domingo, 31 de agosto de 2014

Uma candidata em metamorfose: evolução ou incoerência de Marina?

Adversários apontam falta de lógica nas transformações. Aliados a defendem.

Candidata que tenta ganhar a confiança do mercado financeiro, Marina Silva começou sua trajetória como militante de ala dissidente do partido comunista, nos anos 1980. Hoje, a ex-senadora se reúne com banqueiros e ruralistas para discutir seus projetos para o país. As “metamorfoses” de Marina em diversos setores são encaradas por pessoas que a conheceram nos tempos de liderança seringueira no Acre como uma evolução natural de alguém aberto a novas experiências. Adversários, no entanto, falam em incoerência.



Para o cientista político da UNB José Luciano Dias, é natural os políticos mudarem de posição. Segundo ele, Marina faz agora exatamente o que Lula fez, em 2002, ao se apresentar de forma menos radical.

— É natural que, a medida que você evolua para uma posição de maior relevância, passe a transigir mais e abandone posições mais radicais. Posições radicais servem para colocar o tema na agenda. A política, por definição, é oportunista. O objetivo é chegar ao poder. Se você fica restrito ao radicalismo, fica restrito a ocupar aquele espaço restrito sempre — afirma.

A primeira mudança na trajetória de Marina foi pelas mãos do então bispo de Rio Branco, dom Moacyr Grecchi, quando ela passou de aspirante a freira a ativista nas Comunidades Eclesiais de Base. Em seguida, veio o encontro com o ambientalista Chico Mendes, seu mentor político, que a levou para o papel de líder sindical rural e para o combate ao lado dos seringueiros.

Analfabeta até os 16 anos, Marina ingressou na faculdade de História , onde flertou com a corrente “Caminhando”, uma tendência do PCdoB. Filiou-se ao PT em 1985 para concorrer com o objetivo de ajudar a eleger Chico Mendes.

Hoje, Marina tem ao seu lado figuras que sempre foram vistas como adversários da esquerda, como a herdeira do Itaú, Neca Setúbal, e o ex-deputado tucano Walter Feldman.

De sua saída do PT, em 2008, até a filiação ao PSB, no ano passado, Marina teve intervalos “apartidários” e uma passagem pelo PV, pelo qual se candidatou à Presidência em 2010.

MUDANÇA DE OPINIÃO SOBRE TRANSGÊNICOS E SÃO FRANCISCO

Na questão dos transgênicos, Marina era radicalmente contra como senadora. Como ministra, passou a defender que o plantio comercial só fosse autorizado mediante licenciamento ambiental. Ao longo de sua gestão, o governo deu autorizações por medida provisória, e Marina aderiu à tese de que era melhor a coexistência de safras com e sem transgênicos.



Inicialmente desfavorável ao projeto de transposição do Rio São Francisco, ela se deixou convencer pelo então presidente da Agência Nacional de Águas, Jerson Kelman.

Sua relação com Eduardo Campos também foi marcada por altos e baixos. Eles divergiram sobre a Lei de Biossegurança, que liberou os transgênicos, e pesquisas com células tronco. Mas em relação à política de mudanças climáticas, foram aliados. A aproximação entre os dois se intensificou com a ajuda que o pernambucano deu para a criação da Rede.

Binho Marques, ex-governador do Acre, amigo de Marina desde a universidade, diz que ela sempre teve posições mais moderadas:

— Ela nunca foi intransigente, é uma pessoa que escuta, como o Chico Mendes, que convivia bem com as diferenças. Se relacionava com ambientalistas europeus, comunistas e com o Banco Mundial.

Marina chegou a acenar para o agronegócio, mas, para um dos principais líderes da bancada ruralista no Congresso, o deputado Ronaldo Caiado (DEM-GO), terá de ser mais clara sobre suas posições quanto ao setor. Ele disse que a candidata apoiou Ações Diretas de Inconstitucionalidade contra o novo Código Florestal e quer saber se ela manterá essa posição se for eleita:

— Temos que saber qual é realmente o pensamento dela. Vai aceitar o Código Florestal aprovado? Vai tirar conquistas do setor? Ela tem que ser bem clara, está faltando objetividade. Dizer que vai manter o que está em lei é muito genérico.

Desculpe, Morena Marina, mas eu estou de mal. De mal com você.

Devidamente tendo o apoio de Deus que derrubou o avião de Eduardo Campos e lançou a sua candidatura, como a mesma já disse com outras palavras, Marina lança seu programa econômico. Vamos a ele porque isso não é brincadeira e afeta a todos nós:

A) Marina pretende dar autonomia ao Banco Central e, certamente, não é por acaso que os banqueiros estão apoiando sua campanha. O que o Banco Central faz? Há de se entender para entrar na discussão. Não é complicado: Ele é responsável pelo sistema financeiro de um país.Emite a moeda e fixa a taxa de juros básica, que serve de parâmetro para todas as demais taxas de juro do mercado, como a do seu cartão de crédito. Atua no mercado de câmbio, sendo o principal responsável, em última instância, pela cotação do dólar e do euro, por exemplo. O BC ainda coordena os depósitos compulsórios, mecanismo que garante que o dinheiro de todas as contas e investimentos do País "exista de verdade". Em alguns casos, o Banco Central também empresta dinheiro a bancos em dificuldades, buscando evitar que o país entre em crise. Muito bem. Isso posto, Marina, dentre os candidatos, é que tem a posição mais firme no sentido de deixar o mercado se autorregular. Tudo bem que a posição da candidata difere da que ela defendeu no pleito de 2010, quando disputou o Planalto pelo PV. Isso não vem ao caso já que o plano de governo dela, como já estão dizendo, é escrito á lápis para facilitar as mudanças. Continuemos. A independência do BC impede que o Executivo interfira nas decisões do BC. Seria uma forma de manter a entidade mais preservada de pressões políticas. Porém, quem tem de definir a política econômica do País, que tem forte impacto no dia a dia da população, não deveria ser um governo eleito? Deixar isso nas mãos de técnicos financeiros cheira bem a alguém aí? Fala sério!

Se observarmos bem, veremos que os banqueiros, que antes elogiavam o governo, passaram a hostilizá-lo e a promover campanha com o objetivo de desqualificar a atual presidente e seu governo quanto à capacidade de manter a inflação e o gasto público sob controle. Por que será? Será que tem algo a ver com o fato de nos governos do PT o dinheiro de origem trabalhista (FAT, FGTS e alguns Fundos de Pensão de estatais), com baixa intermediação do sistema financeiro privado, ter sido utilizado para fornecer crédito barato, gerar emprego e renda? Perguntando de outra forma, será que tem a ver com o fato de em lugar de ir para a especulação, com ganhos astronômicos dos rentistas, esse dinheiro ter sido usado para um investimento produtivo? Ou será que tem a ver com a criação do Banco do Brics (Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul), que poderá ser utilizado, com custo mais baixo, por seus sócios, o que, como todos acompanhamos nos jornais, não agradou aos banqueiros brasileiros? Será???

B) Redução das prioridades de investimento da Petrobrás no pré-sal. Ora, a Petrobras é a empresa com maior conhecimento na exploração de óleo em águas profundas. Diminuir os investimentos não seria uma boa estratégia, pois o país perderia essa liderança tecnológica. Além disso, como disse Nivaldi de Castro, coordenador do Grupo de Estudos do Setor Elétrico da UFRJ, isso seria uma decisão estratégica que alteraria substancialmente a capacidade de investimentos do país em duas áreas fundamentais para o Brasil entrar numa rota de desenvolvimento social, a Educação e a Saúde já que, acrescento eu, 75% dos royalties e 50% do fundo social pré-sal estão sendo destinados à Educação. Como bem colocou Renato Rovai,o governo atual estimou que em dez anos o Brasil extrairá US$ 112,5 bilhões em recursos para a área de saúde e educação com o pré-sal. E que em pouco tempo o país se tornará um exportador de petróleo. Isso significará não apenas a nossa auto-suficiência energética, mas que o Brasil também se tornará um país mais importante do ponto de vista geopolítico.É um jogo absolutamente obscuro que está por trás dessa decisão. Tem sido em nome de "uma causa em tese ecológica", o discurso de entregar nossas reservas a abrir mão de um determinado futuro.

