quarta-feira, 30 de abril de 2014

Dilma abriu o saco de bondades

No pronunciamento do 1º de Maio, Dilma Rousseff anunciou um pacote de afagos a gregos e troianos. Explico. De uma tacada só, anunciou correção da tabela do Imposto de Renda Pessoa Física, reajuste de 10% dos benefícios do Bolsa Família e continuidade da política de aumento real do salário mínimo. 
Não deixou de fora nem a classe média, nem os mais pobres, nem os trabalhadores e aposentados com rendimentos atrelados ao piso nacional.
É no primeiro grupo que a presidente é mais impopular, hoje, em particular, por causa do prazo final da entrega das declarações do IR à Receita Federal. Entre os mais pobres o governo se sente mais confortável, do ponto de vista eleitoral. Está claro que não quer perder esse capital. Tampouco abre mão dos trabalhadores, brindados com o mínimo inflado e a lembrança da criação de 20 milhões de vagas e 75% de aumento real de salário em 11 anos do governo do PT.
A correção da tabela do IR é de 4,5%. Será publicada em decreto presidencial no Diário Oficial de 2 de maio. O salário mínimo sobe em janeiro de 2015. O reajuste do Bolsa Família virá nos benefícios depositados em junho.
A plataforma eleitoral está na mesa.
Exemplo clássico do uso da estrutura pública para fins eleitoreiros... Hipocrisia ainda foi utilizar o nome da POLÍCIA FEDERAL para promover seu governo, quando até no exterior já se sabe que a PF vem sendo sucateada e desvalorizada pelo próprio governo, que vem até ameaçando e perseguindo policiais que já protestam há quase dois anos!
Tenho nojo do que estão fazendo com o que resta do país chamado Brasil.


