terça-feira, 23 de dezembro de 2014

As nomeações de Dilma

Sem poder consultar o Ministério Público, presidenta deixa seis pastas com o PMDB, uma a mais que no atual Governo.




Com a equipe econômica já definida e nas mãos de Joaquim Levy (Fazenda) e Nelson Barbosa (Planejamento), a presidenta Dilma Rousseff avançou na composição do gabinete do próximo Governo. Complexas negociações com o principal partido aliado do PT, o PMDB de seu vice Michel Temer, resultaram nesta terça-feira na indicação de seis ministros para a sigla e outros sete nomes para o gabinete.
Entre os escolhidos, está o ex-prefeito de São Paulo Gilberto Kassab (PSD) que ocupará o Ministério das Cidades. Kassab, uma escolha particularmente dolorosa para parte dos apoiadores à esquerda do PT, apoiou Dilma na disputa presidencial. Derrotado na campanha pelo Senado por São Paulo, esperava-se que fosse acomodado no alto escalão.
Ainda para retribuir apoiadores de sua reeleição, Dilma entregou a pasta de Educação ao Governador do Ceará, Cid Gomes, do PROS, o partido que ele criou com o irmão Ciro. Cid, mais próximo da presidenta desde que rompeu com o PSB, pretendia ocupar um cargo no Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID) em Washington, segundo o jornal Folha de S. Paulo.
No futuro Governo, o PMDB, chave para amenizar a atribulada relação de Dilma com o Congresso, passará a ocupar uma pasta a mais- hoje comanda cinco. O partido, formado por várias facções, já se rebelou contra Dilma no atual mandato e ameaça repetir a dose a partir de 2015, quando ela terá uma base aliada menor do que agora. Quando assumiu seu primeiro mandato, em 2011, Dilma tinha o apoio de 372 dos 513 deputados federais e de 60 dos 81 senadores. Agora seus coligados conseguiram 336 cadeiras na Câmara e 51 no Senado.
O PMDB manterá o estratégico ministério de Minas e Energia, que ficará com Eduardo Braga (AM), líder do Governo no Senado, e terá sob seu comando outros setores importantes de infraestrutura.
O advogado Eliseu Padilha (RS), que contava com o apoio majoritário da bancada do PMDB para ocupar uma cadeira na Esplanada, assumirá a Secretaria da Aviação Civil. Padilha já foi ministro de Transportes no Governo de Fernando Henrique Cardoso. O deputado federal por São Paulo Edinho Araújo, no décimo mandato, ocupará a Secretaria de Portos, com status de Ministério.
Ainda no bloco peemedebista está Helder Barbalho, que vai para o Ministério da Pesca, e a ruralista Kátia Abreu (TO), confirmada na Agricultura.
Helder Barbalho é filho do senador Jader Barbalho, um homem influente na bancada do PMDB. Kátia Abreu, outra nomeação indigesta para parte do PT e apoiadores de esquerda, é considerada da "cota pessoal" de Dilma, e não um nome do comando do partido.
Henrique Alves (PMDB-RN), parceiro do vice Temer e também respaldado pelo partido após encerrar seu mandado como presidente da Casa, não foi nomeado para o Ministério de Turismo como era cotado. O correligionário Vinicius Lajes manterá o cargo. O nome de Alves apareceu em uma lista de políticos beneficiados pelos supostos desvios de dinheiro da Petrobras e ele mesmo pediu para sair do elenco dos ministeriáveis, conforme nota divulgada pela assessoria do deputado.
Por conta das constantes revelações da Operação Lavo Jato que implicariam dezenas de políticos no esquema, Rousseff quis blindar seu gabinete e afirmou na segunda-feira que iria consultar com o Ministério Público Federal o possível envolvimento dos candidatos. O ministro da Justiça José Eduardo Cardozo revelou hoje, porém, que o procurador-geral da República Rodrigo Janot se negou a cooperar.

PC do B E RETAGUARDA PETISTA

O ministério de Ciência será assumido por Aldo Rebelo (PCdoB), ex-ministro de Esportes, pasta que ocupará George Hilton, do PRB. Na Secretaria de Políticas de Promoção da Igualdade Racial estará Nilma Lino Gomes, conhecida por ser a primeira reitora negra de universidade do Brasil. Valdir Simão substituirá Jorge Hage na Controladoria Geral da União.
Rousseff indicou o Governador petista da Bahia Jaques Wagner, considerado próximo da presidenta, para liderar o Ministério da Defesa, mas deixou em aberto o destino de outros colegas de partido ligados fortemente ao Planalto. No anúncio desta terça-feira não foi confirmado se o ministro da Casa Civil, Aloizio Mercadante, manterá o cargo, nem se o atual ministro da Secretaria de Relações Institucionais, Ricardo Berzoini, se mudará, como se especulou, para a pasta das Comunicações, ministério chave se a presidenta decidir levar à frente projeto de regulação da mídia.
A composição completa da equipe de Governo, dificultada pelas revelações do escândalo da Petrobras, não será definitiva até 29 de dezembro, quando Rousseff voltar de suas férias na Bahia.

Ministros confirmados até hoje (23/12/2014)

Ministério de Fazenda: Joaquim Levy
Ministério de Planejamento: Nelson Barbosa
Ministério da Agricultura: Kátia Abreu (PMDB)
Ministério de Minas e Energia: Eduardo Braga (PMDB)
Ministério de Educação: Cid Gomes (PROS)
Secretaria de Aquicultura e Pesca: Helder Barbalho (PMDB)
Secretaria de Portos: Edinho Araújo (PMDB)
Secretaria de Aviação Civil: Eliseu Padilha (PMDB)
Ciência Tecnologia e Inovação: Aldo Rebelo (PCdoB)
Ministério de Esporte: George Hilton (PRB)
Ministério das Cidades: Gilberto Kassab (PSD)
Ministério da Defesa: Jacques Wagner (PT)
Secretaria de Políticas de Promoção da Igualdade Racial: Nilma Lino Gomes
Controladoria Geral da União: Valdir Simão
Ministério de Turismo: Vinicius Lajes (PMDB)

Levy, o homem de 80 bilhões de reais

A escolha dos ministros da Fazenda é sempre esperada com muita ansiedade no Brasil. Mas no caso deste segundo mandato do Governo Dilma Rousseff, a espera estava se transformando em uma angústia tangível na Bolsa de Valores de São Paulo (Bovespa). Um dia depois de confirmada a reeleição de Dilma Rousseff, no dia 26 de outubro, por exemplo, as ações da bolsa derreteram logo após a abertura. E o sobe e desce se manteve a cada nome lançado no mercado de apostas de quem assumiria. Pois o nome de Joaquim Levy, confirmado nesta quinta para suceder Guido Mantega, já mostrou que vale, pelo menos 80,7 bilhões de reais, pelas contas do jornalista Cláudio Gradilone, da revista IstoéDinheiro. “Esse é o aumento do valor de mercado de 306 empresas listadas na Bolsa de Valores de São Paulo, um aumento de 3,46% em relação à quinta-feira 20 de novembro, último pregão antes da indicação de Levy”, escreveu Gradilone, nesta terça.
No caso de nove empresas estatais federais e estaduais - como Petrobras, Banco do Brasil e Eletrobras - a valorização é ainda mais expressiva. Nesse período, o valor de mercado dessas companhias aumentou 6,2%, um ganho de 22,6 bilhões de reais.
As credenciais do novo czar da economia valem ouro no momento que o manejo das contas públicas pede mais ortodoxia e menos “contabilidade criativa”, como ficaram conhecidas as manobras aplicadas sob a gestão de Guido Mantega para que a equação de receitas e despesas se adaptassem aos parâmetros aceitos pela lei de Responsabilidade Fiscal do Brasil. Formado em engenharia naval, e doutor em Economia pela Universidade de Chicago, Levy já é conhecido do mercado, pela sua passagem como secretário do Tesouro dos anos Lula, e secretário da Fazenda do Estado do Rio de Janeiro. Levy não chega a ser unanimidade, como mostrou uma carta de intelectuais nesta semana, que rejeitaram o seu nome, incluindo o economista Luiz Gonzaga Belluzzo, um dos conselheiros de Lula para os assuntos econômicos.
Mas, o país e o mercado financeiro ainda estão ao sabor dos ventos. Na quarta, a Bovespa caiu novamente, demonstrando que a confiança em Levy pode ser plena por parte dos agentes financeiros, mas em Dilma, o apoio ainda é limitado. Com fama de intervencionista e centralizadora, a dúvida é se a presidenta deixaria o novo ministro da Fazenda trabalhar. “O novo ministro terá voz? Ainda não está claro”, disse ao EL PAÍS, o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso, que não vê outra saída para o país se não colocar alguém com o perfil de Levy na condução da economia agora. Essa autonomia é fundamental, principalmente para que o país entre em sintonia com os investidores, uma vez que as oscilações terminam embaçando as lentes dos donos do dinheiro, que perdem o referencial de quanto vale a moeda, o que prejudica as decisões de investimentos.
Numa conversa em dezembro do ano passado, quando ainda estava como economista-chefe da gestora de investimentos Bradesco Asset Management, Joaquim Levy contou algumas impressões suas sobre o cenário brasileiro. Àquela altura, o Brasil havia acabado de conhecer o resultado do terceiro trimestre de 2013, que havia recuado 0,5% no período. “Quando a maré baixa um pouquinho, as coisas que não pareciam relevantes, ficam importantes. [O país tem] muita burocracia. Se você for legislando mais, complica mais. É preciso encontrar um balanço correto, entre riscos, e proteger direitos. Temos que estar sempre nos questionando, isso é um dos fatores para ter eficiência”, afirmou ao EL PAÍS.
Para ele, o grande segredo para continuar a crescer é fomentar a tranquilidade global. “Quanto menos surpresas, mais [o setor privado] consegue se fixar no seu negócio”, explicou. Mensagem esta que soa como música para os empresários, a ponta que falta estimular no Brasil, onde a demanda está garantida - com um vasto mercado consumidor que cresceu nos anos Lula - mas a oferta, não. A falta de crédito no Governo Dilma tem mantido o setor privado com o pé no freio, engavetando projetos.
Levy, porém, com a recente passagem pelo Bradesco está familiarizado com a linguagem corporativa, e pode ter a facilidade de passar as mensagens certas para o empresariado. Mas, como disse o ex-presidente Fernando Henrique, se a presidenta provar que é capaz de mudar a impressão geral de que não sabe delegar funções. O fato de Dilma ser economista seria um fator complicador. Quem convive com Levy, de qualquer forma, se impressiona com a sua cultura e seu nível de inteligência, o que deixa claro que o debate será de alto nível, uma vez que ele conhece também os pontos de resistência do setor privado melhor que seu antecessor. Mantega saiu direto da vida acadêmica para o ministério da Fazenda, onde ficou 8 anos, o mais longevo ministro da democracia brasileira.
Levy, segundo a Folha de S.Paulo, está deixando um salário da casa de milhão de reais anuais para um rendimento mensal de 26.723,16 reais. Seus proventos certamente subirão caso seja bem-sucedido na missão, assim como a popularidade de Dilma caso ele cumpra a expectativa inicial de que tem tudo para ser bem-sucedido.