C) Outra diretriz do programa — a proposta de tirar o foco do Mercosul por meio da busca de acordos bilaterais fora do bloco econômico regional — foi bem recebida por dirigentes do setor de comércio exterior. Opa! Por que? Em vez do fortalecimento do Mercosul, o programa da candidata, que " quer fazer a nova política," prega o fortalecimento das relações bilaterais com os Estados Unidos e União Européia. Eu não entendo bulhufas de economia, mas baixar o perfil do Mercosul e estabelecer acordos bilaterais aponta para uma reinserção distinta do Brasil no marco internacional. Entendo também que mexer dessa forma com o Mercosul é limitar as atuais opções preferenciais do governo atual, como alternativa aos Tratados de Livre Comércio com os EUA. Dito de outra forma, podemos retroceder e assistir a um aumento da desnacionalização da economia latino-americana. No mais, veja que confuso: ao contrapor acordos bilaterais ao Mercosul, a posição é contraditória, porque os acordos do Mercosul impedem esses acordos. Como se pode imaginar que a visão é dirigir acordos com os EUA, a contradição é maior ainda e eu fico sem entender como isso pode ser pensado.

Vou parar por aqui porque fiquei cansada e para não cansar quem me lê também. Mas vale dizer que ainda faltou falar sobre dois pontos importantes: 

(1) sobre as políticas fiscais e monetárias que serão instrumentos de controle de inflação de curto prazo que tem tudo, ao meu ver, para aumentar as taxas de desemprego; e; 

(2) sobre essa tal de diminuição de normas para o setor produtivo que nada tem a ver com diminuição de carga tributária e burocracia para as empresas e sim de reduzir encargos trabalhistas com a supressão de direitos que facilitem as demissões.

Fica para a próxima.

sábado, 30 de agosto de 2014

Jogos políticos, campanhas e corrupções

Acho, no mínimo, muito ingênua a atitude das pessoas que fazem a associação entre corrupção e o PT. E ainda, acreditam que com a retirada do PT do governo o Brasil ficará livre desse mal. Ledo engano, penso eu. As pessoas querem a solução sem sequer conhecer a causa do problema. Crer em um novo governo que limpará nosso país dessa grande desvirtuação é o mesmo que acreditar que acabando com os aviõezinhos do narcotráfico solucionaremos a violência que ele gera.

O buraco é mais embaixo: está no financiamento privado de campanhas eleitorais. Este sim é o genuíno berço da corrupção no Brasil. Para quem não entende como as campanhas funcionam, vou tentar explicar com poucas palavras. Uma grande empresa financia a campanha eleitoral de algum candidato. O vencedor, por ter sido financiado (e desejando novo financiamento dali a quatro anos, é claro), favorece os interesses da empresa. Esta, por sua vez, renova suas “doações” nas eleições seguintes. Em outras palavras, quem recebeu dinheiro para fazer campanha, devolverá o valor recebido com juros e correção monetária. E assim caminha a nossa democracia. Vai daí que dá para entender muito bem o por que de os principais financiadores de campanha eleitoral no país serem as empreiteiras, que também são o setor mais acionado para obras públicas.

Como se livrar de toda essa estrutura então? Só há uma maneira, pelo pouco que entendo desse assunto: Reforma Política. Reclamar do PT e colocar Aécio ou Marina não resolve a raiz de nosso problema, ok? Pode ter muita serventia em outras áreas, concordo. Quiçá melhorar em outros campos que não seja o de continuar diminuindo a desigualdade social. Mas para esse problemaço específico, vai sonhando, querido, que Aécio e Marina resolverão a maior imperfeição de nosso sistema político.

Temos que nos unir em relação a isso. A solução só pode vir do povo, pois, não se pode esperar que o Congresso Nacional, verdadeiro balcão de negócios de interesses privados, faça ele próprio uma Reforma Política que liquide com seus privilégios, concordam?

Enfim, se quiser votar em Aécio ou Marina, ok, é um direito seu. Mas sem ingenuidade, combinado?

Bom, vai que isso rola. Como financiar os gastos de uma campanha eleitoral se os empresários forem proibidos de contribuir? Boa pergunta. Não sei. Mas vislumbro um caminho. Da mesma forma como sou contra usar dinheiro público para financiar igrejas, também sou contra usar dinheiro público para financiar partidos políticos. No entanto, entendo que as campanhas eleitorais são uma instituição pública, através da qual a população escolhe quem governará o país. Nessa esteira, o mais adequado seria que para as campanhas eleitorais tivessem financiamento público. Melhor seria se esse fosse associado ao financiamento privado de pessoas físicas, devidamente limitados para não retornarmos ao ponto que estamos. Uma opção.
A raiz do problema esta na falta de punição. E somente isto.. o resto se ajusta sozinho.

Estou lendo um livro de Fernando Pessoa (o poeta) chamado "A Sociologia do Comercio" de 1926 onde concordo, e sempre concordei, com estas ideias. Ele descreveu muito bem a Lei Seca (estamos em 1926) nos EUA e o malefício do controle estatal em todos os assuntos.

Vai mudar o sistema de financiamento... ok... vai se arrumar novas formas de se driblar, pois ha FALTA DE PUNIÇÃO, há falta de consequência para os atos errados.

Porque as pessoas ao saltarem de paraquedas tomam uma série de cuidados? porque se não seguir as prevenções e o paraquedas não abrir, ela morre.

Porque pessoas não usam Crack, Cocaina e outras drogas? porque a consequencia é a destruição dos neurônios.

Porque uma aluno "cola" na prova em uma escola pública e não "cola" ( ou quando faz, faz com medo) em uma escola tipo São Bento ou no vestibular?

Para finalizar com um último exemplo, lembro de uma frase de Juca Chaves: "Quando a mulher quer trair, mesmo trancada dentro do armário, trai com o cabide"....

ps. Quanto ao PT... a corrupção neste governo foi MAIOR que em todos os outros.... a propósito... onde anda os 30 milhoes de reais dados em 2010 a UNE para a construção da sede no flamengo.... ainda não vi nada lá.

Porque o Lula-PT PROIBIU o TCU de auditar as contas dos sindicatos, que recebem dinheiro público?

Novamente... uma prostituta na igreja tem um significado diferente de uma freira em um prostíbulo.



A corrupção veio à tona, saiu de debaixo do tapete no governo do PT, porque foi o governo do PT que criou os mecanismos investigatórios para tirá-la de lá. É só por isso que você pensa que ela foi maior do que em outros governos. Na época de FHC havia um engavetador geral. Nos governos PT as coisas são investigadas. Tanto que políticos do PT estão pagando um preço bem alto por terem, simplesmente, cometido os mesmos delitos que sempre foram cometidos, justamente por culpa de nosso sistema, que precisa, sim, de reforma urgente. Se a reforma política não representa a solução de tudo - até porque isso é utopia - ela é a única maneira de começarmos uma renovação efetiva.