terça-feira, 29 de abril de 2014

Xingar de macaco: uma pequena história de uma ideia racista

“Para entender o poder e o escopo do xingamento de macaco, precisamos de uma dose de história”. É o que pensa James Bradley, professor de história da Medicina/Ciência da Vida na Universidade de Melbourne, autor do texto abaixo, traduzido pelo professor da Uneafro-Brasil e doutorando em literatura da USP, Tomaz Amorim Izabel.
Nas últimas 24 horas muito foi dito e escrito sobre Daniel, Neymar, bananas, macacos e racismo. Não sou um acadêmico e tampouco jornalista. Não passo de um mero professor de rede pública estadual de São Paulo e mais um militante do movimento negro. O que formulei sobre o assunto nada mais é que fruto do acúmulo das lutas concretas. Do ensinamento que recebi d@s lutador@s mais velh@s e o que aprendi com meus iguais. E as afirmações são simples:
O racismo é algo sério, não podemos brincar com ele;
Daniel promoveu uma reação interessante, deu visibilidade ao debate sobre racismo, mas a forma e o conteúdo de seu “protesto” não nos serve. Tampouco a reação de Neymar, que agora sabemos, não partiu dele;
A maioria dos atletas, principalmente no futebol, são alienados e não tem opinião qualificada sobre temas relevantes para a sociedade. E isso não é preconceito ou generalização, mas sim uma constatação mais uma vez comprovada. Só falam bobagens e no máximo se prestam a assistencialismos em seus territórios de origem, vide Pelé, Zico, Ronaldo, Cafú entre outros;
Comparar negros a macacos é racismo e não podemos admitir; Fortalecer a ideia de que devemos absorver ofensas racistas é um desrespeito à população negra, além de um golpe ideológico: “Sofram calados, não façam escândalo, levem na esportiva”; 
Não somos todos macacos! Somos negr@s e merecemos respeito;
A campanha de Luciano Huck e Neymar é racista. Suas camisetas e seu vídeo são racistas. E ganhar dinheiro com uma campanha racista é canalhice, simples assim.
Ou, daqui pra frente, será tranquilo para você levar bananadas por aí e fingir que não se sentiu ofendido?
A ordem é rir da situação para desmobilizar o agressor, tal qual nos orienta papai e mamãe: “Filh@, quando te chamarem de macaca, leva na brincadeira que é melhor! Se você se irritar, aí é que o o apelido pega!”. Pois o que precisamos é desobedecer essa orientação e denunciar a agressão.
Para qualificar o debate, segue abaixo o texto do professor Bradley.
Seguimos!
A maioria de nós sabe que chamar alguém de macaco é racismo, mas poucos de nós sabem por que macacos são associados na imaginação europeia com indígenas e, principalmente, afrodescendentes.
Para entender o poder e o escopo do xingamento de macaco, precisamos de uma dose de história. Quando eu era aluno de graduação na universidade, eu aprendi sobre racismo e colonialismo, particularmente sobre a influência de Charles Darwin (1809-1882), dos quais as ideias pareciam fazer o racismo ainda pior.
Na verdade, isto é fácil de inferir. A teoria da seleção natural de Darwin (1859) mostrou que os ancestrais mais próximos dos seres humanos foram os grandes macacos. E a ideia de que os homo sapiens descendiam de macacos se tornou rapidamente parte do teatro da evolução. O próprio Darwin foi muitas vezes representado como meio-homem, meio-macaco.
Além disso, enquanto a maior parte dos evolucionistas acreditava que todas as raças humanas descendiam do mesmo grupo, eles também notaram que a migração e a seleção natural e sexual tinham criado variedades humanas que – aos seus olhos – pareciam superiores a africanos ou aborígenes.
Ambos estes grupos tardios foram frequentemente representados como sendo os mais próximos evolutivamente dos humanos originais e, portanto, dos macacos.
O papel do pensamento evolucionista
No começo do século XX, o aumento da popularidade da genética mendeliana (nomeada em referência a Gregor Johann Mendel, 1822-1884) não fez nada para destituir esta maneira de pensar. Se é que ainda não piorou as coisas.
Ela sugeria que as raças haviam se tornado raças separadas e que os africanos, em particular, estavam muito mais próximos em termos evolutivos dos grandes macacos do que estavam, digamos, os europeus.
E ainda assim, durante este mesmo período, sempre houve uma corrente da ciência evolutiva que rejeitou este modelo. Ela enfatizava as profundas semelhanças entre diferentes raças e que as diferenças de comportamento eram produto da cultura e não da biologia.
Os horrores do Nazismo deveram muito ao namoro da ciência com o racismo biológico. O genocídio de Adolf Hitler, apoiado de bom grado por cientistas e médicos alemães, mostrou onde o mau uso da ciência pode levar.
Isto deixou o racismo científico nas mãos de grupos de extrema direita que só estavam interessados em ignorar as descobertas da biologia evolutiva do pós-guerra em benefício de suas variantes pré-guerra.
Claramente o pensamento evolucionista teve algo a ver com a longevidade do xingamento de macaco. Mas a associação europeia entre macacos e africanos tem um pedigree cultural e científico muito mais extenso.
 Pego no meio
No século 18, uma nova maneira de pensar sobre as espécies emergiu. Anteriormente, a vasta maioria dos europeus acreditava que Deus havia criado as espécies (incluindo o homem), e que estas espécies eram imutáveis.
Muitos acreditavam na unidade das espécies humanas, mas alguns acreditavam que Deus havia criado espécies humanas separadas. Neste esquema, os europeus brancos eram descritos como próximos aos anjos, enquanto africanos negros e aborígenes estavam mais próximos aos macacos.
Muitos cientistas do século XVIII tentaram atacar o modelo criacionista. Mas, ao fazê-lo, acabaram dando mais poder para o xingamento de macaco.
No meio do século XVIII, o grande naturalista francês, matemático e cosmólogo Comte de Buffon (Georges-Luis Leclerc, 1707-1788) deu continuidade à ideia de que todas as espécies de animais descendiam de um pequeno número de tipos gerados espontaneamente.
Espécies felinas, por exemplo, supostamente descendiam de um único ancestral gato. Ao migrarem do seu ponto de geração espontânea, os gatos degeneraram em diferentes espécies sob influência do clima.
Em 1770, o cientista holandês Petrus Camper (1722-1789) pegou o modelo de Buffon e aplicou-o ao homem. Para Camper, o homem original era o grego antigo. À medida que este homem original se moveu do seu ponto de criação ao redor do mundo, ele também degenerou sob influência do clima.
Na visão de Camper, macacos, símios e orangotangos, eram todos versões degeneradas do homem original. Então, em 1809, o ancestral intelectual de Darwin, Lamarck (Jean-Baptiste Pierre Antoine de Monet, Chevalier de Lamarck, 1744-1829) propôs um modelo de evolução que via todos os organismos como descendentes de um único ponto de criação espontânea.
Larvas evoluíram em peixes, peixes em mamíferos e mamíferos em homens. Isto aconteceu não através da seleção darwinista, mas através de uma força vital interna que levava organismos simples a se tornarem mais complexos, trabalhando em combinação com a influência do meio ambiente.
Deste ponto de vista, humanos não compartilhavam um ancestral comum com macacos; eles eram descendentes diretos deles. E africanos então se tornaram a ligação entre macacos e europeus. A imagem popular comumente associada com a evolução darwinista da transformação de estágios do macaco ao homem deveria ser propriamente chamada de lamarckiana.
 O poder do racismo
Cada uma dessas maneiras de pensar o relacionamento entre humanos e macacos reforçou a conexão feita por europeus entre africanos e macacos. E fazendo parecer que pessoas de origem não-europeia eram mais como macacos do que como humanos, estas diferentes teorias foram usadas para justificar a escravidão nas fazendas das Américas e o colonialismo no resto do mundo.
Todas estas diferentes teorias científicas e religiosas trabalharam na mesma direção: para reforçar o direito europeu de controlar grandes porções do mundo.
O xingamento de macaco, na verdade, tem a ver com a maneira com a qual os europeus, eles mesmos, se diferenciaram, biológica e culturalmente, em um esforço de manter superioridade sobre outros povos.
A coisa importante a se lembrar é que aqueles “outros” povos estão muito mais cientes daquela história do que os europeus brancos. Invocar a imagem de um macaco é utilizar o poder que levou à desapropriação indígena e a outros legados do colonialismo.
Claramente, o sistema educacional não faz o bastante para nos educar sobre ciência ou história da humanidade. Por que se fizesse, nós veríamos o desaparecimento do xingamento de macaco.