terça-feira, 16 de dezembro de 2014

A falta de Identidade da Sociedade Brasileira

A verdade é que a grande maioria do povo Brasileiro não é nem de direita e nem de esquerda, apenas segue o que as notícias de jornais e TV ditam.

Como a grande mídia está nas mãos de uma boa parcela da Centro-direita, então o natural é que o senso comum seja baseado por essa percepção.

Com exceção de quem realmente se interessa pelo assunto de forma um pouco mais profunda - mesmo que não seja um especialista ou não tenha estudado - o bonde é puxado por aquilo que a maioria tem como acesso a informação.

Nesse momento também surgem personagens com princípios questionáveis, de ambos os lados, ditando caminhos que precisam ser debatidos e pensados com muita cautela. Isso aparentemente acontece em momentos como o que estamos vivendo, bombardeados por casos de corrupção, escândalos que parecem nunca ter fim e uma ABSOLUTA CRISE DE REPRESENTATIVIDADE.
A tolerância das pessoas vai se esvaindo e começamos a notar um movimento de grande desespero.
O desespero é uma sensação perigosa, porque ele assim como o ódio, cega as pessoas.
Para se ter um exemplo, quando uma pessoa está se afogando e entra em DESESPERO, ela é capaz de afogar até seu melhor amigo caso ele se aproxime para salvá-la.

Certa vez fiz um curso de salvamento e um dos ensinamentos era que a abordagem feita a uma pessoa desesperada num caso desses deveria ser conduzida com uma aproximação por um ponto onde essa pessoa não pudesse lhe ver. Caso o contrário ela poderia agarrá-lo com todas as forças e sem querer, apenas pelo instinto de sobrevivência, lhe usar para se manter na superfície respirando, e isso poderia até lhe afogar junto.

É muito como vejo a sociedade atual. Como se estivessem se afogando, uma profunda sensação de insegurança, nenhum senso de auto-responsabilidade para lhe indicar maneiras de colaborar com a própria salvação e com um desejo imenso de VINGANÇA, que é diferente de JUSTIÇA, tudo isso potencializado pela falta de oxigênio entre os bombardeios das péssimas notícias que são oferecidas incessantemente, todos os dias, por todos os cantos.

São décadas e mais décadas de descaso do Estado com a Educação, com a Segurança, com o planejamento do país, com a saúde, com sucateamento das empresas públicas, com a IMPUNIDADE ofertada aos agentes públicos e com o absoluto sentimento de impotência diante dos fatos.
E mesmo que algum pouco tenha sido conquistado, as pessoas urgem por soluções imediatas, e não existem soluções imediatas para problemas que tiveram origem em nosso viés de colonização. SEMPRE FOMOS EXPLORADOS.

Quando esse quadro se instala, vem o desejo quase que inconsciente da necessidade de um herói. Alguém com super poderes que possa nos salvar das garras do mal que nos padece.
E junto com a necessidade do Herói surgem os candidatos a SUPER HERÓIS, com discursos inflamados, as palavras que todos querem ouvir e uma atitude que supostamente possa nos resgatar de todo esse lamaçal, de todo esse lixo, de toda esta injustiça a qual estamos submetidos e a qual nos submetemos quando deixamos de nos preocupar com o que é público e nos pertence.

O que a meu ver é um grande perigo… Hitler, Mussolini, Stalin e outros ditadores…

Como cada um de nós vive num mundo muito particular, fica complicado entender as necessidades de quem não vive no mesmo mundo que nós.
E então nesse instante o caos se instala e as diferentes correntes se polarizam ao ponto de ficarem bem evidentes e extremistas.

O indivíduo de direita vai lutar pelo direito de andar armado para se proteger dos bandidos que se movem pelas ruas e que demandam constante sensação de perigo.
O indivíduo de esquerda acredita que é o investimento em educação é que fará com que a sociedade não precise andar armada. E que uma vez em perigo, quem deve proteger o cidadão é o Estado e não o próprio cidadão.

Mas e quando o ESTADO É FALHO?
Tanto o indivíduo da direita quanto o da esquerda estão em perigo.
E as soluções não serão instantâneas para nenhum dos dois.

O indivíduo da direita desejará que maiores de 16 anos sejam punidos sendo colocados atrás das grades junto com marginais profissionais que com carreira consolidada no crime estão aptos a se tornarem grandes mestres para estes jovens. Ele deseja somente a prisão, pois não acredita em reabilitação desses marginais.

O indivíduo da esquerda desejará provar por A + B que essa solução não diminui o problema da violência e que é preciso oferecer oportunidades, qualidade de vida, escola, faculdade e emprego para reduzir o número de menores infratores. Que esses bandidos devem ser punidos sim, mas não misturados a bandidos profissionais. 

Mas e quando o Estado começa com anos de atraso a investir em oportunidades para os mais pobres e ignorados?

Tanto o indivíduo da Direita quanto da esquerda estão sujeitos a passar por algum tipo de situação de violência na mão desses menores. Qual o melhor caminho a seguir?

O indivíduo da direita quer que a sua religião prevaleça aos valores universais e individuais e que a família tenha apenas UM formato, não aceitando variações de gênero e orientação sexual, e uma vez que esse formato seja questionado, qualquer tentativa de mudança do PADRÃO deve ser imediatamente anulada.

O indivíduo de esquerda entende que o Estado é Laico e que a diversidade religiosa deve prevalecer. Que nenhuma religião deve ditar os princípios constitucionais, oferecendo a todos os mesmos direitos e deveres, inclusive no que chamam de minorias - Negros, mulheres e homossexuais - oferecendo a todos os cidadãos o direito a formar família e exercer sua cidadania livre de preconceitos e perseguições.

Mas o Brasil é um país onde o Cristianismo forma a base do pensamento social e a Igreja Católica durante muitos anos foi quem balizou as regras. Hoje com o crescimento das correntes evangélicas, estamos nos tornando ainda mais conservadores e a tendência é que esse pensamento ganhe cada vez mais espaços, tornando conflituosa a convivência entre os pensamentos diferentes.
Como lidar com estes quadros?

A direita é contra o Aborto. Contra a Legalização das Drogas.
A esquerda quer debater a segurança da mulher que opta pelo aborto e quer regulamentar a venda e o uso das Drogas, por entender que nas mãos de traficantes o dinheiro circula sem controle do estado.

O Indivíduo de Direita acredita que Direitos humanos são apenas para quem eles consideram humanos. Que bandidos não merecem ser tratados como humanos, por conta de seu comportamento desumano muitas vezes. São a favor da pena de morte em muitos casos e aplaudem a justiça com as próprias mãos - quando não praticam por conta própria como acontecia muito nos anos 80 com os esquadrões da morte.