Reforma política e regulação da mídia, porque é essa absurda hegemonia midiática que faz com que todos vivam como na caverna de Platão, com um foco de luz clareando e ampliando apenas o que eles querem que enxerguemos. A privataria tucana e o trensalão tucano foram infinitamente maiores do que o mensalão petista. E o mensalão tucano, está prescrevendo e seus corruptos estão todos se safando, enquanto Dirceu e Genoíno, que ajudaram o PT a tirar mais de 30 milhões de brasileiros da extrema pobreza, que ajudaram a classe média melhorar seu padrão de vida, que inseriram os pobres nas universidades, que elevaram o Brasil à sétima economia do mundo, que ajudaram o Brasil a deixar de ser um devedor do FMI para emprestar dinheiro ao FMI e ainda fundar o BRICS, escapando da hegemonia americana, e promovendo infinitas outras melhorias estão presos. Procure os números REAIS da corrupção tucana e compare-os ais números do que dizem ser corrupção do PT antes de sair por aí afirmando uma inverdade como essa que afirmou, que no governo do PT a corrupção foi maior do que nos outros. Quem não é politizado acredita, e fica imaginando que se votar na Candidata Frankeinstein - uma ambientalista evangélica anti casamento gay e anti aborto que tem um vice ligado ao agronegócio e a transgênicos e a favor do casamento gay e do aborto - um verdadeiro samba do crioulo doido, enfim - e que tem parceria com uma Neca Setúbal do Itaú, que deve uma fortuna em impostos ao Governo Federal e que cobra juros extorsivos de seus clientes vá resolver is problemas do Brasil. 

Antes de ficarmos discutindo sobre as mentiras que essa nossa mídia inescrupulosa inventa, vamos olhar para o Brasil real e analisar: o que piorou nas nossas vidas depois do PT? Creio que quem fizer essa análise honestamente e for a números reais não conseguirá sustentar a própria crítica. A menos que tenha menos de doze anos de idade.

sexta-feira, 29 de agosto de 2014

As regras do jogo na política

A morte de Eduardo Campos inaugurou uma nova realidade na campanha eleitoral. Mas é uma ilusão pensar que tudo mudou.
Há elementos que permanecem, como, por exemplo, a força eleitoral do governo federal, baseada na sensação de que os tempos de prosperidade e crescimento econômico não acabaram. Para muitas pessoas, a crise ainda não é um fato. Na verdade, ela é um conjunto de índices e perspectivas sombrias que somente os mais atentos conseguem captar.
Dilma Rousseff, por exemplo, deixou de negar a crise e espantar os urubus que rondam o seu discurso triunfal. Agora admite sua existência e ressalta: “Mantivemos empregos e salários”. Ela se dirige precisamente àqueles que ainda não sentiram a crise. Seu ministro do Trabalho disse que, em termos de emprego, o Brasil tinha chegado ao fundo poço. Depois desmentiu: o buraco não seria tão fundo como a sua frase dera a entender.
Isso se parece com aquela piada do Millôr, a de um homem caindo de um décimo andar que, ao passar pelo oitavo, diz: “Até aqui, tudo bem”.
O cara da Petrobras, Paulo Roberto Costa, parece ter decidido pela delação premiada. Ele é o cara porque articulava tudo, tinha milhões de dólares na Suíça. Antes ele havia dito, na cadeia, que não poderia abrir a boca porque, caso falasse o que sabe, não haveria eleições no País. É uma força de expressão. As eleições brasileiras podem renascer, como após o desastre que matou Eduardo Campos. Não importa o que Paulo Roberto diga, elas vão ser realizadas no dia 5 de outubro.
A morte de Campos e a entrada de Marina Silva na disputa pela Presidência reafirmaram a tendência de segundo turno. Mas ela não é novidade. O PT, com Lula ou Dilma, sempre ganhou no segundo turno.
A novidade é que a oposição pode triunfar. Para isso é preciso que demonstre, com clareza, que a sua proposta é a que melhor protege salários e empregos. Ela precisa encontrar uma unidade entre sua proposta econômica e a disposição de combater o fisiologismo e reduzir a corrupção no Brasil a níveis administráveis.
Não acredito em longos programas de governo, embora esteja sempre disposto a discuti-los e a sintetizá-los, como fiz com o seminário de três dias realizado pelo PPS em Brasília. O ideal seria fixar em alguns pontos comuns. Isso é possível. Basta analisar o discurso dos candidatos de oposição para perceber que convergem em várias questões essenciais.
Eduardo Campos e Aécio Neves tinham uma relação cordial, trocavam ideias constantemente. Isso não impediu que procurassem singularizar-se na campanha eleitoral, marcando suas diferenças.
Essa troca de ideias é fundamental. É uma ilusão supor que se governa um país tão complexo como o Brasil sem criar uma base de sustentação técnica e política.
A maioria das pessoas quer mudança. Mas ainda não está muito claro que mudanças querem. Suponho, pela constância das denúncias, que se queira estancar a corrupção. E, naturalmente, a julgar pelas manifestações de junho de 2013, melhores serviços públicos.
Tão amplo desejo de mudança exige clareza de ideias, mas, sobretudo, humildade. Segundo as pesquisas, metade dos eleitores de Dilma também quer mudança. Isso significa que, potencialmente, eles podem abandonar a candidatura dela se as propostas de mudanças forem diretas. E se o bloco que disputar com o PT, no segundo turno, der claras indicações de que a governabilidade não estará ameaçada.
Todos esses palpites são de um simples eleitor. Não estou dentro das eleições, não conheço seus bastidores, não me informei sobre afetos e rancores que as movem neste instante.
Muitos analistas reclamam que o quadro está confuso. Lamentam que as decisões possam ser tomadas num clima emocional. Ao longo destes anos vimos o processo político degradar-se, o abismo se abrindo entre instituições e eleitores. Mesmo as eleições de 2010, marcadas por fortes votações em candidatos folclóricos, como Tiririca, já eram inquietantes. Depois disso vieram as manifestações de 2013, mostrando mais claramente como o povo estava insatisfeito com o governo, com a oposição e com todo o sistema político.
Observo apenas a contradição de alguns setores que não se importaram em degradar a política e afastá-la do povo, na crença de que a máquina de governo e a propaganda tudo resolvem. Agora clamam por racionalidade, frieza e um roteiro seguro para dirigir o País.
Não creio que Marina vá subir nos fios e fazer milagres, como aquela santa no filme de Pasolini. Mas terá a oportunidade de apresentar suas ideias, responder às questões mais delicadas, enfim, oferecer também uma base racional para ser aceita ou rejeitada.
Tanto para ela como para Aécio, creio, um dos temas centrais é como se relacionar nesse conjunto de candidatos que propõem mudança, querem construir algo diferente do que fizeram o PT e seus aliados nestes 12 anos. A proposta de uma nova política não é esotérica se analisamos o discurso dos candidatos de oposição. Eles condenam o fisiologismo, o toma-lá-dá-cá, o balcão de negócios em que se transformaram governo e Congresso Nacional.
Não se navega nessas águas turvas sem apoio dos políticos. Não é possível discriminá-los, afastando-os do governo. O que é desejável é que se escolham apenas os honestos e que tenham competência específica para o cargo que vão ocupar.
Diante do segundo turno, emerge a possibilidade real de conduzir o País por um caminho mais sólido na crise econômica, menos corrompido na política, mais próximo dos grandes centros tecnológicos nas relações exteriores, mais sério na gestão dos serviços públicos.
Há quem queira disputá-lo sozinho na oposição. Há quem prefira Dilma por achar o PT previsível. Mas assim mesmo teremos um ano de 2015 cheio de surpresas.
Façam o seu jogo.

sábado, 23 de agosto de 2014

Marina Silva, a segunda via!

Consagrada Marina Silva como substituta de Eduardo Campos, é hora de dizer algumas verdades e levantar alguns questionamentos.

Marina Silva vem sendo apontada como aquela que poderia capturar a insatisfação com a velha política, manifestada por milhões que saíram às ruas em junho de 2013. É preciso, entretanto, ir além da simbologia criada em torno de Marina para avaliar o que ela realmente representa. Avaliar cuidadosamente os elementos programáticos, seus aliados, seu modelo de gestão e seu projeto de país. Assim podemos tecer um primeiro diagnóstico da essência da candidatura de Marina.
Apesar do discurso em torno de uma “nova política”, a própria candidata nos fornece elementos para demonstrar que ela não representa nada de novo.
A reviravolta no tabuleiro eleitoral provocou reações extremadas nas redes sociais. A evidência de que Marina Silva substituiria Eduardo Campos e levaria a eleição para o segundo o turno causou pânico entre governistas. A ex-ministra de Lula passou a ser alvo de uma bateria de ataques violentos que não se detém em nenhuma consideração ética. Malhar Marina é o esporte "progressista" da hora.