Neymar precisa do bom-mocismo?

A carreira de Neymar é admirável. Em sua curta história no esporte profissional, o craque do Barcelona evitou até aqui todos os erros crassos de outros jogadores brasileiros que, como ele, despontaram entre os melhores do mundo. 
Neymar é dedicado aos treinos, sempre está em forma, fez carreira em um único clube brasileiro e evitou propostas de times pequenos europeus. Assim, tem um físico invejável, respeito do torcedor brasileiro pelo que fez no Santos e está posicionado para ter, no Barcelona, seu potencial amplificado de forma magnífica.
São sinais de que Neymar entende o mundo em que vive e está pronto para fazer sucesso nele. Todo esse preparo torna razoável supor que o atacante terá pela frente uma carreira longa e frutífera, na qual não parecem grandes as chances de descasos eventuais, como ocorreu com Romário; de contusões sequenciais, como Ronaldo; de falta de habilidade para lidar com a fama, como Rivaldo; ou de falta de estrutura, como Adriano.
A ânsia do jogador e de seu estafe em prepará-lo para o estrelato, porém, tem ficado esquisita. O mais recente episódio envolvendo Neymar, e certamente não o último, é a hashtag #somostodosmacacos. 
Talvez não haja causa mais nobre do que o combate ao racismo, e é excelente que Neymar se engaje nela. Ocorre que não foi Neymar o criador da campanha, mas a agência de publicidade Loducca,responsável pela imagem do jogador desde 2012.
A ação de marketing, bolada a pedido de Neymar segundo um sócio da empresa, estava aguardando um novo ato de racismo para ser lançada. Ao site da Veja, Guga Ketzer negou que Daniel Alves fosse parte da campanha, mas é razoável supor que conhecia o projeto de seu companheiro de equipe.
A campanha em si tem problemas. Foi considerada despolitizada e alienante por integrantes do movimento negro, como Negro Belchior, e virou plataforma para Luciano Huck faturar com mais uma tragédia. Tudo isso, entretanto, não tira o mérito de Neymar ter tentado se engajar na luta contra o racismo, uma postura que a sociedade espera de seus ídolos.
O problema é a forma como tudo se deu. Já sabíamos que quando Neymar coloca a mão na cintura é para fazer propaganda da Lupo, e que quando conversa com a presidente da República pelo Twitter é um diálogo armado. Agora, soubemos até que suas boas ações são maquinadas pelas empresas que cuidam de sua marca e imagem, e que desejam transformá-lo no novo David Beckham.
É um momento delicado para Neymar. Afinal, é fácil idolatrar o atacante de carne e osso, que cria um instituto para crianças carentes na região de sua cidade. Mas quem quer idolatrar um atacante de plástico, que funciona como uma empresa ou como um político em campanha e, agora, flerta com o bom-mocismo fabricado?
Aos poucos, as criações da Loducca, da MediaCom e da Doyen Sports estão desenvolvendo uma máscara (lucrativa) para Neymar. O perigo é a máscara se tornar seu rosto, e sua credibilidade, não como jogador, mas como ídolo, ficar em dúvida. Como escreveu o Bruno Bonsanti na Trivela, por um momento foi legal imaginar que Neymar estava agindo só por companheirismo. Daqui para frente, ficará cada vez mais complicado fazer isso.

segunda-feira, 28 de abril de 2014

Arquibancada Social

Dada a importância do futebol no Brasil, por meio dele se expressam muitos dos dramas, conflitos e contradições nacionais. O doutor Sócrates incentivava o voto nas eleições estaduais de 1982: palco para causas nacionais.

