercenários e voluntários vindos do Golfo Pérsico, financiados pela Arábia Saudita e armados pela Inglaterra e França, visando derrubar o regime de Damasco.

Na Síria formou-se uma ampla coalizão fundamentalista, sunita, e de caráter altamente intolerante e conservador: a Al-Qaeda, a Frente Al-Nusra e a dissidência “Estado Islâmico do Iraque e do Levante (leia-se, Síria), chamado ISIS, em inglês.

Tal coalizão, no início manipulada pela Arábia Saudita – a possibilidade de unificar uma ampla área de territórios árabes sob sua autoridade e eliminar a influência iraniana na região–, tornou-se cada vez mais autônoma, e acabou por unir-se claramente aos ideais da Al-Qaeda, a qual foi, por fim, superada pela dureza e crueldade do “Estado islâmico do Iraque e do Levante”.

Por fim, Al-Maliki causou grande mal-estar em Washington, e Paris, ao apoiar os grupos pan-arabistas e xiitas no Líbano, onde o Partido “Dawa”, coirmão libanês do “Dawa” iraquiano e também muito próximo de Teerã, enfrentou as tropas americanas e francesas no Líbano.

Assim, nos anos recentes da Administração Barack Obama-Hillary Clinton (2009-2013) – cada vez mais próxima da centro-direita e da direita conservadora americana e dos interesses sauditas nos EUA – deu-se uma clara opção anti-Irã, anti-Dawa, anti-xiíta, baseando-se num triangulo estratégico capaz de dominar o mundo árabe, centrado na Turquia, Israel e Arábia saudita. Por tal opção, obsessivamente anti-iraniana, Washington permitiu o crescimento do fundamentalismo wahabita – o ramo mais radical do Islã sunita, que executa membros do clero xiita e destrói os lugares santos do xiismo -, a formação de um amplo exército e deu a estes uma base territorial, dominando territórios da Síria e do Iraque, fato que a Al-Qaeda jamais conseguira. O mais estranho de tudo, a somar-se a este imenso rol de erros estratégicos, políticos e antropológicos de Washington, é que a morte de Osama bin Laden, fortaleceu e acelerou a luta contra o governo de Bagdá, estabelecido pela invasão americana em 2003. A desaparição da liderança carismática de Bin Laden, entre seus seguidores e simpatizantes, permitiu a emergência de forças dissidentes como o “Estado islâmico do Iraque e do Levante” e a proclamação do “califado”, abrindo uma nova e explosiva realidade no Oriente Médio.

Enfim, os Estados Unidos, agiram como Harry Porter ao ganhar sua primeira varinha mágica: libertaram forças que não conheciam e não controlam. A diferença, crucial, é que neste caso há claro risco de descontrole geral e um amargo fim para os povos locais.

Os sete governos derrubados pelos EUA

A era de golpes apoiados pela CIA despontou de maneira dramática: um general norte-americano viaja até o Irã e encontra “velhos amigos”; dias depois, o Xá ordena que o primeiro-ministro Mohammed Mossadegh deixe seu cargo. Quando os militares iranianos hesitam, milhões de dólares são injetados em Teerã para corromper os apoiadores de Mossadegh e financiar protestos de rua. Os militares, reconhecendo que a balança do poder começou a pesar mais do outro lado, derrubam o primeiro-ministro, que vive o resto de sua vida sob prisão domiciliar. Este foi, como um documento da CIA atesta, “uma operação norte-americana do começo ao fim”, e um dos muitos golpes apoiados pelos EUA que aconteceram pelo mundo durante a segunda metade do século XX.

Alguns líderes, tanto ditadores quanto eleitos democraticamente, foram pegos em meio ao conflito entre EUA e URSS da Guerra Fria - uma posição que custaria seus postos (e, para alguns, suas vidas) conforme a CIA tentava instalar “seus homens” no comando dos estados. O governo dos EUA reconheceu publicamente algumas dessas ações secretas; na verdade, o papel da CIA no golpe de 1953 tornou-se público esta semana. Em outros casos, o envolvimento da CIA ainda está somente sob suspeita.

O legado do envolvimento secreto dos EUA em sete golpes militares bem sucedidos (para não mencionarmos o número de intervenções militares norte-americanas contra regimes hostis, insurgências apoiadas pelos EUA, e tentativas fracassadas de assassinatos, incluindo o caso do plano para matar Fidel Castro com um charuto explosivo), transformaram a mão secreta dos EUA em um bicho-papão nas tensões políticas de hoje. Mesmo hoje, não obstante a minguante influência dos EUA no Cairo, teorias da conspiração sugerem que tanto a Irmandade Muçulmana quanto o governo militar possuem uma sociedade com os Estados Unidos.

Abaixo, uma breve história dos casos confirmados de golpes apoiados pela CIA espalhados pelo mundo.

Irã, 1953 - Muito se especula sobre o papel da CIA no golpe que instalou, em 1949, um governo militar na Síria. Apesar disso, a derrubada do primeiro-ministro iraniano Mohammed Mossadegh é o primeiro golpe durante a Guerra Fria que o governo dos EUA reconheceu. Em 1953, depois de quase dois anos de governo Mossadegh - durante o qual ele desafiou a autoridade do Xá e nacionalizou a indústria do petróleo iraniana antes operada por companhias britânicas - Mossagedh foi tirado de seu gabinete e preso, passando o resto da vida sob prisão domiciliar. De acordo com documentos da CIA, “foi a possibilidade de deixar o Irã aberto para uma agressão dos soviéticos - quando a Guerra Fria estava em seu auge e os EUA estavam envolvidos em uma guerra não declarada na Coreia contra forças da União Soviética e da China – que nos fez planejar e executar o TPAJAX [nome da operação do golpe]”.