O indivíduo da esquerda acredita que os Direitos Humanos servem para todos, inclusive para as vítimas dos bandidos. E que essa declaração mundial tão polêmica, visa resguardar os direitos de todos os humanos para que os mesmos possam ser punidos de acordo com as leis vigentes.
Mas e quando a sociedade está exposta a tanta violência e não se sente segura por conta da falência da segurança pública e do modelo atual das polícias e decide se Vingar? De tanto se sentir impotente e atingido pela violência, não admite que bandidos tenham resguardadas suas dignidade tendo em vista que não se preocupam com a dignidade de suas vítimas. O que Fazer?

O indivíduo da direita quer um mercado com o mínimo de intervenção do Estado, completamente disponível para que se exerça o livre comércio ainda que esse livre comércio não atenda a todos os setores da sociedade.

Banco central independente que possa flutuar de acordo com os interesses financeiros internacionais.
Acredita que as estatais custam caro o Estado e dão poucos lucros e devem funcionam melhor sem as mãos da União, e que tudo deve ser privatizado para que possam usufruir sem restrições das leis de mercado sem intervenção do Governo.

O Indivíduo da esquerda pode variar entre aquele que não aceita qualquer tipo de privatização, por entender que é uma maneira de entregar as riquezas de seu país para a exploração estrangeira, até aquele que entende que algumas empresas possam ser melhor administradas por grupos independentes do Governo, mas que existem estatais como a Petrobras que jamais possam ser vendidas. O indivíduo da esquerda acredita que o Estado precisa participar da economia e regular de alguma maneira o mercado para que indivíduos que não tem as mesmas condições financeiras não fiquem expostos ao Capitalismo de forma mais selvagem.

O indivíduo da direita é um "Homem de bem", trabalhou muito e a vida inteira para ter de sustentar ALÉM de sua própria família, famílias que não tem condições financeiras e nem sociais para manter um mínimo de dignidade. É contra cotas, contra auxílios sociais e acha que esse tipo de ação é Populismo. Para o indivíduo de direita o mérito deve ser próprio, Cada um que consiga o que deseja por sua conta e talvez pela falta da percepção um pouco mais abrangente da complexidade da sociedade não aceite que muitas pessoas durante muito tempo em suas vidas, nunca tiveram nada, nem o direito de se enxergar nesse contexto para que possam lutar por um lugar de mais destaque.
O indivíduo de esquerda acredita que é fundamental que o Governo ofereça auxílio para reduzir a miséria e distribuir renda. Que cotas são formas de equilibrar a desigualdade existente entre pobres e ricos, mas que também inclui os negros por entender que o Brasil tem uma dívida histórica com essa raça que foi escravizada e tardiamente liberta nesse país, tendo ficada a deriva por muitos séculos até que pudesses disputar lugar na sociedade.

Ele dá uma visão geral nas escolas e faculdades e percebe que existem muito poucos negros dividindo as salas de aula e por consequência os locais de trabalho.

Mas e quando o Estado oferece os auxílios e uma parte da própria população passa a usar disso para tirar vantagem ao invés de aproveitar a ajuda para sair da situação complicada? E por outro lado porque não é mostrado na grande mídia aqueles que conseguiram se erguer através destas mesmas ações e passaram a não precisar mais do Estado?

Como perceber algum avanço e os pontos fracos sem cair na cilada de colocar todo mundo no mesmo balaio?

Enfim, estes são alguns pontos - QUE A MINHA PERCEPÇÃO permitiu captar e colocar no papel, usando apenas alguns sentidos básicos e bem CRUS para diferenciar o pensamento do indivíduo de Direita do indivíduo de esquerda. CONSIDERANDO é claro que entre os dois extremos existem MUITAS NUANCES e que esta paleta de cores não se resume a meia dúzia de rótulos e nem mesmo a esta explicação simples que ofereci apenas a título de um entendimento facilitado.

Numa democracia é essa diversidade de pensamento que equilibra a sociedade. É importante que existam indivíduos que pensam diferente e que apresentem propostas diferentes, mas sem tentar anular o pensamento divergente. Você pode concordar com algumas questões da direita e também concordar com questões da esquerda. O que lhe dará sua identificação ideológica será a forma como você pensa o mundo. Quanto mais individual - mais a direita, quanto mais coletivo, mais a esquerda?
Será que isso basta para lhe posicionar? Talvez não.

Pois a complexidade do pensamento humano é muito maior que meia dúzia de pensamentos clichês que expus aqui. Mas poderá lhe direcionar a pensar sobre quais pilares você prefere construir a sociedade que lhe abrigará.

Não tome minhas palavras como verdades absolutas dentro de um contexto tão complexo. Apenas use-as para refletir a respeito do tema.

A grande maioria dos Brasileiros pouco se importa se é direita ou esquerda que está no poder, desde que as coisas funcionem…

Mas como não funcionam como deveria…

Você PRECISA ENTENDER é que sendo de direita ou de esquerda, o PRIMORDIAL é que você seja JUSTO e que independente de quem esteja no PODER, é que a JUSTIÇA seja feita e para que haja JUSTIÇA é preciso que exista DEMOCRACIA e para que exista democracia é preciso que os erros do passado não se repitam.

Por isso que posso dizer que ser de esquerda NÃO SIGNIFICA que você esteja dando carta branca para um GOVERNO DE ESQUERDA fazer o que quiser… Significa apenas que você entendeu seu papel e que vai lutar para que o que você acredita seja realizado. Doa a quem doer, mas tendo o cuidado de analisar os pontos antes de ASSUMIR UM DISCURSO ÚNICO.

Quem errou que seja punido e quem acertou que seja exaltado.

Caso o contrário o mundo fica de uma cor só.

Estão tentando criminalizar a esquerda como um TODO por conta dos erros e da roubalheira promovida pelo PT, e nós temos por dever, e pela democracia, tentar pelo menos mostrar ainda que com uma dose não tão profunda, que ideologias e afinidades não estão e nem devem ser relacionadas apenas a partidos políticos e que pensar nisso é importante para saber que tipo de ideia você se identifica mais, mesmo que no momento o que serve como representante esteja escorregando em pontos importantes, que antes eram defendidos com muita força. O PT se rendeu aos esquemas que sempre irrigaram a política, coisas do poder, mas nem por isso podemos colocar a esquerda toda no balaio e menos ainda permitir que a Direita EXTREMA coloque suas asas de fora.

Corrupção não é exclusividade do PT. Mas eu sempre disse que só o PT poderia derrotar o PT. A ganância, a sede pelo dinheiro e poder, o orgulho, a ambição desenfreada e mais algumas coisas estão fazendo o partido ruir em meio a escândalos. O que mais me assusta nisso tudo é ver que pessoas e partidos acham que nada está acontecendo e defendendo esse posicionamento. Aí já é demais!

Fica claro aqui duas coisas, existe uma minoria que entende política e como ela funciona, discute ideias com educação, aponta falhas e até sugere algumas soluções. O outro lado critica o Governo e desce o cacete no PT (não sou Petista, que fique bem claro), fala de dominação Bolivariana e todo esse discurso imbecil, não preciso repetir todo ele para que se entenda, nosso Pais tem 3 poderes, o Executivo este hoje nas mãos de 2 partidos, o PT e o PMDB, o Legislativo no qual TODAS as Legendas tem representantes e o Judiciário que em tese deve ser "apartidário".

A forma de fazer política no Brasil vem dos tempos da Ditadura, TODOS nós sabemos que as empresas que prestam serviço ao Governo pagam PROPINA a Políticos e funcionários do estado para ganharem licitações, isto começa nas Prefeituras, nos Estados e não tem como não ser igual, acontece também no Governo Federal. A verdadeira luta que penso que deveríamos estar travando é para a REFORMA POLÍTICA, mas os verdadeiros RATOS que comem o nosso queijo estão no Congresso e no Senado e NADA é aprovado sem passar por eles. Renan Calheiros por exemplo ja foi denunciado, processado e tal e continua impune e como ele quantos outros ?

Foi divulgado amplamente nas redes sociais e na televisão que TUDO no Brasil é mais caro, carros, eletrônicos e toda uma gama de produtos, e também ficou provado que "não é apenas por conta do imposto", as grandes empresas, ou seja os grandes grupos que detêm o capital ditam as Leis de Mercado e como o brasileiro pode pagar eles cobram mais caro, isso o povo da DIREITA concorda ? Acho que sim, falam de meritocracia, sim claro, em parte eu concordo com a meritocracia, mas um cidadão que nasce muito pobre, sem alimentação adequada, sem higiene e saúde adequadas, sem educação adequada pode ser igual a quem tem tudo isso desde o berço?

O problema é que sou obrigado a ver um IMBECIL que poderia estar usando toda a força, palavras, atitudes e etc... em prol de UNIR a sociedade para que se cobre a Reforma Política, ficam ladrando, fazendo um barulho ensurdecedor mas não dizem nada e ainda tiram o foco de pessoas bem intencionadas.