Na propaganda de uma marca de automóveis, veiculada em maio e junho de 2013, o refrão convidava a torcida a ocupar as ruas para vibrar com a Seleção Brasileira de Futebol. A multidão eufórica desfilava em torno de automóveis, símbolo da opção pelo transporte individual em nosso País, implementada desde a década de 1950 e estimulada ainda mais nos últimos anos.

No mês de junho, em diversas cidades brasileiras, manifestantes tomaram as ruas e ousaram ocupar o mesmo espaço hegemonicamente utilizado pelos automóveis. Desfilaram na contramão, atrapalhando o trânsito, e explicitaram ainda mais os entraves à mobilidade urbana, causados, sobretudo, pela falta de investimentos em transportes públicos e pelas opções pelo estímulo ao consumo de carros e por incentivos à instalação de montadoras transnacionais.

Desencadeadas pelo aumento das tarifas das passagens, as manifestações de junho do ano passado ganharam corpo e articularam outras demandas sociais: fim da violência policial, mais verbas para educação e saúde, combate à corrupção e críticas ao sistema político vigente. Manifestações organizadas pela Articulação Nacional dos Comitês Populares da Copa do Mundo também ocuparam ruas e praças nas proximidades dos estádios, onde se disputavam partidas da Copa das Confederações.

Em Brasília, na cerimônia de abertura, a presidenta Dilma foi vaiada, no lado de dentro, por integrantes da classe média confortavelmente instalados nas cadeiras coloridas da arena esportiva. Do lado de fora, foi vaiada por representantes de movimentos populares, que denunciavam o processo de elitização e de exclusão dos setores subalternos dos espaços destinados à assistência das práticas esportivas.

As críticas estampadas em cartazes e gritadas em palavras de ordem denunciaram o projeto tecnocrático que envolveu a realização da Copa das Confederações, da Copa do Mundo e dos Jogos Olímpicos de 2016. Refém da lógica dos megaeventos, a organização não incluiu projetos sociais, não estabeleceu diálogos nem permitiu a participação dos movimentos sociais na elaboração.

O legado de desenvolvimento desses megaeventos, baseado na potencialização turística, na dinamização de serviços e negócios e na melhoria dos transportes públicos das cidades envolvidas, é falacioso diante dos gastos na construção das arenas esportivas e dos resultados pífios em termos de infraestrutura.

A edificação de estádios em cidades sem expressão futebolística está fadada a transformá-los em “elefantes brancos”, cujos custos de manutenção poderão levar à situação vivida hoje pela África do Sul (sede da última Copa do Mundo) e por Portugal (sede da Eurocopa de 2004). O financiamento público das obras por meio de empréstimos subsidiados, renúncia fiscal e até mesmo o custeio direto dos empreendimentos significa enorme transferência de recursos do Estado para empresas privadas.

Além disso, com a modernização da arquitetura dos estádios, em nome do conforto e da segurança, altera-se a gestualidade torcedora. A elitização provocou a exclusão dos setores populares. Os estádios viraram arenas e a torcida virou plateia, que vaia e aplaude. Uma forma de higienização social.

O jogo pelas pontas: à direita e à esquerda

Do ponto de vista da estética das massas, da sua gestualidade e da sua vocalidade, as manifestações e toda a extensa e difusa pauta que se construiu nas ruas brasileiras mimetizaram as expressões das arquibancadas.

“Pula sai do chão contra o aumento do buzão” (ou contra a corrupção) é uma paródia do “Pula sai do chão faz ferver o caldeirão”. “O povo acordou” tem também suas matrizes futebolísticas: “O campeão voltou”. “Sou brasileiro, com muito orgulho, com muito amor...” é o decalque do principal (talvez o único) canto entoado pela torcida brasileira em partidas da Seleção.