Guatemala, 1954 - Apesar dos EUA no início apoiarem o presidente guatemalteco Jacobo Árbenz - o Departamento de Estado sentia que sua ascensão apoiada num exército armado e treinado pelos EUA seria um trunfo - o relacionamento amargou assim que Árbenz tentou realizar uma série de reformas-agrárias que ameaçavam as posses da empresa norte-americana United Fruit Company. Um golpe em 1954 tirou Árbenz do poder, colocando uma sucessão de juntas militares em seu lugar. Detalhes secretos do envolvimento da CIA na derrubada do líder guatemalteco, que incluíam a equipagem de rebeldes e tropas paramilitares enquanto a marinha dos EUA bloqueavam a costa guatemalteca, vieram à luz em 1999.

Congo, 1960 - Patrice Lumumba, o primeiro primeiro-ministro do Congo (mais tarde, República Democrática do Congo), foi tirado de seu gabinete pelo presidente congolês Joseph Kasavubu em meio a uma intervenção militar do exército belga (apoiado pelos EUA) no país. Era um esforço violentíssimo para manter os negócios belgas depois da descolonização do país. Mas Lumumba manteve uma oposição armada contra os militares belgas e, após se aproximar da União Soviética para conseguir suprimentos, foi alvo da CIA assim que a agência determinou que ele era uma ameaça ao novo governo instalado de Joseph Mobutu. O Church Committee, uma comissão do Senado formada em 1975 para fiscalizar as ações clandestinas da inteligência norte-americana, descobriu que a CIA ''ainda mantinha um contato bastante próximo com os congoleses que expressaram o desejo de matar Lumumba,'' e que ''oficiais da CIA encorajaram e ofereceram ajuda aos congoleses em seus esforços contra Lumumba.'' Depois de uma tentativa interrompida de assassinato de Lumumba, envolvendo um lenço envenenado, a CIA alertou as tropas congolesas da localização do primeiro-ministro deposto, além de indicar as estradas que deveriam ser bloqueadas e as possíveis rotas de fuga. Lumumba foi capturado no final de 1960 e morto em janeiro do ano seguinte.

República Dominicana, 1961 - A ditadura brutal de Rafael Trujillo - que incluiu a limpeza étnica de milhares de haitianos na República Dominicana e a tentativa de assassinato do presidente da Venezuela - terminou quando ele foi emboscado e morto por dissidentes políticos. Apesar do atirador que matou Trujillo sustentar que ''ninguém me mandou matar Trujillo'', ele teve apoio da CIA. O Church Committee descobriu que ''apoio material, sendo três pistolas e três carabinas, foi distribuído para vários dissidentes… os oficiais norte-americanos sabiam que os dissidentes pretendiam derrubar Trujillo, provavelmente através de seu assassinato...''

Vietnã do Sul, 1963 - Os EUA já estavam muito envolvidos no Vietnã do Sul em 1963, e seu relacionamento com o líder do país, Ngo Dinh Diem, crescia cada vez mais, com tensões que envolviam a repressão de Diem sobre dissidentes budistas. De acordo com os Pentagon Papershttp, os generais do Vietnã do Sul que planejavam um golpe contataram oficiais norte-americanos falando sobre seus planos. Depois de algumas dificuldades e um período de indecisão dos EUA, os generais capturaram e mataram Diem com apoio norte-americano em 1º de novembro de 1963. Avalia-se que parte do apoio consistiu em 40.000 dólares de recursos da CIA. ''Para o golpe militar contra Ngo Dihn Diem, os EUA devem aceitar sua parcela de responsabilidade,'' atestam os Pentagon Papers. ''No início de agosto de 1963 nós autorizamos, sancionamos e encorajamos os esforços para o golpe dos generais vietnamitas e oferecemos apoio total para um governo sucessor… nós mantivemos contatos clandestinos com eles durante o planejamento e execução do golpe e solicitamos a revisão de seus planos operacionais, além de sugerir um novo governo.''

Brasil, 1964 - Temendo que o governo do presidente João Goulart transformaria, nas palavras do embaixador norte-americano Lincoln Gordon, ''o Brasil na China de 1960'', os EUA apoiaram o golpe liderado por Humberto Castello Branco, à época chefe do Estado-Maior. Nos dias anteriores ao golpe, a CIA encorajou manifestações contra o governo, assim como proveram combustível e ''armas de origem não-norte-americanas'' àqueles que apoiavam os militares. ''Eu acho que devemos tomar todas as medidas necessárias, e estarmos preparados para qualquer coisa que precisemos fazer,'' disse o presidente Lyndon Johnson a seus conselheiros que planejavam o golpe, de acordo com documentos obtidos pelo National Security Archive. Os militares brasileiros se mantiveram no poder até 1985.