A ideia é desmoralizá-la a todo custo, pintando-a como uma fanática religiosa, cínica e oportunista, que traiu o povo e pode levar o país às trevas. O bombardeio retórico tem sido tão cerrado e mesquinho que até críticos da ambientalista saíram em sua defesa –incomodados com o ímpeto dos linchadores.

A espiral de radicalização política nas redes sociais não é novidade, tampouco a falta de escrúpulos de seus agentes, que, à esquerda e à direita, se batem em torneios de intolerância e estupidez. No caso, as duas pontas chegaram a se tocar, já que o blogueiro e colunista Reinaldo Azevedo, notório inimigo do petismo, foi usado (pasme!) por alguns serviçais governistas para engrossar a blitz contra Marina –ele que há tempos manifesta seu horror à ex-ministra de Lula.

Num péssimo sinal, a sinfonia de insultos reverberou em blog oficial da candidata Dilma Rousseff, numa tentativa de vender a ideia torpe e pueril de que Marina comemorava o desaparecimento de Campos ao sorrir durante o velório –em contraste com o choro sincero de Lula.

Não é difícil levantar questionamentos e objeções sensatas à nova estrela eleitoral, tampouco a seus concorrentes. Aliás, em matéria de desrespeito ao princípio da laicidade do Estado, Dilma já deu seu show ao declarar, em visita à Assembleia de Deus, que "feliz é a nação cujo Deus é o Senhor" –uma afronta à consciência republicana e à diversidade religiosa, que não poderia ter partido de alguém em sua posição.

Esperemos que a campanha eleitoral no rádio e na TV possa nos oferecer alguma coisa menos repulsiva.

Seria bom para todos se a essa nova configuração, em que três candidatos aparecem com chances reais de vencer, favorecesse um debate esclarecedor sobre as divergências e eventuais afinidades dos concorrentes.

O que tem Marina a apresentar além da agenda ambiental e de alusões etéreas a uma "nova política"? Com que alianças governaria? Até onde vão os compromissos sociais de Aécio e suas propostas para reformular o Estado? O que Dilma pretende fazer com a economia, além de tentar tapar o sol com a peneira em defesa de medidas que fracassaram? Que estratégias internas e de inserção internacional levariam o Brasil a voltar a crescer, reduzir desigualdades, melhorar a eficiência dos serviços públicos e elevar a produtividade do setor privado? O país está às portas de um novo ciclo ou deve seguir repisando as fórmulas que se revezaram nas últimas décadas?
Pelo que tenho visto, será uma surpresa se esse tipo de debate –básico, na realidade– vier a acontecer. Espero estar errado, mas depois de um previsível início bonzinho, corremos risco de perder tempo, dinheiro e paciência com uma campanha primária, marqueteira, enviesada e agressiva.

Ela defendeu, desde a campanha de 2010, um “realinhamento” entre PT e PSDB. Disse apoiar a política econômica de FHC e Lula. Sua suposta negação dos partidos tradicionais não a impediu de ingressar no PSB, abrigo de usineiros, oligarquias familiares e até de reacionários notórios como os Bornhausen, de Santa Catarina. Agora, para ser ungida candidata pelo PSB, assumiu os compromissos costurados por Eduardo Campos, dividindo o palanque com o PT no Rio de Janeiro e com PSDB em São Paulo. Isso não tem nada de novo na política. Marina acaba, assim, avalizando as velhas práticas de sempre.
Só se constrói uma nova política a partir da crítica radical aos partidos do sistema e do modelo econômico vigente. Marina não faz nem uma coisa nem outra. Tenta se apresentar como o novo, mas está associada ao velho. Do ponto de vista econômico ela está, inclusive, mais próxima do PSDB.
E a política econômica está na base de tudo. Não há nova política sem mudar as estruturas econômicas que permitem a desigualdade extrema de renda, os lucros indecentes dos bancos e a destinação de 40% do orçamento do Brasil para o pagamento de juros da dívida pública.
Os economistas que orientam Marina são da escola do PSDB. Eduardo Gianetti da Fonseca é o mais próximo de Marina. Em entrevista à Folha de São Paulo, no dia 21 de outubro de 2013, ele afirma que, “no tocante à política macroeconômica, não vamos reinventar a roda. Vamos continuar o que estava funcionando muito bem no Brasil, que é o tripé [superávit primário, metas de inflação e câmbio flutuante].”
Isto significa que, numa eventual vitória de Marina, a política econômica vai ser mantida? Uma política que garante a dominação e o elevado poder econômico e político do setor financeiro. Que faz com que o Estado execute medidas de defesa, consolidação e avanço dos interesses do capital financeiro com altas taxas de juros para controlar a inflação, em detrimento dos salários, das aposentadorias e dos investimentos públicos.
Neste modelo não há espaço para aumentar significativamente o nível de investimento em saúde e educação ou acabar com o fator previdenciário, nem para estancar a sangria de 40% do orçamento do Brasil em favor das 5 mil famílias mais ricas do Brasil e os bancos. Mais da metade da arrecadação de impostos vem de pessoas que ganham até três salários mínimos. É o dinheiro dos pobres garantindo o pagamento dos juros para os ricos. Com Marina a bolsa banqueiro vai continuar?
Este mesmo modelo também está empenhado em atender os interesses dos mercados mesmo dentro das principais empresas públicas brasileiras. O economista de Marina não deixa dúvidas.
“Tornam a Petrobras responsável por pelo menos 30% dos investimentos no Pré-Sal e, ao mesmo tempo, puxam o tapete da Petrobras segurando os preços dos combustíveis. O governo vinha de dois bons momentos de política macroeconômica, durante FHC e o primeiro governo Lula”, afirma ele.
Esta declaração deixa bem clara a intenção de aumentar os preços da gasolina, atendendo ao pleito dos acionistas privados da Petrobras, que pressionam pelo aumento dos seus lucros. Marina vai aumentar a gasolina?