Se nos antigos estádios ocorriam disputas entre modalidades do torcer por aqueles que ocupavam gerais, arquibancadas, numeradas, tribunas de honra e outros espaços diferenciados, nas ruas pôde-se observar a expressão de diversos setores sociais e lutas ideológicas bastante explícitas.

À direita, embutida no discurso da ordem, ecoou uma saraivada de slogans ufanistas: “O Brasil é o meu partido”, “O povo unido não precisa de partido”, “Sou brasileiro, com muito orgulho...” Resgate do nacionalismo autoritário particularmente perigoso nesse contexto político e esportivo. Em algumas cidades, ocorreu a intimidação, a queima de bandeiras e a expulsão de militantes de partidos das ruas e avenidas.

Apesar de se valerem das liberdades democráticas para realizar suas manifestações, alguns grupos e indivíduos não demonstravam apreço pela democracia e chegaram a defender a instauração de uma ditadura no País. Na mesma direção, criminalizavam os movimentos sociais, reverberando falas agressivas de setores da imprensa empenhados no ataque sistemático às esquerdas e ao governo federal.

À esquerda, veio à tona o ferino questionamento: “Copa pra quem?”, hoje atualizado pela assertiva “Não vai ter Copa!” Ambos questionando as prioridades sociais dos investimentos públicos e cobrando, de certo modo, coerência ideológica do governo federal capitaneado por um partido de origem popular como o PT.
Ao contrário das manifestações sociais a partir do fim dos anos 1970, as jornadas de junho foram marcadas pela organização descentralizada. Mobilizados por meio de redes sociais, sem lideranças políticas claras, figuras públicas ou entidades tradicionais da sociedade civil revelaram a emergência de uma nova geração, nascida após a ditadura militar.

A ação direta, através de confrontos, depredações e atos de vandalismo, demonstrou o distanciamento das demandas sociais em relação aos canais de representação político-institucionais. Muitas dessas ações foram promovidas por pessoas infiltradas, ligadas a forças conservadoras, com o intuito de provocar mais turbulências políticas para o governo federal.

Também foram praticadas por jovens da periferia das grandes cidades e provenientes dos setores sociais subalternos e da nova classe média gestada, em grande parte, com as políticas públicas dos últimos anos. Talvez como expressão e reação primárias ante as suas precárias condições de vida e a violência corriqueira e estruturante que marca o seu cotidiano.

No entanto, apesar da participação de pequenos partidos políticos de esquerda, a condução das manifestações foi levada por grupos e indivíduos mais ou menos identificados com práticas e ideias autonomistas e anarquistas. De um lado, isso revela o esgotamento do atual sistema político brasileiro e a necessidade de reformas que revitalizem os canais de representação.

De outro, as ações diretas de depredação de patrimônio público e privado e o enfrentamento com as polícias militares promoveram o esvaziamento gradativo das manifestações. No lugar de dezenas de milhares de pessoas, as manifestações do início de 2014 caracterizaram-se pelo pequeno número de integrantes e pelo aguçamento da violência.

O que está em jogo

O Brasil vive hoje intensa disputa política e ideológica, que deve estender-se até o fim de 2014, com a realização das eleições gerais. A anestesia dos movimentos sociais, provocada, em grande parte, pela chegada do PT ao poder em 2003, deu lugar a uma avalanche de reivindicações que retomaram muitas das bandeiras petistas, arriadas nos últimos anos em nome da governabilidade do atual presidencialismo de coalizão.

Setores conservadores articulam-se para a grande peleja a ser disputada no segundo semestre de 2014. Um feroz neolacerdismo toma conta de diversas tribunas da imprensa. O gigante acordou, mas despertaram também os corvos raivosos que espreitam a democracia brasileira. O clima é de decisão de campeonato.

Às vésperas da Copa do Mundo, novas manifestações são esperadas. A agenda esportiva entrelaçou-se às agendas política e social. Dada a importância do futebol na sociedade brasileira, é compreensível que através dele se expressem muitos dos dramas, conflitos e contradições de nosso país.