Chile, 1973 - Os Estados Unidos nunca desejaram que Salvador Allende, o candidato socialista eleito presidente em 1970, assumisse seu posto. O presidente Richard Nixon mandou que a CIA fizesse que a economia do Chile ''gritasse'', e a agência trabalhou com três grupos chilenos, cada um planejando um golpe contra Allende em 1970. A agência foi tão longe a ponto de fornecer armamento, mas os planos foram por terra depois que a CIA perdeu a confiança em seus contatos. As tentativas norte-americanas de destruir a economia chilena continuaram até que o general Augusto Pinochet liderou um golpe militar contra Allende em 1973. O relatório oficial da CIA sobre a tomada do poder em setembro de 1973 aponta que a agência ''estava consciente dos planos de golpe dos militares, possuía relacionamentos para coleta de dados de inteligência com os conspiradores, e - pelo fato da CIA não desencorajar a tomada e até procurar instigar um golpe em 1970 - parecia tolerá-lo.'' A CIA também conduziu a campanha de propaganda de apoio ao novo regime de Pinochet depois que ele tomou posse em 1973, apesar do conhecimento de severos abusos contra os direitos humanos, incluindo o assassinato de dissidentes políticos.

Os Estados Unidos em decadência


É um tema comum que os Estados Unidos, que há apenas alguns anos era visto como um colosso que percorreria o mundo com um poder sem paralelo e um atrativo sem igual (...) estão em decadência, enfrentando atualmente a perspectiva de uma deterioração definitiva, assinala Giacomo Chiozza, no número atual de Political Science Quaterly.

A crença neste tema, efetivamente, está muito difundida. Em com certa razão, se bem que seja o caso de fazer algumas precisões. Para começar, a decadência tem sido constante desde o ponto culminante do poderio dos EUA, logo após a Segunda Guerra Mundial, e o notável triunfalismo dos anos 90, depois da Guerra do Golfo, foi basicamente um autoengano.

Outro temam comum, ao menos entre aqueles que não ficaram cegos deliberadamente, é que a decadência dos EUA, em grande medida, é auto-inflingida. A ópera bufa que vimos este verão em Washington, que desgostou o país e deixou o mundo perplexo, pode não ter comparação nos anais da democracia parlamentar. O espetáculo inclusive está chegando a assustar aos patrocinadores desta paródia. Agora, preocupa ao poder corporativo que os extremistas que ajudou a por no Congresso de fato derrubem o edifício do qual depende sua própria riqueza e seus privilégios, o poderoso estado-babá que atende a seus interesses.

A supremacia do poder corporativo sobre a política e a sociedade – basicamente financeira – chegou ao grau de que as formações políticas, que nesta etapa apenas se parecem com os partidos tradicionais, estão muito mais à direita da população nos principais temas em debate.
Para o povo, a principal preocupação interna é o desemprego. Nas circunstâncias atuais, esta crise pode ser superada só mediante um significativo estímulo do governo, muito mais além do que foi o mais recente, que apenas fez coincidir a deterioração no gasto estatal e local, ainda que essa iniciativa tão limitada provavelmente tenha salvado milhões de empregos.

Mas, para as instituições financeiras, a principal preocupação é o déficit. Assim, só o déficit está em discussão. Uma grande maioria da população está a favor de abordar o problema do déficit taxando os muito ricos (72%, com 27% contra), segundo uma pesquisa do The Washington Post e da ABC News. Fazer cortes nos programas de atenção médica conta com a oposição de uma esmagadora maioria (69% no caso do Medicaid, 78% no caso do Medicare). O resultado provável, porém, é o oposto.

O Programa sobre Atitudes de Política Internacional (PIPA) investigou como a população eliminaria o déficit. Steven Kull, diretor do PIPA, afirma: É evidente que, tanto o governo como a Câmara (de Representantes) dirigida pelos republicanos, estão fora de sintonia com os valores e as prioridades da população no que diz respeito ao orçamento.

A pesquisa ilustra a profunda divisão: a maior diferença no gasto é que o povo apoia cortes profundos no gasto militar, enquanto que o governo e a Câmara de Representantes propõem aumentos modestos. O povo também defende aumentar o gasto na capacitação para o trabalho, na educação e no combate à poluição em maior medida que o governo ou a Câmara.

O acordo final – ou, mais precisamente, a capitulação ante à extrema direita – é o oposto em todos os sentidos, e quase com toda certeza provocará um crescimento mais lento e danos de longo prazo para todos, menos para os ricos e as corporações, que gozam de benefícios sem precedentes.

Nem sequer se discutiu que o déficit poderia ser eliminado se, como demonstrou o economista Dean Baker, se substituísse o sistema disfuncional de atenção médica privada dos EUA por um semelhante ao de outras sociedades industrializadas, que tem a metade do custo per capita e obtém resultados médicos equivalentes ou melhores.

As instituições financeiras e as grandes companhias farmacêuticas são demasiado poderosas para que sequer se analisem tais opções, ainda que a ideia dificilmente pareça utópica. Fora da agenda por razões similares também se encontram outras opções economicamente sensatas, como a do imposto às pequenas transações financeiras.

Entretanto, Wall Street recebe regularmente generosos presentes. O Comitê de Atribuições da Câmara de Representantes cortou o orçamento da Comissão de Títulos e Bolsa, a principal barreira contra a fraude financeira. E é pouco provável que sobreviva intacta a Agência de Proteção ao Consumidor.

O Congresso brande outras armas em sua batalha contra as gerações futuras. Apoiada pela oposição republicana à proteção ambiental, a importante companhia de eletricidade American Eletric Power arquivou o principal esforço do país para captar o dióxido de carbono de uma planta atualmente impulsionada por carvão, o que significou um forte golpe às campanhas para reduzir as emissões causadoras do aquecimento global, informou o The New York Times.

Esses golpes auto-aplicados, ainda que sejam cada vez mais potentes, não são uma inovação recente. Datam dos anos 70, quando a política econômica nacional sofreu importantes transformações, que puseram fim ao que se costuma chamar de “época de ouro” do capitalismo de Estado.