Mas o ataque não para por aí. “Corrigir o salário mínimo pelo crescimento de dois anos atrás e o IPCA do ano anterior não tem o menor sentido. Também é complicado reajustar o benefício previdenciário pelo salário mínimo. Atrelar perpetuamente [as aposentadorias] ao salário mínimo não faz sentido”, acrescenta Gianetti.
A principal reivindicação dos aposentados, que é o reajuste das aposentadorias de acordo com a correção do salário mínimo, é descartada pelo conselheiro de Marina. Então, com ela no governo, continuará valendo a regra que faz com que o cidadão que se aposenta ganhando cinco salários em poucos anos estará ganhando apenas um? E como será o reajuste do salário mínimo?
Numa entrevista mais recente, em 14 de agosto de 2014, o economista de Marina foi ainda mais explícito nos vínculos da candidata com o PSDB e sobre a necessidade de se fazer um ajuste duro, obviamente contra o povo.
Foi durante palestra no 24º Congresso da Federação Nacional da Distribuição de Veículos Automotores (Fenabrave), quando ele disse que há “uma forte convergência” entre o PSDB e o PSB para as políticas econômicas necessárias, caso derrotem o atual governo nas eleições. “A oposição vai corrigir os equívocos do atual governo, com a volta do tripé macroeconômico, com um movimento inevitável de correção e ajustes aos desequilíbrios”, disse. “A hipotética vitória da oposição será de ajustes duros que restabeleçam confiança”. Então, vai fazer um ajuste duro? Contra quem?
No mesmo evento, Gianetti defendeu a correção de tarifas dos serviços e produtos administrados, como energia e combustíveis, além da busca por metas fiscais pautadas pela redução dos gastos do governo e ainda ajuste no câmbio e até nos juros no início do governo. “Você limpa horizontes e estabelece cenário de volta à normalidade”, afirmou. Marina vai aumentar as tarifas públicas? Quem vai pagar a conta?
Em recente reportagem do jornal o Globo, Marina levanta a bandeira da austeridade fiscal, e defende a autonomia do Banco Central para elevar os juros com o pretexto de controlar a inflação, independente das políticas do governo. Entre seus assessores circula a notícia que, se eleita, convidaria o presidente da Febraban, Murilo Portugal, para ser parte de sua equipe econômica.
Então, austeridade – isto é, corte de gastos públicos para sobrar dinheiro para o pagamento das dívidas – é bandeira de Marina? Ela vai dar mais autonomia para o Banco Central, já capturado pelos mercados?
Não é casual, também, que Luiz Carlos Mendonça de Barros, um dos principais analistas econômicos do PSDB publicou comentário em uma rede social afirmando que o PSDB se aliaria a ela para “selar a remoção do PT do poder”.
Marina vai governar com o PSDB?
Mas não é só na economia que Marina contraria sua simbologia da nova política.
Na segurança pública o conservadorismo de Marina não lhe permite perceber a necessidade de dar fim à guerra urbana contra os pobres, travestida de guerra às drogas. Defender a descriminalização e regulamentação do uso da maconha nos mesmos patamares de outras drogas legais, como o álcool e o cigarro, é fundamental para avançar neste caminho. De que vale ser uma candidata de origem pobre e negra, se ela vai perpetuar as políticas que permitem o extermínio e encarceramento em massa de jovens pobres e negros?
Da mesma forma, Marina não inova em relação aos direitos da população LGBT. Ela é evangélica, e sua religião não é demérito algum. Entretanto, ela cede às pressões dos setores mais conservadores desta religião, pronunciando-se contra o casamento igualitário. A presidente Dilma também cedeu aos fundamentalistas, suspendendo o programa de combate à homofobia nas escolas por pressão da bancada evangélica da Câmara. Enquanto isso, fruto do preconceito e da falta de educação sexual nas escolas, a AIDS cresceu no Brasil, enquanto no mundo inteiro caiu. Defender a liberdade religiosa significa garantir que nenhuma religião interfira nas políticas públicas. Marina vai garantir o Estado laico?
Então é preciso que os eleitores em busca do novo fiquem muito atentos para não ser enganados por uma simbologia vazia de conteúdo. Se Marina não quer ser mais uma especialista em enganar o povo, tem que se separar claramente dos chefes de seu programa econômico, todos eles formados na escola do neoliberalismo. Infelizmente, não é o que temos visto. Pelo que vemos até agora, está muito claro que Marina não é a terceira via.
Ao contrário, Marina se parece mais com uma “segunda via” do PSDB, a alternativa que a direita está buscando caso não consiga emplacar Aécio Neves. Não que a direita não aceite Dilma. Ela conviveu muito bem com Lula e com Dilma. Mas o PT já não controla o movimento de massas, como se viu em junho de 2013, e este era o grande serviço que a direita cobrava do PT. Então, já que o PT não cumpre mais este papel, eles preferem eliminar os intermediários, governar pelas próprias mãos e não mais terceirizar o poder para grupos oriundos da classe trabalhadora, mas que governam segundo os interesses do capital.
Por isso Aécio é o favorito da direita, seu filho legítimo. Mas Marina pode ser a nova terceirizada confiável a serviço do capital. Se ela seguir iludindo os insatisfeitos com a velha política e conseguir canalizar a insatisfação para sua candidatura, ela pode ser útil para o sistema, dando uma nova cara para o velho de sempre.

quarta-feira, 20 de agosto de 2014

Falência do discurso político: Tiririca

FRANCISCO EVERARDO OLIVEIRA SILVA, ou melhor, Tirirca, voltou.

Sua nova propaganda eleitoral prova a falência das regras eleitorais e do jogo político brasileiro. Enquanto esperamos há 20 anos a reforma eleitoral prometida por FHC, Lula e Dilma, tem gente que acha graça. 

Terá mais de um milhão de votos, como há 4 anos?

O deputado do PR (SP) tentou isenção do Imposto sobre Produtos Industrializados (IPI) incidente sobre veículos de utilização nas atividades circenses. Defende a classe com afinco: apresentou 37 propostas e projetos de lei, muitos pedindo benefícios aos circenses.

Sugeriu ao Ministro da Educação a inclusão de atividades circenses entre os conteúdos a serem desenvolvidos na disciplina Educação Física na educação básica. Tenta garantir aos filhos de artistas de circo, na faixa etária de 4 a 17 anos, cuja atividade seja itinerante, vaga nas escolas pública ou particulares.

Foi arquivada a tentativa de instituir o Diploma Amigo do Circo e equiparar o trailer e o motor home à residência popular, no âmbito do Programa Minha Casa, Minha Vida (PMCMV).

Solicita ao Ministério do Planejamento, Orçamento e Gestão, no âmbito do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística – IBGE, informações sobre dados estatísticos relacionados à população cigana

Não proferiu nenhum discurso no Plenário, segundo o site da Câmara: http://www2.camara.leg.br/

Pode ter boas intenções.

Os artistas de circo e ciganos têm alguém que os represente.

Mas a forma de se chegar lá envergonha aqueles que acreditam que o debate democrático é a maneira mais justa de se construir um país.


sexta-feira, 15 de agosto de 2014

A assassina Suzane von Richthofen

Como é que uma sujeita que mata os pais é liberada por bom comportamento?

Condenada a 36 anos e sai para o semi-aberto em 12 anos com a vida toda pela frente…já os pais….

Não dá pra entender isso. Desculpa, mas não sou ponderada com quem mata os pais propositalmente e da forma que ela fez.

Pra mim, morreria na cadeia. Sem dó nem piedade, tal qual como ela agiu. Um monstro pra sempre, na minha opinião, seja bem comportada ou não.

Acusada e condenada por tramar o assassinato de seus pais, Suzane von Richthofen irá cumprir em regime semiaberto o restante de sua pena. Assim, poderá trabalhar durante o dia e retornar para dormir na prisão.

Suzane, uma filha da classe média alta da zona sul de São Paulo, fará a função de secretária no escritório de advocacia de Dernivaldo Barmi, amigo da família Richthofen, e que também a defende no processo.

Em sua maioria, as reações à notícia têm sido de reprovação. Ela e os irmãos Cravinhos confessaram ter planejado e matado o casal Manfred e Marisia von Richthofen, que reprovava o namoro da filha. Suzane é vista até hoje como um monstro. Muitos desejam que ela permaneça encarcerada.

Não sou seu advogado, não a defendo, não ignoro a complexidade de sua personalidade nem a gravidade de seus crimes (ela, seu namorado e o cunhado foram condenados por homicídio triplamente qualificado: motivo torpe, meio cruel e impossibilidade de defesa das vítimas). Mas vamos lá: Suzane cumpriu o que lhe coube? Então por que a gritaria? Por que não poderia sair?

Recusar a liberdade de um condenado após seu período judicial de aprisionamento, equivale a pedir prisão perpétua, algo que não temos no país.

Se a lei lhe permite esse benefício após cumprimento de um sexto da pena, Suzane von Richthofen nada tem com isso. Se as cadeias brasileiras não cumprem seu papel de reabilitação e ressocialização, Suzane von Richthofen nada tem com isso. Ela está pagando ainda por seus crimes e tem direitos que precisam ser respeitados. Se são os direitos que agridem às pessoas contrárias a libertação, é isso que deve ser discutido.

O caso de Suzane é chocante, com um fundo de psicopatia, por isso não causa surpresa que sua essência provoque preocupação na sociedade e espera-se que esse processo de reintegração e ressocialização esteja sendo bem conduzido e acompanhado de perto. Por psiquiatras inclusive.