O que vem existindo nas últimas décadas no Brasil é uma indústria do atordoamento (que também atende pelo apelido de "imprensa"). Copiada do pior tipo de sistema de governo direitista, que é o americano. Quem já assistiu o documentário do Michael Moore (Tiros em Columbine) entenderá perfeitamente o que digo. O problema não é direita ou esquerda, o problema é que a nossa direita é um genérico da direita americana, que o novo alinhamento mundial vem provando que já nasceu falido, mas ainda sabe perfeitamente destilar o seu veneno transformando em "comunistas do mal" qualquer país que lhe questione. Quando os jovens brasileiros deixarem de ver o mundo através dos olhos de Hollywood e CNN talvez tenhamos uma chance.


SOBRE AS MENTES INFECTADAS PELO LADISMO: Não existem dois lados. Isso é um esquema interpretativo para manter o ladismo. É um truque. Se você se deixa infectar por esse malware, não pode mais dizer nada. Porque se falou de um lado, tem que falar do outro lado. É uma maneira de quem está cometendo crimes contra a democracia se livrar das denúncias ou das críticas: "Ah! Mas você falou apenas de um lado e assim está sendo parcial, por que não crítica também o outro lado (que faz o mesmo)?".

Entenderam o golpe? Durante uma geração inteira a consciência das pessoas foi colonizada com esse programa.

Então, se eu falo que Mao Tsé-Tung foi responsável pela morte de 70 milhões de pessoas (em tempos de paz), o cara vem e diz: "Ora, por que você não fala também do outro lado, dos exploradores e opressores que durante séculos dominaram e massacraram o povo chines?"

Ou se eu falo que o PT está aparelhando o Estado brasileiro para usá-lo como instrumento de conquista de hegemonia sobre a sociedade e assim se manter no poder por tempo indeterminado, o cara vem e diz: "Ora, por que você não fala do outro lado, o PSDB (ou o que seja, pode ser até o partido da Marina, se houver um, algum dia) faz o mesmo, pois vai ficar 20 anos em São Paulo? Você está sendo parcial e só vê um lado. Seja mais sincero e fale também do outro lado".

Com os caras infectados por esse vírus, não há como conversar. Eles justificam qualquer mal-feito dizendo que há um outro lado que faz o mesmo.

O simples fato de usar estes termos (direita X esquerda), em vez de tratar diretamente de ideias, propostas, soluções para o país e o mundo, já é um armadilha. Primeiro porque estes conceitos são totalmente abertos a serem compreendeidos de forma diferente pelas pessoas. No final das contas é mais um artifício para gerar separação. Para enfraquecer o todo e facilitar a dominação. 

Se as pessoas, em vez de tomar um lado, dentro desse campo de batalha conceitualmente arcáico passassem a somente olhar pro que está aí e o que há de ser feito para melhorar, sem ideologiazinha empacotada, somente com visão prática e realista, questionando tudo, sabendo que mudanças são inevitáveis e que elas dependem das atitudes de cada um de nós, a gente avançaria mais rápido.


sábado, 13 de dezembro de 2014

A imagem do ano do esporte nacional, no Vôlei

Se no ano de 2013 foram os jogadores de futebol que deram o exemplo nas manifestações do Bom Senso FC, agora são os do vôlei.

Jogadores do Canoas e do Taubaté resolveram protestar contra a atual situação do vôlei brasileiro antes do encontro entre as equipes no Rio Grande do Sul no início da tarde deste sábado. Os atletas entraram em quadra com narizes de palhaço para se manifestarem contra os escândalos de corrupção da CBV (Confederação Brasileira de Vôlei), comprovados em relatório divulgado pela Controladoria Geral da União (CGU) nesta semana. Além disso, cada time errou um saque de forma proposital. O acordo foi feito entre as comissões técnicas.



A partida, válida pelo primeiro turno da Superliga Masculina, foi transmitida pelo SporTV e a imagem rapidamente passou a circular nas principais redes sociais, como Twitter, Facebook e Instagram, gerando enorme repercussão e apoio de outros jogadores.

O Canoas Vôlei é a equipe onde atua o central Gustavo Endres, presidente da comissão de atletas do vôlei e uma das vozes mais ativas contra a CBV.

"Foi uma atitude combinada entre os jogadores em relação a tudo que vem acontecendo no país e apoiamos. Não acredito que possa haver algum tipo de retaliação da CBV", afirmou Ricardo Navajas, diretor técnico do Taubaté.

"Quando apareceu toda esta situação envolvendo a CBV pensamos em tomar um atitude inofensiva, mas que fosse interessante. Todos acataram esta forma de protesto. O Brasil vive um momento de muitos escândalos de corrupção. Queremos que o vôlei permaneça na mídia pelos resultados e sempre tenha atenção por ser vitorioso. Foi uma atitude isolada, mas bacana e inofensiva. Fizemos nossa parte, é o máximo que podemos fazer. Agora, depende de outras instâncias", disse o levantador Paulo Renan.

Tudo indica que há um novo Brasil em processo.

Um país que se rebela contra a corrupção, as arbitrariedades, a impunidade.

Vai doer, vai sangrar, mas, se continuar, vai depurar, vai melhorar.

Junho de 2013 está longe de terminar.

Basta!

A frase de Márcio Braga, então presidente do Flamengo e, então, do lado certo na queda de braço do futebol, ficou famosa:

“João Havelange casou a filha com o presidente errado”.

Braga se referia ao casamento da filha única de Havelange, Lúcia, com Ricardo Teixeira, presidente da CBF, e apontava para o quem seria o cartola mais adequado, Carlos Nuzman, então presidente da CBV.

Todos se encantavam com o que Nuzman fazia com o vôlei, que saíra quase do nada para virar uma força mundial.

Aos poucos, porém, foi ficando claro que Nuzman também vivia do esporte, ao contrário do que dizia e era apenas mais competente, ou menos sedento, que Teixeira.

Teixeira e Nuzman, aliás, disputavam a preferência de Havelange e como ciúme de homem é ainda pior que o de mulher, um dizia, sempre em off, barbaridades do outro.

Até que Nuzman partiu para sonhos mais altos, no COB, onde permanece vivendo do esporte e revelou-se incompetente.

Substituído por Ary Graça, a CBV seguiu obtendo excelentes resultados e fazendo a felicidade de mais um cartola.

Graça, vaidoso, jamais se conformou em não ser paparicado como Nuzman fôra, porque, àquela altura, já se sabia que a CBV também era uma caixa preta.

Então, chegou a abordar, ironicamente, um jornalista, se apresentando:”Eu sou o Ary Graça, do vôlei”, como se deixasse implícito, (“e nunca fui entrevistado por você”).

De fato, bastava o engodo Nuzman.

Eis que o repórter Lúcio de Castro abriu a caixa preta da CBV na ESPN Brasil e a Controladoria Geral da União a destampou de vez, para levar o Banco do Brasil a suspender um patrocínio de mais de duas décadas.

A grande diferença entre o a CBF e a CBV está na corajosa reação de algumas das estrelas do vôlei, gente como seus dois extraordinários treinadores, Bernardinho e José Roberto Guimarães, além de craques como Murilo ou ex-atletas como Ana Moser.

Zagallo, Parreira, Felipão, Ronaldos, Dunga, Neymar, passam ao largo, até elogiam.

Que o vôlei brasileiro siga vencedor nas quadras, mas passe a ser decente nos gabinetes.

Esperança ainda distante no futebol.

E o ex-Márcio Braga estava enganado.

Não nasceu ainda um presidente de confederação de esporte no Brasil para casar a filha, pelo menos a sua, a minha, a nossa.

Já a de Havelange…

…eles são brancos, se entendem.

Eu não consigo entender velho porque todos os jogadores, tanto de vôlei, quanto de futebol, não se juntam e param tudo, mas tudo mesmo, aqui no Brasil, e exigem a saída, tanto desse canalha da CBV, como os da CBF? Os personagens principais disso tudo são jogadores e torcedores! Tomem uma atitude! Vcs jogadores tem o poder nas mãos e não fazem nada velho. Se submetem a tudo q estes crápulas decidem. Acordem! Parem tudo e deem um pontapé no traseiro desses morcegos.

O que têm em comum a Confederação Brasileira de Vôlei, a Fifa, o Fluminense e uma porção de clubes patrocinados pela Caixa Econômica Federal?

Todos estão perdendo, ou correndo o risco de perder, seus patrocinadores.

E, por quê?

A CBV, que viu o Banco do Brasil suspender o patrocínio por irregularidades constatadas pela Controladoria Geral da União a partir de denúncias feitas pelo repórter Lúcio de Castro, da ESPN Brasil, está em situação semelhante à da Fifa, que viu a Emirates e a Sony se afastarem por não quererem ter sua marcas ligadas a escândalos de corrupção.

O Fluminense, assim como um montão de clubes patrocinados pela Caixa estão arriscados, viu a Unimed dizer adeus porque o futebol brasileiro ficou menos atraente depois dos 7 a 1 e porque, também, é cada vez mais insuportável ver marcas associadas à violência de torcidas.