Dois importantes elementos desse processo foram a financeirização (o deslocamento das preferências de investimento, da produção industrial para as finanças, os seguros e os bens imobiliários) e a externalização da produção. O triunfo ideológico das doutrinas de livre mercado, muito seletivo como sempre, desferiu mais alguns golpes, que se traduziram em desregulação, regras de administração corporativa que condicionavam as enormes recompensas aos diretores gerais com os benefícios de curto prazo e outras decisões políticas similares.

A concentração resultante da riqueza produz maior poder político, acelerando um círculo vicioso que aportou uma riqueza extraordinária para 1% da população, basicamente diretores gerais de grandes corporações, gerentes de fundos de garantia e similares, enquanto que a maioria das receitas reais praticamente estancou.

Ao mesmo tempo, o custo das eleições disparou para as nuvens, fazendo com que os dois partidos tivessem que escavar mais fundo os bolsos das corporações. O que restava de democracia política foi solapado ainda mais quando ambos partidos recorreram ao leilão de postos diretivos no Congresso, como apontou o economista Thomas Ferguson, no The Financial Times.

Os principais partidos políticos adotaram uma prática das grandes empresas varejistas, como Walmart, Best Buy e Target, escreve Ferguson. Caso único nas legislaturas do mundo desenvolvido, os partidos estadunidenses no Congresso colocam preço em postos chave no processo legislativo. Os legisladores que conseguem mais fundos ao partido são os que indicam os nomes para esses postos.

O resultado, segundo Ferguson, é que os debates se baseiam fortemente na repetição interminável de um punhado de consignas, aprovadas pelos blocos de investidores e grupos de interesse nacionais, dos quais depende a obtenção de recursos. E o país que se dane.

Antes do crack de 2007, do qual foram responsáveis em grande medida, as instituições financeiras posteriores à época de ouro tinham obtido um surpreendente poder econômico, multiplicando por mais de três sua participação nos lucros corporativos. Depois do crack, numerosos economistas começaram a investigar sua função em termos puramente econômicos. Robert Solow, prêmio Nobel de Economia, concluiu que seu efeito poderia ser negativo. Seu êxito aporta muito pouco ou nada à eficiência da economia real, enquanto seus desastres transferem a riqueza dos contribuintes ricos para o setor financeiro.

Ao triturar os restos da democracia política, as instituições financeiras estão lançando as bases para fazer avançar ainda mais este processo letal...enquanto suas vítimas parecem dispostas a sofrer em silêncio.

Os linchamentos de negros na história dos EUA

O turístico quarteirão da sede ex-Texas School Book Depository fica o antigo tribunal do condado, onde agora funciona um museu, foi invadido pela população em 1910. Um grupo de homens correu ao tribunal, laçou uma corda ao redor do pescoço de um homem negro, acusado de ter abusado sexualmente de uma menina branca de 3 anos de idade, e jogou a outra ponta da corda para fora de uma janela. A multidão lá fora puxou o homem, Allen Brooks, para o solo. Brooks foi, então, amarrado por cima do arco cerimonial, que está instalado a poucas quadras da rua principal.

A sul da cidade, na região onde passa os Trinity River, um homem negro chamado WR Taylor foi enforcado por uma multidão em 1889. Ainda mais ao sul, encontra-se a comunidade de Streetman, onde George Gay, de 25 anos, foi enforcado em uma árvore e recebeu centenas de disparos em 1922.

Logo depois está a cidade de Kirvin, onde três homens negros, dois deles quase certamente inocentes, foram acusados ​​de matar uma mulher branca e, sob o olhar de centenas de espectadores, que bebiam refrigerantes, foram castrados, esfaqueados, espancados, amarrado a um arado e incendiados na primavera de 1922.

O assassinato de Mr. Brooks está documentado nos registros do museu. As outras mortes, como os de quase todos os linchamento nos Estados Unidos, não foram mencionadas, mas Bryan Stevenson acredita que isso deve mudar.

Na terça-feira, a organização que ele fundou e dirige a Equal Justice Initiative, em Montgomery, no Alabama, divulgou um relatório sobre a história dos linchamentos nos Estados Unidos, representando o resultado de cinco anos de pesquisa e 160 visitas a sites em todo o Sul dos Estados Unidos. Os autores do relatório compilaram um inventário de 3.959 vítimas de “linchamentos raciais terroristas” em 12 estados do Sul, entre 1877 e 1950.

As localizações dos linchamentos entre 1877 e 1950 (73 anos de linchamentos mapeados)

Stevenson disse que o processo pretende contar a narrativa através de uma linha definida sobre a história racial viciosa do país, em vez abordar a história de forma fragmentada.

"O linchamento em forma de terror determinava a geografia, a política, a economia e as características sociais de ser negro nos Estados Unidos durante o século 20", disse Stevenson, argumentando que muitos participantes da grande migração do Sul devem ser considerados como refugiados que fugiam do terrorismo, em vez de as pessoas simplesmente à procura de trabalho.