Mas cadeias foram feitas para reformar e corrigir pessoas. Se não estão fazendo isso, devemos cobrar do estado a providência e não optarmos por deixar seres humanos eternamente apodrecendo e morrendo ali. A pena de morte não é aplicada aqui desde 1889. Durante o regime militar foi decretada para determinados crimes (mas nunca “oficialmente” executada) e depois abolida ampla e definitivamente na Constituição de 1988.

Suzane von Richthofen tinha 18 anos quando foi condenada. Já está com 30, é uma adulta que passou os últimos doze anos presa. Foram 12 anos no sistema prisional brasileiro. Sistema esse que tem um presídio como o de Pedrinhas no Maranhão, em que morrer decapitado é um risco semanal. Ou os de segurança máxima que não passam de filiais administrativas do tráfico de drogas.

Sistema em que delegacias misturam adolescentes com criminosos perigosos e em que instituições para menores infratores são vigiadas por violentos e sádicos agentes de segurança. Certeza de que permanecer mais tempo nesses ambientes traz algum progresso?

Será que Suzane ou qualquer outro egresso do sistema prisional não merece uma chance? Afinal, se a sociedade recusa a reinserção desses cidadãos, está dizendo uma coisa e praticando outra. É cinismo.









quinta-feira, 14 de agosto de 2014

Conspiração com dose de imbecilidade

FOI O PT! GRITA O IMBECIL, 

Que a grandissima maioria da humanidade tem como característica comum a imbecilidade é fato confirmado pela História..

Grave mesmo é quando até a pessoa mais esclarecida ou, se prefere, menos imbecil, entra nessa de "teoria da conspiração",,

Todo mundo sabe que sempre foi contra o Pt e contra tudo aquilo que representa..

Todavia, apesar dos dirigentes do partito governista ser um bando de mafiosos, é preçiso andar com calma e raciocinar..

Num hipotético complô, quem seria que ganharia mais com a morte de Campos?

Todos menos o Pt..

Até hoje a coalizão encabeçada pelo PSB, nunca ultrapassou o 10%, isto é, nenhuma chance de ir para o segundo turno e mesmo se isso acontecece, segundo as últimas sondagens, a Dilma ganharia com sobra..

E tem mais: pelo laços históricos, ideológicos e pessoais entre o Psb e o Pt, na hipótese de um segundo turno entre Psdb e Pt, o Psb apoiará o Pt..

O Brasil já passou por isso: lembram de tal Ciro Gomes?

Portanto, falando por absurdo, se tem alguém que se beneficiaria com a morte de Campos, esse cara seria Aécio Neves..

#teoriadaconspiração


(Por Guido Mattina)



quarta-feira, 13 de agosto de 2014

“Não vamos desistir do Brasil” (Eduardo Campos – 1965/2014)

Eduardo Campos: Queima de arquivo ou um mero acidente?

Quando se trata sobre Brasil não duvido de mais nada. Não era um candidato padrão "salvador da pátria", mas pelo menos era uma opção ao protecionismo ‪#‎PT‬ e ‪#‎PSDB‬.

O candidato a presidência - Eduardo Campos estava no avião que caiu em Santos. A morte anda pregando peças. Meus pêsames a Família e aos amigos e eleitores.



Estava acompanhando sua campanha, como estou acompanhando a de todos os outros candidatos. Incrível como fatos assim nos mostram o quanto somos vulneráveis e o quanto a vida é tão imprevisível. O tempo, o amor e a morte ninguém controla. Sem palavras.

Hélio Pellegrino, psicanalista e homem de fé, dizia que 'morte é ruptura abrupta da forma'. Penso em Eduardo Campos, no ápice da vida, empenhado em campanha para a presidência da República, falando para milhões em busca do cargo público máximo a que se pode aspirar. Penso, consternado, no Eduardo pai de cinco filhos, o mais novo ainda bebê, que tanta falta fará a essa prole, partindo assim 'fora do combinado', antes de completar meio século de vida.

De repente, da visibilidade humana extrema sobra um corpo destroçado por um acidente estúpido. Não só o dele: penso na dor dos familiares de Alexandre, Carlos Augusto, Geraldo, Marcos, Pedro e Marcelo, que estavam naquele avião e também não estão mais entre nós.

Estamos sempre por um triz e qualquer vaidade e orgulho é uma superficialidade, uma bobagem ilusória. Que a Consolação a parentes e amigo(a)s, sempre difícil face a perdas tão dramáticas e inesperadas, venha através do único jeito possível para nós, pobres humanos: a fé de que não se perde a vida de quem semeou, na Terra, gestos de amor e solidariedade.

Nesse momento, analisar 'cenários políticos' que se abrem soa, para mim, como fechamento à essa terrível condição humana da fragilidade, da precariedade.

À parte os campos distintos das lutas políticas, um luto atinge a todos nós.

Eduardo representava a chance do Brasil fazer uma alternância para frente.

Não sou de partido nenhum, mais sou um ser humano e lamento muito a perda do nobre candidato a presidente. Desejo meus sentimentos a toda a família. Todos nós temos uma missão para cumprir nessa vida, o dia para começar e o dia para terminar tal missão, tenho a certeza que sua missão foi cumprida com muita responsabilidade, mas deixou sua contribuição para o desenvolvimento desta nação.

Nem bem a morte do candidato à Presidência da República Eduardo Campos em um acidente aéreo, nesta quarta (13), foi confirmada e surgiram comentários com afirmações de mau gosto ou inferências políticas bizarras nas redes sociais.

Pessoas pedindo para que, no lugar de Campos, naquele jatinho, estivesse Aécio ou Dilma. Ou colocando a culpa em um ou em outro pelo acidente.

Não, isso não é piada. Muito menos revolta contra a política.

Há outro nome para esse tipo de ignomínia, para essa incapacidade crônica de sentir empatia com os passageiros de um avião que cai e com as pessoas que estavam em solo. Talvez essa impossibilidade de se reconhecer no outro e demonstrar algum apreço pela vida humana seja alguma forma de psicopatia grave.

O que não surpreende, pois tem o mesmo DNA das discussões estéreis e violentas levadas a cabo na internet, sob anonimato ou não. Mas não deixa de chocar.

Da mesma forma que choca alguns colegas jornalistas que no afã de prever o que vai acontecer com as eleições, analisam de forma desrespeitosa a situação, com ironias e sarcasmos que não cabem neste momento, desumanizando a cobertura da tragédia em busca de audiência.

É para isso que a gente desenvolveu tantas ferramentas tecnológicas com a justificativa de aproximar as pessoas e facilitar a comunicação? Para podermos mostrar como somos idiotas em tempo real? Se for assim, estávamos melhor com os tambores.

À família e aos amigos de Campos e de sua equipe e aos feridos entre os moradores de Santos, minha solidariedade. Aos que fazem disso uma brincadeira ou uma chance para vender mais, o meu eterno desprezo. O povo brasileiro precisa curtir e compartilhar este exemplo de Família. Para ser Presidente da República tem que ser FAMÍLIA !!! Porque o Brasil é família. Deus abençoe as famílias.



Caberá ao PSB decidir o que fará com a cabeça de sua chapa à presidência da República, mas de duas uma: ou Marina Silva ascende à posição aberta com a morte de Eduardo Campos, ou a terceira opção desaparece. Se ela era a candidata a vice-presidente até as primeiras horas da manhã desta quarta-feira, será difícil justificar outra solução, sobretudo tratando-se de uma companheira de chapa que tem identidade própria e recebeu 20 milhões de votos na última eleição.