No caso do Banco do Brasil/CBV há sinais que dão esperanças neste país em que comandantes do partido do governo estão cumprindo pena por causa do mensalão, executivos de empreiteiras, enfim, estão presos e indiciados por causa do escândalo na Petrobras e 377 nomes foram denunciados pela Comissão Nacional da Verdade como responsáveis por torturas, desaparecimentos e mortes durante a ditadura: esperança de que a impunidade acabe e de que não se aceite mais o “rouba mas faz”.

Porque, lembremos, o vôlei é o esporte mais vitorioso do Brasil.

Ou seja: fazer, fez, mas se roubou, era uma vez.

E, por favor, não confunda moralidade com moralismo.


terça-feira, 9 de dezembro de 2014

Aos que defendem a volta da ditadura militar...no Brasil

Eles eram 400 nas ruas de São Paulo, no primeiro sábado de dezembro, pedindo intervenção militar. Quatrocentos não é pouco. Um é muito.



Quando escuto brasileiros fazendo manifestação pela volta da ditadura, penso que eles não podem saber o que estão dizendo. Quem sabe, não diz. Mas esse primeiro pensamento é uma mistura de arrogância e de ingenuidade. O mais provável é que uma parte significativa desses homens e mulheres que têm se manifestado nas ruas desde o final das eleições, orgulhosos de sua falta de pudor, peçam a volta dos militares ao poder exatamente porque sabem o que dizem. Mas talvez seja preciso manter não a arrogância, mas a ingenuidade de acreditar que não sabem, porque quem sabe não diria, não poderia dizer. Não seria capaz, não ousaria. É para estes, os que desconhecem o seu dizer, estes, que talvez nem existam, que amplio aqui a voz das crianças torturadas, de várias maneiras, pela ditadura.

Crianças. Torturadas. De várias maneiras.

Como Ernesto Carlos Dias do Nascimento. Ele tinha dois anos e três meses. Foi considerado terrorista, “Elemento Menor Subversivo”, banido do país por decreto presidencial. Foi preso em 18 de maio de 1970, em São Paulo, com sua mãe, Jovelina Tonello do Nascimento. O pai, Manoel Dias do Nascimento, militante da Vanguarda Popular Revolucionária (VPR), organização comandada por Carlos Lamarca, havia sido preso horas antes. Ernesto é quem conta:

“Me levaram diversas vezes às sessões de tortura para ver meu pai preso no pau de arara. Para o fazerem falar, simulavam me torturar, com uma corda, na sala ao lado, separados apenas por um biombo”.

O menino de dois anos dizia: “Não pode bater no papai. Não pode”.

E batiam.

Libertado quase um mês depois, passou os primeiros anos com pavor de policiais de farda e grupos com mais de quatro pessoas. Entrava em pânico, escondia-se debaixo da cama ou dentro do armário, mordia quem se aproximava e urinava nas calças. Ernesto foi uma criança com pesadelos recorrentes. O mais comum era com um asno, uma corda e uma agulha. “O asno usava um boné militar, a agulha tinha olhos arregalados e uma risada aguda sarcástica e corria atrás de mim, eu apavorado tentava fugir. O asno me cercava, me dava coices ou chutava coisas sobre mim. A corda parecia boazinha, disfarçada de linha se estendia até mim, mas quando eu a segurava ela machucava minhas mãos e me deixava cair em um abismo.”

Ernesto é um dos 44 adultos torturados na infância – física e psicologicamente, mas também de outras maneiras – que contam sua história em um livro lançado em novembro pela Comissão da Verdade do Estado de São Paulo “Rubens Paiva”. Infância roubada – crianças atingidas pela Ditadura Militar no Brasil é a memória do inominável que precisa ser nomeado para que cada um deles possa viver, para que o crime de Estado não se repita. A maioria dos depoimentos foi registrada em audiências na Comissão da Verdade de São Paulo. Algumas pessoas, que não puderam comparecer ou não conseguiam falar sobre o assunto, foram entrevistadas depois.

O que dizer sobre crianças torturadas pelo Estado? E torturadas ontem, em parâmetros históricos, bem aqui? Os relatos desse livro são alheios aos adjetivos. São silêncios que falam. E soluçam. Como João Carlos Schmidt de Almeida Grabois, o Joca, antes mesmo de nascer. Ele estava na barriga da mãe, Crimeia, quando ela levou choques elétricos, foi espancada em diversas partes do corpo e agredida a socos no rosto. Enquanto ela era assim brutalizada, os agentes da repressão ameaçavam sequestrar seu bebê tão logo nascesse. Quando os carcereiros pegavam as chaves para abrir a porta da cela e levar Crimeia à sala de tortura, o bebê começou a soluçar dentro da barriga. Joca nasceu na prisão e, anos depois, já crescido, quando ouvia o barulho de chaves, voltava a soluçar. A marca da ditadura nele é um soluço.

Perto da hora do parto, em vez de levarem Crimeia para a enfermaria, a colocaram numa cela cheia de baratas. Como o líquido amniótico escorria pelas pernas, elas a atacavam em bandos. Isso durou quase um dia inteiro. Só no fim da tarde, com outros presos gritando junto com ela, a levaram para o hospital. O obstetra disse que, como não estava de plantão, só faria a cesariana no dia seguinte. Crimeia alertou que seu filho poderia morrer. O médico respondeu: “É melhor! Um comunista a menos”. O pai de Joca foi assassinado pelo regime militar meses depois de o menino nascer. A primeira vez que ele viu o rosto do pai foi aos 18 anos, numa foto nos arquivos do DOPS (Departamento de Ordem Política e Social) de São Paulo.

Carlos Alexandre Azevedo, o Cacá, não suportou a lembrança. Talvez porque ele nunca pôde transformá-la em memória. Era nele algo vivo e sem palavras, um silêncio que não conseguia se dizer. E um silêncio que não consegue se dizer é um pavor. Ele tinha um ano e oito meses quando sua casa foi invadida por policiais do DOPS/SP, em janeiro de 1974. Como começou a chorar, os policiais deram-lhe um soco na boca que de imediato sangrou. Passou mais de 15 horas em poder da repressão, nas mãos de funcionários do Estado, enquanto lá fora gente demais vivia suas vidas fingindo que nada acontecia. Seus pais ouviram relatos de que nesse período o menino, pouco mais que um bebê, teria levado choques elétricos. Cacá se matou aos 40 anos, em 2013. Seu pai diria: “Ele ficou apavorado. E esse pavor tomou conta dele. Entendo que a morte dele foi o limite da angústia”.

Ângela Telma de Oliveira Lucena escolheu lembrar. Tinha três anos e meio quando executaram o pai diante dela. Ângela diz:

“Eu lembro como ele estava vestido. Eu lembro exatamente como tudo se desenrolou naquele dia. Eu estava no colo da minha mãe, e quando fui crescendo, durante muitos anos ficava pensando se tinha sonhado aquilo ou se era realmente um fato que tinha ocorrido. Eu vivia um conflito entre apagar, riscar aquilo da minha vida, mas, ao mesmo tempo, sabia que, se fizesse isso, estaria riscando a história da minha família. (...) As pessoas sempre colocam em dúvida se eu realmente consigo lembrar da morte do meu pai. (...) Eu gostaria muito de poder apagar esse momento do assassinato do meu pai da minha vida. Mas eu não posso, eu não quero e eu não consigo. Porque a única memória que tenho do meu pai é exatamente o momento da sua morte”.

Houve Paulo Fonteles Filho, cujo parto da mãe foi uma tortura iniciada por policiais, completada pelo médico. Aos cinco meses de gestação, Hecilda era espancada com socos e pontapés, aos gritos de: “Filho dessa raça não deve nascer”. Era mantida acordada a noite inteira com uma luz forte no rosto, no que se chamava de “tortura dos refletores”. Depois, sentada numa cadeira, os fios subiam pelas pernas e eram amarrados nos seios, causando calor, frio, asfixia. Mais tarde, foi colocada numa cela cheia de baratas. Ela já não conseguia ficar nem em pé nem sentada. Como não tinha colchão, deitou-se no chão. As baratas começaram a roê-la. Ela só conseguiu tirar o sutiã e tapar a boca e os ouvidos. Levaram-na então para o Hospital da Guarnição do Exército, em Brasília. Ela lembra da irritação extrema do médico, que induziu o parto e fez o corte sem anestesia. Hecilda não chorou. Ela conta no livro Luta, Substantivo Feminino: Mulheres Torturadas, desaparecidas e mortas na resistência à ditadura, publicado pela Secretaria Especial dos Direitos Humanos: “Depois disso ficavam dizendo que eu era fria, sem emoção, sem sentimentos. Todos queriam ver quem era a ‘fera’ que estava ali”. Assim é contado o nascimento de Paulo, assim é como ele começa a se contar. Nascido entre feras – nenhuma delas a sua mãe. Nascido entre humanos, os mais brutais entre as feras.