A História amaldiçoada e bizarra da família mais rica dos EUA
Se você se acha azarado é porque ainda não conhece a triste história da maldição que assombra a família Kennedy, de acidentes a doenças terríveis essa família carrega em suas veias um sangue que traz maus presságios. Os únicos que se safaram de passar por incidentes desagradáveis foram Joseph Patrick Keneddy, um ambicioso pai que queria ter um filho eleito presidente dos EUA e Rose Elizabeth Fitzgerald, que sempre fez parte da elite e viveu muito tempo, para ser mais exata 105 anos, mas se eles tiveram sorte seus filhos e netos só tiveram azar. Vejamos abaixo:

John Harold Kennedy: A maldição da familia Kennedy começou aqui no Brasil, mais precisamente no Maranhão. O centro histórico da capital do Maranhão – São Luís – foi palco daquela que é considerada por muitos como a primeira tragédia da família Kennedy. José de Ribamar Mendonça, um cidadão comum da cidade, aos 25 anos, matou com dois tiros de revólver calibre 32, o norte-americano John Harold Kennedy, de 31 anos, tio de John Fitzgerald Kennedy, que se tornaria presidente dos Estados Unidos em 1961. Mendonça era bilheteiro dos bondes da Ulen, empresa dos Estados Unidos que explorava, desde 1928, os serviços de água, esgoto, luz, tração e prensagem de algodão em São Luís. John Harold trabalhava como contador da companhia. O bilheteiro recebera a carta de demissão – pelas mãos de Kennedy, que era o então encarregado de analisar e demitir funcionários na empresa – dias antes de completar dez anos de serviços prestados à Ulen. Acaso chegasse ao ciclo dos dez anos, teria a estabilidade assegurada pela legislação da época. A demissão intempestiva pode ter empurrado o maranhense ao crime.
John F Kennedy: O filho presidente só aproveitou 3 anos de sua candidatura, ele foi assassinado em um desfile em carro aberto e até hoje ninguém sabe quem de fato tirou sua vida, dando origem a diversas teorias absurdas sobre a origem das balas que o mataram.
Rosemary Kennedy: Ela foi acometida de uma lobotomia aos 23 anos, depois disso ela foi considerada louca, vivendo o resto de sua vida em um hospício.
Ted Kennedy: Primeiro ele sofreu um acidente aéreo em 1964 e sobreviveu, depois sofreu um novo acidente, dessa vez de carro em 1969 e – por um milagre – sobreviveu de novo, mas em 2009 não resistiu e morreu um câncer no cérebro.
Robert Francis Kennedy: Foi senador e o segundo da família a tentar se tornar presidente dos EUA, mas foi morto durante a campanha eleitoral.
Kathleen Agnes Kennedy: Ficou viúva apenas 4 meses depois do casamento e acabou morrendo em um desastre de avião na França junto com um amante.
Joseph F Kennedy Jr: Morreu com a esposa e a cunhada em um acidente de avião, detalhe: quem pilotava a nave era ele.
David Anthony Kennedy: Não conseguiu chegar nem aos 30 anos, foi achado morto em um hotel após se drogar e ter uma overdose.
Michael Lemoyne Kennedy: Foi descansar, mas não voltou das férias, morreu em Aspen devido a um acidente de Esqui.

A Maçonaria nos Estados Unidos
A influência da Maçonaria nos Estados Unidos: muito se comenta sobre a influência da Maçonaria na fundação e na história dos Estados Unidos. Questiona-se quantos maçons assinaram a Declaração da Independência e a Constituição, quantos foram Presidentes, se o Grande Selo (brasão) e a nota de um dólar contêm elementos maçônicos e se a cidade de Washington foi projetada segundo estes símbolos.



Os maçons, quando questionados sobre o assunto, podem tanto negar essa influência como, ao contrário, reconhecê-la. Já que teorias conspiracionistas tendem a atribuir à Maçonaria a intenção de impor uma “nova ordem mundial” e “manipular a opinião pública e o Estado”, agindo debaixo dos bastidores como os templários, os extraterrestres e outros “vilões”, vamos nos ater aos fatos comprovados.

A Maçonaria é uma confraria aberta a homens de todas as religiões. Até recentemente, só aceitava homens como membros. Hoje há lojas abertas também às mulheres, mas de modo geral a organização ainda é uma espécie de clube do Bolinha.

A palavra maçon vem do francês e significa “pedreiro”. Como outras sociedades secretas, a Maçonaria desenvolveu-se nos séculos XVI e XVII e tornou-se um pólo de idéias novas na sociedade européia de então, fortemente conservadora, influenciada pela Igreja e pela monarquia absolutista. Algumas dessas idéias eram verdadeiras heresias políticas para a época, como a liberdade de pensamento, a liberdade de expressão religiosa e política e a aversão a qualquer forma de Absolutismo. 

Entende-se o porque da histórica birra da Igreja com os maçons: até hoje existem sites religiosos que chamam os maçons de “braço direito do Diabo”, “filhos de Lúcifer”… Só não dizem que maçons devoram criancinhas porque essa afirmação já foi usada antes contra os comunistas.
É evidente a influência maçônica na Revolução Francesa e na independência de diversos países, inclusive Estados Unidos e Brasil. Os maçons também foram grandes incentivadores e participantes de movimentos abolicionistas. Nos Estados Unidos, montaram uma rede de fuga de escravos negros para o Canadá.

Sem dúvida, há maçons importantes na história dos EUA. Como se trata de uma sociedade em princípio secreta, há muita celeuma sobre quem pertenceu ou não à fraternidade. Estima-se que dos 56 signatários da Declaração da Independência dos EUA, no mínimo 8 eram maçons notórios, mas há quem afirme que esse número pode chegar a 24. Sobre a Constituição, especula-se que haveria 13 maçons entre os 39 signatários.

Dentre os que comprovadamente pertenceram à ordem maçônica destacam-se Benjamin Franklin e George Washington.