Marina não entrou na chapa de Eduardo Campos como um simples apenso destinado a costurar acordos partidários. Se não serve para substituir o candidato morto, serviria para quê? Com algum exagero no paralelo, o entendimento de que o vice-presidente é um enfeite desemboca na manhã de outro agosto, de 1969, quando o presidente Costa e Silva estava entrevado por uma isquemia cerebral e os ministros militares mandaram o vice Pedro Aleixo para casa. Dezesseis anos depois, para alívio geral, o vice-presidente José Sarney assumiu no dia em que Tancredo Neves deveria ser empossado. O presidente eleito estava hospitalizado e morreria mês depois.

Pedro Aleixo e Sarney já haviam sido eleitos. Ambos, contudo, eram enfeites. Um, para dar um toque civil à presidência de um marechal. O outro, dava sabor governista a um presidente da oposição. Não sendo enfeite, Marina é mais que isso. Se a ex-senadora for deixada de lado, a terceira via implode. Se ela substituir Eduardo Campos a natureza desse terceira via muda de qualidade e transforma a eleição deste ano numa reedição do pleito de 2010.

Eduardo Campos será sepultado no mesmo jazigo onde está seu avô, Miguel Arraes. morto em outro 13 de agosto. Ele disputava a presidência contra outro neto, Aécio Neves. Nos próximos dias vai-se saber o que farão o PSB e Marina. A lembrança de Arraes e Tancredo, contudo, leva a uma especulação passadológica. Em 1980, quando a polarização bipartidária foi rompida pelo governo, Tancredo sinalizou que iria para um terceiro caminho, dizendo que o seu MDB não era o de Arraes.



Quatro anos depois, quando se costurava o arco de alianças que permitiria a eleição indireta de Tancredo, o deputado Fernando Lyra (irmão do atual governador de Pernambuco) costurou um encontro de Tancredo com Arraes e o impossível aconteceu. Os dois ficaram juntos, acabaram com a ditadura e foram felizes para sempre.

Tancredo elegeu-se presidente da República porque costurou alianças consideradas impossíveis pela política do andar de cima e óbvias para o ronco das ruas no andar de baixo, ouvida durante a campanha das Diretas.

Havia no avô de Aécio Neves habilidade, mas sobretudo conhecimento da História. Diferenciou-se pela percepção que teve do fenômeno político que formaria alianças para lá de implausíveis.

Se o PSB, marineiros e tucanos quiserem impedir que o PT permaneça no governo por 16 anos seguidos, em algum lugar alguém pensará o impossível: Marina Silva na campanha de Aécio Neves. Olhando-se essa hipótese pela ótica da política é enorme o espaço que os separa. Pela ótica da História, caso ela esteja no tabuleiro, é razoável. Se não estiver, paciência. Tancredo não fazia só política, fazia História.

Eduardo Campos morreu na mesma data que o avô Miguel Arraes, 13 de agosto.


terça-feira, 12 de agosto de 2014

Discurso enlatado de um Político Brasileiro

ANTES DA POSSE:

Nosso partido cumpre o que promete.
Só os tolos podem crer que
não lutaremos contra a corrupção.
Porque, se há algo certo para nós, é que
a honestidade e a transparência são fundamentais.
para alcançar nossos ideais
Mostraremos que é grande estupidez crer que
as máfias continuarão no governo, como sempre.
Asseguramos sem dúvida que
a justiça social será o alvo de nossa ação.
Apesar disso, há idiotas que imaginam que
se possa governar com as manchas da velha política.
Quando assumirmos o poder, faremos tudo para que
se termine com os marajás e as negociatas.
Não permitiremos de nenhum modo que
nossas crianças morram de fome.
Cumpriremos nossos propósitos mesmo que
os recursos econômicos do país se esgotem.
Exerceremos o poder até que
Compreendam que
Somos a nova política.

DEPOIS DA POSSE: Basta ler o texto acima … DE BAIXO PARA CIMA !!!


































Por que a indústria e o PIB desabam?

O definhamento da manufatura é o principal desafio do próximo governo e a sua recuperação passa pela desvalorização do real.