E há aqueles que não nasceram. Como o filho de Isabel Fávero que, aos dois meses de gravidez foi colocada numa sala e torturada com choques, pau de arara, ameaça de estupro e insultos verbais. No quinto dia, abortou. Isabel foi trancada num quarto fechado, onde ficou incomunicável. Ou Nádia Lucia do Nascimento, grávida de seis meses, colocada na temida “cadeira do dragão”. Depois de ter a roupa arrancada, levou choques elétricos por todo o corpo. Abortou. Teve hemorragias e dores, nenhum atendimento médico.

Essa é a memória das crianças da ditadura. É a lembrança de parto de suas mães. Nós, que não fomos torturados, não temos como alcançar como é viver com essa marca – ou tentar fazer marca do que ainda é horror – num momento histórico em que – depois de tudo – alguns brasileiros perderam a vergonha de pedir a volta da ditadura. Podemos tentar nos colocar no lugar desses homens e mulheres, hoje adultos com seus próprios filhos, alguns já avós, nascidos ou presos nos porões em que seus pais foram torturados e alguns deles assassinados. É fundamental tentar vestir o outro, mas não alcançamos. Não há como alcançar. Como é passar pela Avenida Paulista, como aconteceu algumas vezes nas últimas semanas, ouvindo os gritos de gente – gente, certamente gente – gritando por intervenção militar e volta da ditadura. Como é?

Entre as dezenas de relatos desse livro, há um que destoa. Este eu conheci de perto. Testemunhei. Ao contrário da maioria, Grenaldo Erdmundo da Silva Mesut não tinha lembrança da repressão. Sequer sabia o que era ditadura para além de um nome vago, uma história que não lhe dizia respeito. Alguns poderiam supor que talvez fosse melhor assim, mas isso é desconhecer o quanto a ausência da memória é brutal, um buraco que se pressente, mas não se sabe como apalpar.

Sobre ele, a jornalista Tatiana Merlino, que o escutou e assina a edição e a organização primorosa desse livro, diz: “A ditadura deixou inúmeras marcas nos filhos das vítimas; dos desaparecidos, assassinados, presos: desde nascimento na prisão, serem levados aos órgãos de repressão, clandestinidade, exílio, banimento, etc. Há histórias de horror, de crianças que viram os pais torturados, que foram sequestradas... Mas a história do Grenaldo me toca por uma brutalidade especial a qual ele foi submetido, que é o desaparecimento, o apagamento, promovido pela ditadura, da sua própria história. A ele foi negado até o direito de vivenciar a dor da verdade de ser filho de um assassinado pelo regime. Para além da subtração da vida, do corpo, a mentira, a subtração da verdade. Quais são os impactos desse crime na construção da identidade do Grenaldo? É essa lacuna, que são se pode mensurar, que me toca profundamente”.

Meu caminho se cruzou com o de Grenaldo de uma forma que só acontece na vida real. Se fosse ficção, a história seria considerada tão fantasiosa que soaria de má qualidade. Na campanha eleitoral de 2002, eu trabalhava na revista Época e minha atribuição era contar o então candidato Luiz Inácio Lula da Silva pela sua trajetória pessoal e familiar. Fiz várias reportagens e, no início do seu mandato como presidente, escrevi sobre a morte de sua primeira mulher, Maria de Lourdes, num parto em que ela e o bebê perderam a vida. Era mais uma das dores de Lula, dono de uma biografia que continha o DNA do Brasil, país que naquele momento ele começava a governar com a promessa de mudar o destino dos mais pobres e estatísticas como as da mortalidade materna.

Durante a investigação jornalística, descobri uma curiosa coincidência. O médico que assinou o atestado de óbito de Maria de Lourdes era um dos legistas acusados de ter forjado laudos para a ditadura. Sérgio Belmiro Acquesta, absolvido pelo Conselho Regional de Medicina um ano antes de morrer, era então gerente do departamento médico da Villares, metalúrgica em que Lula trabalhava como operário, e também funcionário do Instituto Médico Legal de São Paulo. Numa das páginas da reportagem havia a foto de dois casos em que ele teria atuado para apagar a responsabilidade do regime militar. Um dos retratos, em tamanho 3X4, era de um marinheiro, Grenaldo de Jesus Silva, que em 1972 sequestrou sozinho um avião da Varig. Depois de ter liberado todos os passageiros e a maior parte da tripulação, ele foi detido, imobilizado e morto no Aeroporto de Congonhas, em São Paulo, aos 31 anos. No dia seguinte, jornais estamparam a versão do regime: “Encurralado, terrorista suicidou-se”.

Três décadas depois, minha reportagem de capa foi publicada e essa pequena foto, mais do que toda a história de Lula e Lourdes, moveu lembranças insepultas. Dias depois, um homem que se apresentou como ex-sargento especialista da Aeronáutica, José Barazal Alvarez, então com 63 anos, procurou a revista. Quando o sequestro acabou, ele tinha sido o encarregado de fazer o relatório e recolher os pertences do morto. Ao examinar o corpo de Grenaldo, contou ter encontrado no peito uma carta ensanguentada e um segundo tiro. Nessa espécie de carta testamento, Grenaldo contava as razões do sequestro para o filho e prometia buscar a família tão logo chegasse ao Uruguai. José manteve segredo do que viu por 30 anos, não mencionou nada nem mesmo à própria mulher. Mas era assombrado pela carta, porque sabia que em algum lugar havia um filho que nunca recebera a palavra do pai, um gesto que, por não ter se completado, teria de ter causado estrago. Era desse pesadelo que José queria se libertar quando conversamos pela primeira vez. Ao ver a foto do marinheiro “suicidado” na reportagem, ele decidiu buscar o filho sem pai – e a libertação.

Eu procurei o filho. Mas mesmo entre as organizações de mortos e desaparecidos políticos da ditadura, a trajetória, as circunstâncias e a intenção do marinheiro que sequestrou um avião tinha muitas lacunas. Grenaldo foi um dos 1.509 marinheiros expulsos em 1964 por se alinhar com o presidente João Goulart. Destes, 414 foram condenados à prisão. Grenaldo recebeu a pena mais alta: cinco anos e dois meses. Fugiu e iniciou uma vida na clandestinidade. Dele era tudo o que se sabia até ressurgir num avião da Varig.

Tentei vários caminhos para encontrar seu filho, não consegui. Quando o telefone da minha mesa na redação tocou, eu ainda o procurava, mas já tinha escassas esperanças. No outro lado, uma mulher me disse que o filho do marinheiro queria conversar comigo. As linhas finalmente se cruzavam e, por um breve instante, esqueci de respirar. O que tinha se passado era algo tão prosaico, um clichê. Uma mulher folheava distraída uma revista velha no consultório do dentista, quando se deparou com o nome bastante raro. De imediato ligou para a irmã: “Leila, tem um homem aqui com o mesmo nome do seu marido. Será que não é o pai dele?”.

O marido de Leila não falava do pai. Ele era sobrevivente de uma infância arruinada, na qual o legado do pai era um “sangue ruim”. Sua mãe nunca soube das ações políticas do marido e, quando ele sumiu e reapareceu na capa dos jornais como “terrorista”, ela não pôde entender. Mônica Mesut já conhecera o marido na clandestinidade, na cidade paulista de Guarulhos, sem jamais ter sido informada de que ele tivera outra vida. Enquanto esteve com ela, Grenaldo foi vigia da construtora Camargo Corrêa e teve pelo menos dois negócios fracassados. Em 1971, começou a receber cartas que o deixavam muito nervoso. Um dia saiu de casa prometendo voltar para dar a família uma vida melhor e só voltou a aparecer num avião da Varig. O filho tinha quatro anos.

Até a vida adulta, do pai ele só sabia que era “ladrão” e “terrorista”. A família era muito pobre, sem nenhuma formação política e precária educação. Grenaldo, o filho, cresceu num cenário em que tudo faltava, entre uma mãe alcoólatra, um tio violento e uma avó devastada. Christina, a avó, e Mônica, a mãe, já eram elas mesmas sobreviventes de uma outra guerra. Ao fugir da Alemanha depois da Segunda Guerra Mundial, Christina encontrou um bebê nos braços de uma mulher morta. Sem leite ou comida, rasgou o pulso e alimentou-o com sangue. Era Mônica, a mãe de Grenaldo, que em 1972 não suportou ver o marido e pai do seu filho como terrorista e suicida nas capas dos jornais. Acreditou na ditadura e na imprensa. Em uma família na qual o passado já era trevas, mais um apagamento fazia todo o sentido.

Quando Grenaldo ainda era criança, Mônica literalizou a destruição da memória ao sofrer um acidente vascular cerebral (AVC) que a reduziu a quase nada. Morreria só anos depois. Enquanto viveu, Grenaldo e a mãe eram espancados primeiro pelo padrasto, depois pelo tio. O nome do pai só emergia pelo ódio, na boca de todos, por qualquer motivo e antes de cada surra: “Seu filho de ladrão!”. E então, quando ele tinha 35 anos, já professor de educação física e pai de família, apareceu aquele nome numa reportagem, com uma história diferente. Na mesma página de revista, José reencontrou o rosto que o assombrava, Grenaldo deparou-se com a face desconhecida do próprio pai.