Benjamin Franklin (1706-1790) foi um dos primeiros a propor a unificação das colônias, criando uma nação, e um dos fundadores dos Estados Unidos da América. Atuando como diplomata durante a Revolução Americana, ele garantiu a aliança com a França, fato fundamental para a viabilidade da independência. Foi o único dos fundadores que assinou quatro dos mais importantes documentos dos EUA: o Tratado de Paris, o Tratado de Aliança com a França, a Constituição e a Declaração da Independência, elaborada juntamente com Thomas Jefferson.

Em Paris Franklin publicou em 1730 o primeiro artigo sobre a Maçonaria na América. Quando era embaixador na França, exerceu de 1779 a 1781 o posto de Grão Mestre da loja “Les Neuf Soeurs”, em Paris, a mesma a que pertenceu Voltaire. Em 1787, de volta aos EUA, foi convidado pelo Congresso a participar do comitê de criação do Great Seal, emblema deveria refletir valores e ideais “americanos” para as gerações futuras. Vem daí a crença de que há símbolos maçônicos inseridos nesse brasão, usado também na nota de um dólar.

Outro maçon de indiscutível importância foi George Washington (1732-1799), Mestre da Loja Alexandria, no Estado da Virgínia. Como líder militar, levou o exército norte-americano à vitória contra a Grã-Bretanha durante a Revolução Americana em 1783. Muitos de seus generais também eram maçons. Em 1787, presidiu a Convenção da Filadélfia que criou a Constituição e tornou-se o primeiro Presidente dos EUA, governando o país de 1789 a 1797.

Os símbolos maçônicos na nota de um dólar

O selo tem na sua parte anterior uma águia e um escudo com 13 listas (referindo-se aos 13 estados originais), segurando em sua garra esquerda 13 flechas (simbolizando a guerra) e na direita um ramo de oliveira com 13 folhas e 13 frutos (simbolizando a paz). Sobre sua cabeça há um diadema composto por 13 estrelas de 5 pontas, que formam uma estrela de 6 pontas. Há ainda a frase “E pluribus unun” (“Entre muitos, um se destaca”). No verso, há uma pirâmide inacabada composta por 13 degraus e, sobre esta, um triângulo com um olho e os dizeres “Annuit coepts” (“Ele aprova nossos atos”) e “Novos Ordo Seclorum” (“Uma nova ordem dos tempos”).
A pirâmide, o olho e as frases seriam “provas” da influência maçônica, mas muitos maçons afirmam que esses elementos e dizeres não são símbolos de sua fraternidade. O olho é uma convenção artística para a onisciência, um símbolo comumente usado durante a Renascença, e seu uso foi sugerido pelo artista Pierre Eugène Du Simitière, e não por Benjamin Franklin, o único integrante confirmadamente maçon do grupo que criou a imagem. Juntamente com os dizeres, tem a intenção de demonstrar a vontade divina em favor dos EUA (mas afinal, Deus é americano ou brasileiro?).

Muitos afirmam que a colocação da pedra fundamental do Capitólio teria seguido um cerimonial maçônico e, pasmem, que a própria planta da capital, posteriormente denominada Washington, formaria símbolos maçônicos como o esquadro e o compasso, além de um pentagrama invertido (símbolo considerado “satânico”) em torno da Casa Branca… Enfim, como no caso da nota de um dólar, não se sabe. Símbolos podem ser utilizados com os mais diferentes significados.

Fato inegável é que grandes personagens da história dos Estados Unidos da América foram mesmo maçons, e seus ideais certamente influenciaram a formação do país.


BIO

Thiago Muniz tem 33 anos, colunista dos blog "O Contemporâneo", do site Panorama Tricolor e do blog Eliane de Lacerda. Apaixonado por literatura e amante de Biografias. Caso queiram entrar em contato com ele, basta mandarem um e-mail para:thwrestler@gmail.com. Siga o perfil no Twitter em @thwrestler.

Caminhoneiros: o alarme ignorado pela imprensa

O governo de Salvador Allende começou a cair, em 1973, quando os caminhoneiros chilenos iniciaram uma greve reivindicatória que acabou se transformando num movimento político que colocou a classe média do país contra o primeiro presidente socialista eleito nas urnas.

Quem cobriu aquele protesto, ocorrido há 41 anos, inevitavelmente associa a greve chilena com a brasileira atual e sente um frio na espinha porque os desdobramentos apontam na direção de uma crise institucional de consequências imprevisíveis. Allende sabia que seu destino já estava traçado muito antes de um golpe militar do qual a maioria dos chilenos se arrepende até hoje.

A greve dos caminhoneiros paralisou o abastecimento da população e o funcionamento da indústria, estrangulando a jugular da economia do país. A imprensa chilena da época, radicalizada política e ideologicamente, cobriu apenas o factual do protesto, deixando de lado as causas e principalmente as consequências do movimento. A desconstrução do governo Allende deu origem a um golpe militar que se transformou num capítulo trágico na história do país.

Tanto em 1973, no Chile, como agora no Brasil o protesto dos caminhoneiros não tem uma estrutura sindical e nem um comando central visíveis. Ele assume a forma de uma guerrilha rodoviária onde há apenas indícios de um comando centralizado porque há coordenação dos bloqueios de estradas. Se tudo ficasse apenas nas mãos dos motoristas, o movimento não mostraria tanta eficiência.