As notícias mais recentes de queda da produção industrial, de 1,53% neste ano (a expectativa anterior era de um declínio de 1,15%), e de um crescimento do PIB de 0,86% (projetava-se um avanço de 0,90%), foram acompanhadas das reações habituais de espanto, indiferença ou sugestões pontuais, quase sempre sob o clima pré-eleitoral.
A falta de uma estratégia clara para a economia, entre governistas e oposicionistas, parece a causa mais provável da dificuldade para relativizar o comportamento dos indicadores. A economia não anda bem, sabe-se, mas não há uma tragédia, como admite a própria oposição. E não se sai disso. A análise concentrada, salvo exceções, em dados de curtíssimo prazo, dificulta avaliações abrangentes. A profusão de informações fragmentadas atordoa. O PIB projetado caiu, mas a previsão para o IPCA (a inflação oficial) deste ano passou de 6,41% para 6,39%, na terceira queda consecutiva, algo "muito raro", segundo o presidente do Banco Central, Alexandre Tombini. As estimativas para a indústria pioraram, mas a produção automobilística, carro-chefe do setor, aumentou 8,6% em julho, após cair 21% em junho. Projeta-se um déficit de 81,45 bilhões de dólares em conta-corrente, diante dos 81,65 bilhões anteriores. A balança comercial encerrou julho com superávit de 1,575 bilhão, frente ao déficit de 1,899 bilhão há um ano. E assim vai.
Se os altos e baixos do ritmo de curtíssimo prazo, importantes para as aplicações financeiras, são de desnortear, a existência de um tendência de declínio, no momento, em relação à indústria e ao PIB, é indiscutível. Cada nova queda atinge um ponto inferior ao da redução anterior, nos dois indicadores. O declínio da produção industrial, de 5,4% no segundo trimestre, foi a maior desde o mesmo período de 2009. Não por coincidência, em junho, a indústria de bens duráveis nacional desabou 24,9% ante maio, a pior queda da série histórica da pesquisa de indústria do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), iniciada em 2002.
Os dados da produção industrial de junho do IBGE sugerem que o declínio da economia e da indústria “estariam sob o comando de um inusitado recuo do investimento”, avaliou o economista Júlio Gomes de Almeida, professor da Unicamp. Um fenômeno associado à “baixa competitividade da economia doméstica causada, especialmente, pela prolongada valorização da moeda”, em especial nos anos 1990. “Uma parcela significativa da indústria foi simplesmente devastada. Perderam entre 15% e 25% de produção para o produto importado setores como Máquinas e equipamentos, Vestuário, Calçados e Produtos têxteis. Perdas entre 10% e 15% ocorreram em Informática e produtos eletrônicos, Máquinas e aparelhos elétricos, Metalurgia e Veículos.” Salvaram-se da desindustrialização ou do crescimento vegetativo as indústrias Farmacêutica, de Produtos químicos, Celulose e papel, Alimentos, entre outros. Salvaram-se apenas dois ramos: Perfumaria e produtos de limpeza e Bebidas. No longo e no curto e curtíssimo prazo o panorama industrial não é nada bom e puxa para baixo o dinamismo da economia como um todo.
Ao contrário da China, mobilizada para constituir grandes players industriais como a Huawei, que desbancou a Siemens do posto de fabricante de equipamentos de telefonia do mundo, e dos Estados Unidos, empenhados na reindustrialização do país, a começar pela devastada Detroit, outrora o maior polo mundial da indústria automobilística, o Brasil, na iniciativa privada e no governo, parece não ver a conexão estrutural entre o afundamento da indústria e a quase estagnação do PIB. Mas os números indicadores dessa inter-relação são eloquentes. A queda da indústria arrasta para baixo o PIB e a balança comercial afunda puxada pela manufatura, único setor consistentemente deficitário, como mostram os gráficos. O desprezo pela indústria no Brasil choca também por desconsiderar uma evidência consagrada em inúmeros trabalhos acadêmicos, empresariais e governamentais, inclusive de brasileiros, da dominância dos produtos industriais entre os mais dinâmicos no mundo.
Quase todos reconhecem entre as causas da débâcle da manufatura a valorização do real, mas não há uma soma de esforços para debelar o problema. A Confederação Nacional da Indústria e a Federação das Indústrias do Estado de São Paulo até lembram dos efeitos cambiais, mas se apegam muito mais à agenda do aumento da competitividade, da redução da carga tributária e dos gastos do Estado e da multiplicação de acordos comerciais internacionais. A presidenta da República tem a sua própria lista de pontos. Em debate recente com candidatos na CNI, Dilma Rousseff detalhou a pauta da política industrial do governo: desoneração de tributos, crédito subsidiado, compras governamentais, formação técnica e científica de pesquisadores, recuperação do planejamento, constituição de novos marcos regulatórios, redução da burocracia, parceria com o setor privado no planejamento e na execução de projetos estruturantes. Nenhuma palavra sobre câmbio e juros. Nem os candidatos da oposição encaram de frente esses dois tópicos, tão explosivos quanto importantes. Feitas as contas, não é possível chamar de política industrial a lista de medidas específicas apresentada por Dilma.
Sem enfrentar o nó do câmbio, o principal desafio para recuperar a indústria e retomar um crescimento significativo do PIB, não se sairá da armadilha da desindustrialização e reprimarização e da economia brasileira. O avanço social desde 2002 é significativo, inclusive por redimensionar o mercado, mas é preciso reconhecer a sua vinculação a um momento excepcional de alta dos preços das commodities exportadas pelo Brasil. A ponto de o Bolsa Família ser denominado, pelo economista Ken Loach, “bolsa soja”.
Vários economistas consideram a indústria fora de moda, dado o êxito indiscutível e bem-vindo do agronegócio e ao crescimento do setor de serviços. Um dos exemplos mais mencionados pelo economista Jorge Arbache, entre outros, é o do iPad, com 97% do preço final compostos por serviços (transporte, marketing, estrutura de vendas, etc) e apenas 3% correspondentes ao produto físico. Não parece lhes ocorrer que, na ausência do iPad físico representado por mísero um dígito no preço, não haveria o que propagandear, comercializar, transportar e distribuir. Vista desse prisma, a importância multiplicadora da indústria contemporânea é muito superior à de antes da invenção do computador.
“Desafortunadamente, com o surgimento do discurso da sociedade pós-industrial no cerne das ideias e a crescente dominância do setor financeiro no mundo real, a indiferença em relação à manufatura foi convertida em falta de respeito. A manufatura, argumenta-se com frequência, na nova ‘economia do conhecimento’ é uma atividade de baixa categoria reservada aos países de baixos salários”, diz o economista Ha-Joon Chang.
"Nós caímos no conto de que a manufatura não tinha importância. O Brasil está abrindo mão da sua manufatura, esse é um problema estrutural da economia brasileira e é o maior desafio que o próximo presidente vai ter de enfrentar", afirmou o economista Luiz Gonzaga Belluzzo, na palestra "Diagnóstico da economia brasileira e recomendações para o próximo presidente", na Fundação Escola de Sociologia e Política de São Paulo, na segunda-feira, 4.
“A desindustrialização made in Brazil decorre não de um movimento virtuoso de transformação qualitativa da indústria para áreas mais sofisticadas, mas de um processo de desmobilização de elos da cadeia produtiva local, substituída por importações crescentes. É um mito que a indústria brasileira seja muito protegida. Excluídas as exceções de alguns poucos segmentos a alíquota efetiva de importação é das mais baixas dos países do G-20. Tanto é que o déficit da balança comercial de produtos manufaturados praticamente triplicou nos últimos cinco anos”, destaca o economista Antonio Corrêa de Lacerda, professor da PUC-SP.
Belluzzo vê semelhanças entre a situação do Brasil, com déficit em transações correntes e crescimento baixo e em desaceleração, e a da Inglaterra dos anos 1920. O governo estabeleceu a taxa de câmbio de 4,86 libras por dólar, muito alta em relação àquelas da França e dos Estados Unidos, que desvalorizavam suas moedas. “Keynes viu o problema e recomendou taxas de câmbios fixas, mas ajustáveis. No texto As consequências econômicas de Mr. Churchill, ele diz: 'Você vai destruir a indústria inglesa'. E Churchill realmente destruiu a indústria inglesa”. No Brasil, “estamos ainda nas consequências econômicas de Mr. Cardoso. Foi ele quem fez a primeira “estripulia” de valorizar o câmbio”, apontou Belluzzo, em entrevista ao blog da Associação Keynesiana Brasileira, da qual é patrono e homenageado. A ideia de Keynes, diz o economista, é que você não pode valorizar o câmbio em um mundo supercompetitivo, como o enfrentado agora pelo Brasil, pois a valorização cambial destrói a estrutura industrial nacional. Qualquer recuperação passa pela recuperação e pelo fortalecimento da indústria. Entendo que se trata de um problema estrutural.” Com câmbio valorizado e competição feroz, nada garante, como sugeriu o economista Edmar Bacha em entrevista recente, que “para escapar do pibinho, o caminho é a abertura”.
Apreço ao câmbio valorizado e pouca consideração à indústria são simétricos, como mostra relato de uma reunião entre industriais brasileiros e representantes do governo, seis meses depois da posse do presidente Itamar Franco, em 1992. O diretor do Banco Central, Gustavo Franco, informou a todos que o País tinha uma moeda forte e não sabia. Sugeriu a Jacks Rabinovich, dono da Vicunha, a maior indústria de fibras têxteis do Brasil na época, que fosse produzir tecidos na China, porque era mais barato. E propôs a Hugo Miguel Etchenique (recentemente falecido), dono da maior fabricante de compressores do Brasil, não produzi-los mais aqui, mas na Checoslováquia, pela mesma razão. “Em todos os lugares, exceto no Brasil, os setores-chaves cabem ao empresário local”, disse Rabinovich.
Para quem considera a economia brasileira às portas do inferno, algumas avaliações permitem um alívio. “Não há problemas insolúveis na economia brasileira”, disse o diretor de Pesquisas Macroeconômicas do Bradesco, Octavio de Barros, em palestra a analistas do mercado de capitais na terça-feira 5. "Não estamos aqui olhando para amanhã ou depois de amanhã. Não somos americanos, não queremos resultados em três meses”, afirmou o presidente para a América Latina da Mitsubishi Corporation, Seiji Shiraki, durante o Fórum Econômico Brasil-Japão, na segunda-feira 4. “Nos últimos 12 anos do governo do PT, o PIB [Produto Interno Bruto] cresceu uma média anual de pouco menos de 3%. É um grande número. Para os próximos dez anos não será muito diferente. O Brasil tem uma economia promissora, para ser olhada no longo prazo. Estamos aqui há 60 anos e queremos crescer nas próximas décadas", reiterou Shiraki.
Com certeza o Real está sobrevalorizado. Os juros ainda altos facilitam a entrada de dólares especulativos, valorizando o Real e tornando caro o produto localmente industrializado. Uma desvalorização gradual do Real, acompanhada de uma redução gradual dos juros pode gerar um círculo virtuoso. Na minha opinião, isso deveria ser acompanhado de medidas para a redução da realimentação da inflação pela inclusão de produtos com variação sazonal no índice de inflação. Esses produtos deveriam ser usados com base em uma média anual, já que suas variações mensais geram realimentação da inflação. Por causa disso, quando por exemplo a entressafra acaba, o produto não volta ao preço original. Outra medida importante seriam os estoques reguladores, que podem diminuir os efeitos da sazonalidade.
Por fim, ajudaria muito se não existissem tantos amigos da inflação. Por exemplo, os "urubólogos" da velha mídia que adoram agourar e prever apagões e inflações. Apesar do currículo ilustre na Wikipedia, provavelmente escrito pelas mães dos urubólogos, eles nos devem pelo menos um apagão que teima em não ocorrer.