O filho do marinheiro marcou um encontro comigo numa pizzaria de São Paulo. Eu carregava vários livros sobre a ditadura para dar a ele e um enorme temor. Como contar a um filho quem era seu pai? Como dar a um filho notícias do pai? Como se faz algo assim tão enorme, com que palavras? Me senti tão insuficiente. Cheguei mais cedo, como sempre faço, e esperei. Vi aquele homem enorme chegar, com o rosto transtornado por algo que era medo e era expectativa e era, me parecia, um pedido de compaixão. Era como se ele suplicasse com aqueles olhos arregalados, quase infantis, que eu tivesse cuidado, que eu possuía ali o poder de acabar com o delicado equilíbrio que ele havia alcançado com um esforço impossível de mensurar. Percebi que ele não tinha a menor ideia do que ia ouvir. Naquele momento, Grenaldo começou uma travessia em busca de um pai e de um país. Os dois, ao mesmo tempo. E eu era a ponte imperfeita e aquém diante dele. Quando voltei desse encontro, lembro de ter deitado na cama de roupa e ficado ali de olhos estalados até o dia amanhecer, porque era tão grande aquilo, grande demais.

Dias depois, marquei um encontro entre Grenaldo, o filho, e José, o ex-militar. A cena era impressionante. Grenaldo caiu de joelhos diante de José. E José libertou-se de um pesadelo de 30 anos. Todos naquela sala choravam. Naquele momento, a vida não cabia em nós.

José encerrava ali três décadas de um pesadelo recorrente, o de um homem assassinado, amontoado como um saco de lixo, num Opala preto da repressão. E Grenaldo iniciava uma série de noites agitadas, em que sonhava ser um detetive em busca de pistas.

Com a ajuda de um advogado, Grenaldo e eu passamos semanas, meses, buscando a carta que era sua. Numa noite, lembro de outra cena: as fotos do inquérito militar espalhadas pelo chão da sala da casa de Grenaldo. As imagens do pai morto, sangue, e nós dois tentando desvendar aquele quebra-cabeça macabro. Eu pensava: como ele vai suportar esse destino transtornado de um dia para o outro?

Grenaldo tinha – tem – algo que poderia ser definido como uma pureza resistente, algo que ele manteve intacto mesmo no inferno que foi sua infância, algo que eu já vi em outros sobreviventes, e algo que naquele momento o salvava de novo. Consegui localizar a última pessoa a encontrar seu pai com vida no avião e provar que ele foi assassinado. Testemunhas lembravam do estranho caso do homem “suicidado com um tiro na nuca”. A granada que supostamente o marinheiro portava durante o sequestro era, segundo José, um carretel de pescaria enrolado com fita crepe.

Grenaldo, o pai, foi reconhecido como um dos executados pela ditadura, e o filho pôde receber uma indenização do Estado. Meses depois, ele reencontrou a avó paterna no Maranhão e resgatou os laços perdidos com uma família que não sabia que tinha. Ele soube então que, depois de deixar a casa de Guarulhos e antes de sequestrar o avião, o marinheiro perseguido pela repressão tinha visitado a mãe, para dar a notícia de que ela tinha um neto e lhe deixar uma foto do menino. Atrás do retrato estava escrito: “São três anos que completo, sou um meninão. Um dia vou crescer, visitar o Maranhão. Naldinho. 9/6/71”. Passaram-se mais de três décadas até ele desembarcar no aeroporto de São Luís, onde a avó o esperava. Viveram uma relação de afeto pungente até a morte dela.

Nunca conseguimos encontrar a carta, e o gesto do pai jamais será completado. É enorme a tragédia de uma carta que não encontra seu destinatário. Essa letra perdida será sempre um buraco que Grenaldo terá de sustentar, mas um buraco que ele vai preenchendo com a construção da memória. Hoje ele tem um pai – e tem um país. E é com os pedaços faltantes de ambos que precisa lidar. Grenaldo se prepara agora para contar para sua filha mais velha a história do avô. E às vezes, quando um dos dois filhos diz que não consegue fazer alguma coisa, ele diz: “Não fale que você não consegue, essa palavra não pode existir. Você é neto do Grenaldo!”.

Não sei quem são os brasileiros que gritam nas ruas pedindo a volta da ditadura. Desconheço as pessoas que clamam por intervenção militar como se isso não fosse uma vergonha, uma indignidade, e sim a prerrogativa de “cidadãos de bem”. Acho que nunca tive tanto medo desse deformado discurso “do bem” quanto hoje, essa época em que todo o pudor foi perdido e a ignorância da História é ostentada como um troféu. Sei que são pessoas, porque só humanos são capazes de algo tão brutal.

Dizem que eram “apenas” 400 no primeiro sábado de dezembro, em São Paulo. Alegam que 400 pedindo intervenção militar é pouco. Eu digo que um é muito. Respeito o direito que têm de se expressar, porque ao fazê-lo reforçam a expressão máxima da democracia, na grandeza de acolher a voz até mesmo de quem exige o seu fim. Mas me reservo o direito de, por um momento, escolher a ingenuidade. Prefiro acreditar que vocês não sabem do que falam nem o que pedem. Não podem saber. Se soubessem, não ousariam.



Na próxima quarta-feira (10), a Comissão Nacional da Verdade deve apresentar o relatório de seus trabalhos. Espera-se que nomes de torturadores e assassinos sejam enfim publicados, que seus crimes sejam fartamente descritos, a fim de que, ao menos, ganhem força processos para terminar com a impunidade aos que cometeram crimes contra a humanidade durante a ditadura militar.

Mas, como por ironia da história, neste exato momento, o Brasil conhece manifestações periódicas de pessoas que saem às ruas pedindo por um golpe militar. Não uma mobilização pelo dever de memória, mas um clamor para a repetição da destruição do país.

Mas o que dizer destas pessoas? Estariam elas a exercer seu direito de liberdade de expressão expondo seu descontentamento com a situação política atual ou estariam a cometer o mais vil e torpe de todos os crimes, o mais imperdoável, a saber, este que clama pela destruição do mínimo de liberdade que dispomos atualmente?

Notem, quem sai à rua e levanta um cartaz pedindo "intervenção militar" não está fazendo a mesma coisa que alguém a gritar "Fora Dilma" ou "Fora FHC". "Fora X, Y ou Z" é algo que se ouve em todas as partes do mundo onde há descontentamento. Significa normalmente um pedido de impeachment, de renúncia ou a afirmação da deslegitimação do poder.

Já quem clama por um golpe militar pede, necessariamente, a implementação de um regime de exceção, com assassinatos sistemáticos de Estado contra oponentes, comandado por uma casta militar que fará o que o Brasil nomeará na quarta: a destruição física e simbólica de quem não está acostumado com o silêncio.

Quem quer a causa quer as consequências. Por isto, pedir por uma "intervenção militar" não é uma "opinião" política, mas pura e simplesmente o crime por excelência.

Claro que haverá aqueles a dizer que eu deveria então criticar os que saem às ruas e pedem, por exemplo, por "revolução" (onde? Faz tempo que não vejo ninguém fazer isso). No entanto, uma revolução é uma sublevação popular que dá voz ao poder instituinte. Nada a ver com um golpe que, por sua vez, é a forma máxima do fim da política.

Por isso, quem levanta um cartaz a favor de um golpe militar não pode estar na rua, mas deveria estar ou respondendo a processos por incitação à forma máxima de violência ou diretamente na cadeia.

Uma sociedade que não pune quem pratica tal violência, mas convive com os que a elogiam como se fosse algo meio pitoresco, cava sua própria cova.

sábado, 6 de dezembro de 2014

Lobão no bonde do EU sozinho

Lobão ficará sozinho no barco...

Lobão " Cadê o Aécio Neves? Cadê o Caiado? Só eu estou aqui…"

Lobão, embora eu não concorde com quase nada do que você vem falando, sempre lhe respeitei por entender que você é sincero nas suas empreitadas. Você se entrega de cabeça e vai e mobiliza e participa.

Eu Não concordo com esse movimento atual. Sou a favor de que sejam investigados todos os responsáveis e que sejam punidos, seja o partido que for…

Mas se liga… estão te deixando sozinho nessa. Já tem um monte de maluco pedindo intervenção militar e o negócio tá ficando estranho.

A democracia é isso, entender que a Rua é o lugar do povo. Concordando ou não com a causa.
Eu sou totalmente a favor das investigações e das punições aos responsáveis desses e de todos os escândalos de corrupção no Brasil… inclusive o dos Trens de SP que pouco se divulga na mídia. Mas sou totalmente contra qualquer movimento de derrubada da presidenta, até que se prove que ela participou do esquema.

Pedir lmpeachment nesse momento é Golpismo. Tanto o PT quanto PSDB, quantos os demais partidos estão envolvido até os ossos com essas empreiteiras. Seja na esfera federal, estadual ou municipal.
Lobão, segue sua luta, mas aí… vão te largar falando sozinho…

Esses caras são bons de falar na internet, na hora de ir para as Ruas ninguém aparece…

Aécio não apareceu nem para votar contra a LDO.