Os principais jornais brasileiros até agora não foram mais fundo nas origens e estrutura do protesto, o que revela uma decisão editorial e política que tem inevitáveis desdobramentos. O principal deles é ampliação do clima de incerteza na população e nos segmentos empresariais. Uma incerteza que vem crescendo desde as eleições do ano passado e que pode chegar a um ponto crítico se a greve dos caminhoneiros provocar a falta de alimentos, combustíveis e produtos essenciais (como remédios, por exemplo) nas principais capitais brasileiras.

Isso aconteceu no Chile em 1973 e levou, na época, a população do país a um estado de perplexidade quase catatônica que neutralizou preventivamente qualquer tipo de resistência a uma ruptura institucional. Este tipo de alerta não está sendo veiculado pela imprensa, o que deixa o público sem uma noção exata dos riscos a que ele poderá estar sujeito. Um dos papéis-chave da imprensa em situações de pré-crise é fornecer à população elementos para que ela avalie como lidar com o um possível desabastecimento alimentar, com a paralisação dos transportes públicos e privados, e o aumento da insegurança pessoal.

O que estamos assistindo agora aqui no Brasil é um paulatino agravamento das tensões que geram irritação progressiva e perda de controle emocional e político. Protestos podem rapidamente degenerar em pancadaria, depredações e vítimas pessoais por conta do clima de polarização e radicalização de posicionamentos político-ideológicos.

Ao não tratar estes temas como uma preocupação pública, a imprensa está brincando com fogo. A omissão informativa pode ser coerente com a oposição ao governo Dilma Rousseff, mas qualquer analista político ou sociológico sabe que o risco de descontrole cresce na medida em que a governabilidade é transformada em arma na luta pelo poder.

A presidente Dilma Rousseff se pronunciou nesta quinta-feira (26) pela primeira vez sobre a greve dos caminhoneiros – e tornou mais evidente o descontrole do governo sobre a crise. Depois de participar da cerimônia de lançamento do programa Bem Mais Simples, no Palácio do Planalto, ela afirmou que o Executivo tem se esforçado para resolver o problema, mas não apresentou qualquer novidade sobre a paralisação, que dura mais de uma semana em algumas partes do Brasil.

"O governo está fazendo todo um esforço na questão da resolução da greve. Nós apresentamos, junto com várias lideranças e empresários que foram consultados e avaliados, um conjunto de propostas. Esse conjunto de propostas foi divulgado pelos órgãos de comunicação e a gente tem visto que elas têm tido uma recepção. Aguardamos. Os ministros responsáveis estão todos em atividade trabalhando essas propostas", disse a presidente, na única resposta que deu sobre o tema.

Apesar do acordo anunciado na noite desta quarta-feira pelo governo e sindicatos de caminhoneiros, os bloqueios persistem em boa parte do país. O protesto não foi organizado por entidades sindicais. O principal porta-voz do movimento, o caminhoneiro Ivar Schmidt, se reuniu com o ministro da Secretaria-Geral da Presidência, Miguel Rossetto, mas rejeitou a oferta do governo - que não aceita reduzir, mesmo que temporariamente, o valor do diesel..

A fala de Dilma se deu após o lançamento do Bem Mais Simples, programa que tem como objetivo agilizar os procedimentos para a criação de empresas. Por ora, a única mudança será a possibilidade de encerramento do CNPJ de forma imediata, por meio de um site criado pelo governo. Os eventuais débitos da companhia serão transferidos para o CPF dos proprietários. O objetivo do governo é que, em junho, seja possível criar uma empresa em cinco dias. Hoje, de acordo como próprio Executivo, o procedimento leva em média 102 dias.

Os protestos de caminhoneiros nas rodovias do Paraná completam 15 dias nesta sexta-feira (27). Desde o dia 13, foram vários pontos de bloqueio em rodovias estaduais e federais do estado. Na maioria dos trechos fechados, apenas os veículos de carga, com exceção dos com cargas vivas, são impedidos de seguir viagem. A categoria é contra os aumentos constantes do preço do litro do óleo diesel e o valor pago pelos fretes, que são considerados baixos.

Nas rodovias federais, os caminhoneiros descumprirem uma determinação da Justiça que impõe multa entre R$ 1 mil a R$ 50 mil por hora de bloqueio em rodovias de Curitiba, de Foz do Iguaçu, Toledo, Guarapuava e Londrina. Na quinta-feira (26), o ministro da Justiça, José Eduardo Cardozo, determinou às superintendências da Polícia Federal (PF) a abertura de inquéritos para apurar se ocorreram abusos nos protestos de caminhoneiros, que também são realizados em outros estados brasileiros.

Após horas de negociações, sindicatos e associações que representam caminhoneiros aceitaram na noite desta quarta-feira (25) os termos do acordo proposto pelo governo para colocar fim aos protestos da categoria. Entretanto, o acordo não contou com o apoio de Ivar Luiz Schmidt, que se diz representante do Comando Nacional do Transporte, movimento que, segundo ele, é responsável por cerca de 100 pontos de bloqueio nas estradas.

Com os caminhões parados nas estradas, houve redução no número de fretes. O problema reflete em vários setores da economia do estado. Nas regiões oeste e sudoeste, por exemplo, os aeroportos de Cascavel e Foz do Iguaçu estão sem combustível para abastecer as aeronaves. Os frigoríficos da região também precisaram paralisar os trabalhos. Na quinta, o local deixou de abater 420 mil frangos e dispensou 2,6 mil funcionários.

A operação do Porto de Paranaguá, principal terminal de exportação de produtos agrícolas do país, também é prejudicada por causa dos protestos. No início da semana, apenas 10% dos carregamentos previstos para foram realizados.