O Lobão é um rapaz, no mínimo interessante. Digo isso porque acompanhei de verdade a sua história e o tive como ídolo, enquanto atualmente já não recebo muito bem o material que cara faz, dos textos às músicas, não sei quais estão entre os mais absurdos. Mas não se preocupe se você gosta do rapaz, não estou a fim de começar a escrever mais um daqueles textos cheios de raiva contra o cara, mas sim uma crítica ao atual trabalho.

Quero dizer, reconheço suas boas peripécias na história. Sim, já fui um fã do seu trabalho – principalmente na minha juventude de dezesseis anos, sabe como é, a gente adora adotar pessoas exacerbadas, polêmicas e explosivas como ídolos quando se é jovem –. Aplaudi em pé a sua luta, que hoje em dia já não sei se afirmo como legítima, contra as gravadoras, a batalha dele ao lado de outros artistas pela numeração de CDs e DVDs; sua performance no show Uma Odisseia no Universo Paralelo é louvável, energética e para poucos; respeito por demais a sua atitude ao sair fora do circulo mainstream, pegar um violão e sair por aí fazendo shows autossuficientemente; reconheço o seu potencial como musicista, ótimo compositor, bom letrista, multi-instrumentista...

Mas tudo isso que eu disse desmorona quando enxergo o velho lobo juntando-se com a velhacaria conservadora mais conservadora do Brasil, quando o enxergo de mãos dadas com os grandes conglomerados da imprensa brasileira, enfim, quando começa a se posicionar com opiniões direitistas, reacionárias e dignas de agradar qualquer Mussolini da vida.

Quando Lobão publicou a biografia, comprei. Ele escreve bem, e documenta com uma veracidade para poucos, inclusive as ações da justiça contra ele. Até na biografia pude entender um pouco como se tornou o que se tornou, como a ajuda do Marinho nos seus problemas judiciais de jovem rebelde, entre outras coisitas más. Depois teve o execrável Manifesto do Nada na Terra do Nunca, um bagulho pretensioso a ser obra intelectual, aí a coisa começou a ficar feia.

Daí em diante não o consigo enxergar de outra maneira senão na forma de um velhote conservador com ideias das mais retrógradas e incabíveis possíveis. Tá lá ao lado de Olavo de Carvalho e a turma. Mas o pior de tudo é que nós sabemos o que acontece com quem começa a defender essas ideias com afico: as portas da mídia se abrem com gosto! E bem, ele tá se dando bem agora, não há dúvidas. Ele agora é colunista da Veja... tudo bem, é a Veja, mas mesmo assim é uma revista de grande circulação.

Sua última “grande composição” parece ser feita aos incautos, mas tem muita gente curtindo ela e essa muita gente, ao meu ver, parece bem informada. Pois essa canção já começa com a imposição da famigerada falácia de apelo à autoridade: “Por todos esses anos/Por tudo que eu passei/Por tudo o que eu faço/E ainda o que eu farei [...]”. E aí termina de uma maneira infantil: “Acabou sua pilantragem, sabe por quê?/Porque eu não vou deixar”.

Escutei toda a música (boa de se ouvir como a maioria das composições do Lobão), parei um pouco para tentar entender, perguntei: “como assim não vai deixar?”, aí dei uma risada. Dize-se que a música é para Pablo Capilé sobre rumores de não ter pago cachê e toda uma historia que, diga-se de passagem, pode ser conferida em matérias da revista* onde João Luiz Woerdenbag Filho escreve sua coluna da moral e dos bons costumes da rebeldia contestadora do conservacionismo(?).

Contudo, quero deixar uma ressalva. Não vou dizer que o cara está errado. Se é para contestar que conteste mesmo. Se é verdade que o rock é um estilo contestador, que assim se faça e pare de frescura, porque esse estilo anda uma bosta sem tamanho com uma covardia, porém, não é porque é uma contestação que é um bagulho legal. Pois é, essa contestação do Lobão, e mais uma galera coxinha do rock mainstream atual no Brasil, é contestável, é execrável.

É uma pena que o povo esteja acostumado com a vida no Brasil, e não faça nada que mude de VERDADE o rumo das coisas. É muito difícil de se explicar e se entender tudo que acontece por que infelizmente na minha opinião a desonestidade está em toda parte. Não somente nos escândalos de empreiteiras, e nem somente nos escândalos da Petrobras.

Um bom e pequeno exemplo é o preço do panetone no Brasil. Nos Estados Unidos consegue se vender mais barato, e aqui no Japão onde eu moro também!! Sendo que o preço aqui por uma panetone de quase 1kg, consegue ser menor do que o de 700 e poucas gramas no Brasil. A culpa isso é de quem? Da Bauduccco ou das taxas e impostos cobradas pelo governo brasileiro?

Pode parecer fora de contexto o que eu disse, mas esses abusos nos preços estão por toda parte, ao meu ver, para cobrir rombos de outras roubalheiras cometidas e sustentar planos de governo que jamais seriam adequados. É mesmo assim, o povo vai lá e compra tudo, não ousa boicotar essa covardia, simplesmente por estar acostumado com isso há tempos.


terça-feira, 2 de dezembro de 2014

COCA COLA LANÇA SEU MAIS NOVO PRODUTO: LEITE

Fome no mundo? Falta de água? Já era.

A Coca Cola acaba de descobrir uma bebida excepcional, algo fruto de décadas de pesquisa e que irá revolucionar o planeta tal como o conhecemos.

Não é a primeira vez que a empresa de Atlanta pasma o mundo com avanços que parecem saídos dum livro de ficção científica. Há alguns anos atrás a Coca Cola tinha inventado outra bebida revolucionária: a água, vendida com o nome comercial de Dasani.

Teria sido um sucesso não tivesse sido pela obtusidade dos clientes que não entenderam as vantagens de comprar a mesma água que saía das torneiras. Porque Dasani era sim água de torneira, não de fonte natural, mas era da Coca Cola, que enriquecia o líquido com preciosos sais minerais e, como mais valia, um pouco de bromato, potencialmente cancerígeno (mas só potencialmente!).

Dasani desapareceu mas a Coca Cola não desistiu da tentativa de criar um mundo melhor.
E chegamos aos dias de hoje, com a nova descoberta.

O nome da bebida? Leite.

Ok, em teoria já existe o leite mas tentamos ser sérios: é possível beber algo que sai duma vaca? Onde fica a higiene? O leite da Coca Cola é diferente.

Para já o nome não é "leite" que, admitimos, é um bocado banal: é Fairlife, que podemos traduzir com "Vida justa". E nós precisamos duma vida justa.

Depois o custo: cada embalagem será vendida ao dobro do preço do leite normal. E sabemos que, como reza o ditado, "o barato sai caro", pelo que vale a pena investir.

Mas o que diferencia Fairlife do leite comum é a composição. Cada embalagem tem 50% mais de proteínas, 30% menos de açúcar quando comparada ao leite normal e nem tem lactose. O que é fantásticos. Não é claro por qual razão uma pessoa saudável deveria precisar dum leite com mais proteínas, menos açúcar e sem lactose, mas isso importa até um certo ponto.

O que conta é quanto escrito nas páginas internet de Fairlife: o leite é filtrado e dividido em 5 componentes (água, gorduras, proteínas e minerais, lactose), depois a Coca Cola recombina tudo e enfia o "novo leite" na garrafa. Exactamente o que faz Mãe Natureza, só um pouco mais técnico. É por esta razão que a versão Fairlife 2% tem isso mesmo: 2% de puro leite. Mais natural é impossível.

Doutro lado a saúde dos consumidores sempre foi o centro das atenções nesta nova aventura da Coca Cola. Como afirma o vice-presidente Sandy Douglas:

Se fizermos as coisas direitas o dinheiro virá em baldes.

E esta é uma garantia.

Esperemos que a coisa funcione porque a Coca Cola precisa de dinheiro.

A maior empresa de bebidas do mundo está em crise: só em 2013, as suas vendas caíram 2% em relação ao ano anterior. Um declínio que já dura há nove anos e 2014 não está melhor olhando para os resultados parciais. A empresa encerrou o terceiro trimestre com um lucro líquido que caiu 14%, passando de 2,11 biliões de Dólares para 11,98 biliões. Uma autêntica miséria.

É uma tendência que vem de longe e abrange todo o campo dos refrigerantes, que está a passar por um período difícil: o problema são mais uma vez os clientes que, apesar de engolir quantidades industriais de latas, continuam a engordar. Então os nutricionistas proíbem os refrigerantes. Dá para acreditar?

Única nota negativa: o produto será lançado no mercado em Dezembro mas apenas nos Estados Unidos. Nós teremos que esperar mais um pouco. Entretanto, podemos aproveitar para começar a abandonar o nojento leite de vaca com um processo de desintoxicação e preparar almas e corpos para o novo leite.