Três pessoas foram presas durante um tumulto na BR-277, no Trevo Cataratas, em Cascavel, na tarde de quinta-feira.

Nesta quarta (25), após se reunir com lideranças dos caminhoneiros e com representantes de empresários, o ministro da Secretaria-Geral da Presidência, Miguel Rossetto, afirmou que o governo se comprometeu a sancionar sem vetos a Lei dos Caminhoneiros. A matéria foi aprovada na Câmara no último dia 11 e estabelece regras para o exercício da profissão de motorista.

Responsável pela interlocução do governo com os movimentos sociais, Rossetto frisou que a Lei dos Caminhoneiros vai prever que os caminhões que trafegarem vazios e com o eixo suspenso estarão isentos do pagamento de pedágio.

Ivar Schmidt diz ser responsável por pelo menos 100 pontos de bloqueio de caminhoneiros nas rodovias do país. O líder do recém-criado Comando Nacional dos Transportes, que não é vinculado a nenhum sindicato ou confederação de trabalhadores, atribui o sucesso de sua mobilização ao Whatsapp. É por meio desse aplicativo de troca de mensagens que ele se comunica com os líderes de cada ponto de bloqueio e passa orientações.

Durante a entrevista que deu ao G1, Schmidt atendeu a uma ligação de um dos caminhoneiros e recomendou que não entrasse em atrito com a polícia. O governo conseguiu na Justiça a liberação das rodovias federais em 11 estados. Porém, nesta quinta-feira (26), os caminhoneiros mantêm bloqueios em sete deles: Ceará, Mato Grosso, Mato Grosso do Sul, Paraná, Rio Grande do Sul, Santa Catarina e São Paulo.

Seu poder de mobilização está causando dor de cabeça ao governo. Enquanto sindicatos e associações que representam os caminhoneiros aceitaram na noite de quarta-feira (25) os termos do acordo proposto pelo governo para colocar fim aos protestos da categoria em todos os estados, Schmidt diz que não vai ceder enquanto o governo não criar o chamado frete mínimo. “Daqui de Brasília eu só saio com alguma solução ou morto”, diz.

Schmidt conta que fundou o Comando Nacional dos Transportes com cinco amigos caminhoneiros em dezembro do ano passado. Ele se orgulha em dizer que a entidade não tem vinculação a partido, sindicato ou federação. “A categoria não reconhece mais esses representantes antigos, eles atendem só a um leque pequeno da categoria, fica tudo centralizado em São Paulo, e a realidade de São Paulo é diferente do Brasil”, explica.

Schmidt, que já foi caminhoneiro, atualmente é proprietário de uma pequena transportadora desde 2002 em Mossoró, no Rio Grande do Norte. Natural de Palmitos, SC, tem 44 anos, mora há 16 anos no RN, é casado desde 1996 e tem um casal de filhos. Atualmente tem um caminhão de sua propriedade, que está parado na Bahia.

O empresário diz que a paralisação estava marcada na verdade para o dia 1º de abril, mas acabou antecipada por causa do primeiro aumento do combustível em novembro. “Nesse aumento de novembro já nos botaram uma faca na garganta, e com esse último cortaram nossa veia aorta”, diz.

“O pessoal já tinha contato com a gente. Mossoró é um polo de carga, por conta da minha transportadora sou muito conhecido e por isso conseguimos mobilizar todo mundo”, conta.
Schmidt afirma que no início até resistiu à ideia de antecipar os bloqueios nas estradas porque diz que gosta das coisas bem organizadas. “Eu queria pra 1º de abril, mas o lucro operacional é zero neste momento, então deflagramos antes. Os caminhoneiros não recebem aumento há 10 anos, a depreciação nem é mais contabilizada”, diz.

De acordo com Schmidt, até terça-feira (24), ele contabilizava 128 pontos de bloqueio sob seu comando. Mas na quarta-feira (25) alguns se desmobilizaram após o acordo anunciado com o governo e a polícia começou a intervir para liberar as rodovias. Mas o empresário garante que em 80% dos pontos não houve desmobilização.

Ele reclama que foi convidado a se retirar da reunião na sede do Ministério dos Transportes, em Brasília. “Foi jogo de cena montado pelo governo. Chamaram pra reunião às 14h com supostos líderes do movimento, fui convidado para sair. Aí tive uma reunião com o secretário do ministro da Secretaria-Geral da Presidência, Miguel Rossetto, às 19h30 que durou até as 21h, e nesse tempo o Rossetto anunciou o acordo com os representantes dos caminhoneiros”, diz.

Schmidt quer que o governo aprove sua proposta de criar o frete mínimo para que, segundo ele, não ocorra mais a exploração dos caminhoneiros. Para ele, será uma espécie de balizamento no setor de cargas. O valor defendido por ele é de R$ 0,70 por eixo e por km rodado. “Hoje não é por eixo nem por km rodado e isso contribui com o excesso de peso. A partir do momento que tiver o frete por km rodado não vai haver peso a mais porque será por quilometragem e não por peso, isso vai beneficiar o próprio governo, que vai gastar menos para recuperar a malha viária”, explica. Schmidt diz que apresentou essa proposta ao secretário de Rossetto na quarta e foi pedido a ele um detalhamento. Agora o líder aguarda uma nova reunião.

Questionado se pretende se candidatar a algum cargo político no futuro, ele descartou. “Nunca pensei nisso, nunca me envolvi com política. A água bateu no meu pescoço, por isso me mexi. Nosso movimento tem só o propósito de resolver os problemas do transporte, não nos envolvemos com política”, ressaltou.