A irracionalidade de amar cães e comer porcos

Como um cientista que estuda as capacidades cognitivas e emocionais de inúmeros animais não-humanos, e como consultor do Projeto Alguém (Someone Project), eu gostaria de comentar a respeito desse tema usando como base, sólida pesquisa científica.
Primeiro, como biólogo, eu não considero que questões sobre comparação de inteligência entre espécies sejam úteis. Organismos individuais fazem o que tem que fazer para perpetuar a sobrevivência da sua espécie. Comparar membros da mesma espécie pode ser útil em estabelecer as formas com as quais indivíduos aprendem habilidades sociais ou a velocidade com as quais eles aprendem diferentes tarefas, mas comparar cães a gatos ou cães a porcos não diz muita coisa. Eu sempre insisto que inteligência é um conceito escorregadio e que não deveria ser usado para avaliar o sofrimento.
Outra razão pela qual comparações entre espécies são relativamente sem sentido, e nos colocam em uma ladeira escorregadia, é porque algumas pessoas afirmam que animais supostamente mais inteligentes sofrem mais do que aqueles supostamente menos inteligentes, e por isso podemos usar os menos inteligentes em toda sorte de procedimentos invasivos ou abusivos. Não há absolutamente nenhum embasamento científico nessa reivindicação, e de fato, pode ser que o oposto seja verdadeiro, mas nós realmente não sabemos.
Lori Marino, fundadora do Centro Kimmela de Defesa Animal coloca muito bem: “A questão não é ranquear esses animais, mas sim reeducar as pessoas sobre quem eles são. Eles são animais muito sofisticados.” Eu enfatizei a palavra “quem” porque esses animais são seres sencientes. “Quem”, não “o quê”. Então, quando eles terminam nos nossos pratos, é uma questão de quem nós comemos, e não o quê nós comemos.
Emocionalmente complexo vs. emocionalmente sofisticado
Em discussões sobre as emoções dos animais, as frases “emocionalmente complexo” e “emocionalmente sofisticado” também nos colocam em uma ladeira escorregadia, porque não há dados que sustentem a afirmação de que cães, por exemplo, sejam emocionalmente mais complexos do que porcos, ou outros animais consumidos como alimento.
Sendo assim, a afirmação de que podemos abater porcos, por exemplo, ao invés de cães, porque cães sofreriam mais, é enganosa e vazia, e não existem dados que sustentem essa afirmação. Todos os mamíferos são seres sencientes que compartilham a mesma arquitetura neural subjacente, e que experimentam um amplo espectro de emoções, incluindo a capacidade de sentir dor e sofrer.
Tudo que alguém tem que fazer é ver a literatura científica para perceber os milhões e milhões de ratos e outros roedores que são usados em incontáveis estudos sobre dor em humanos. Apesar do fato de sabermos que galinhas, camundongos e ratos demonstram empatia e são muito inteligentes e emotivos, eles não são protegidos pelo Ato do Bem-estar Animal (AWA).
Você faria isso com o seu cachorro?
O artigo da Associated Press levanta algumas questões importantes que são dignas de nota. Pesquisas mostram que muitas pessoas que comem carne são de fato preocupadas com o nível de inteligência dos animais constantes do seu planejamento de refeições, então discussões sobre a comparação da inteligência desses animais são de fato importantes.
Também levanta o interesse na questão: porque algumas pessoas têm visões tão radicalmente diferentes acerca dos outros animais (não-humanos)? De fato, dois livros muito interessantes publicados, ambos em 2011, abordam essa questão. O primeiro, intitulado: “Alguns nós amamos, alguns nós odiamos, outros nós comemos: porque é tão difícil raciocinar direito sobre os animais”, de Hal Herzog, e o outro: “Porque amamos cães, comemos porcos e vestimos vacas”, de Melaine Joy.
Respostas a questões como essas vêm sendo procuradas por pesquisadores do campo da antrozoologia (estudo da interação entre pessoas e animais). Eu sempre pergunto às pessoas se elas fariam alguma coisa a um cão que lhe causasse dor e sofrimento intensos e prolongados, tais como os suportados pelos animais da pecuária, e a resposta mais normal é “não”, seguida de surpresa e incredulidade sobre o porquê de eu estar fazendo tal pergunta, em primeiro lugar.
Afirmar que animais são seres inteligentes ou profundamente emocionais não significa “humanizá-los”.
Alguns dos comentários de opositores do Projeto Alguém também requerem alguma discussão. Por exemplo, David Warner do Conselho Nacional de Produtores de Suínos, afirma: “Apesar de animais da pecuária terem algum grau de inteligência, estão tentando humaniza-los em nome de uma agenda vegana: o fim do consumo de carne.” Apesar da busca por um mundo vegetariano ou vegano estar entre os objetivos de muitas pessoas, afirmar que outros animais são inteligentes ou que têm ricas e profundas emoções não é uma tentativa de humanizá-los.
Na verdade, quando prestamos atenção na sólida teoria evolucionária, a saber: a continuidade evolucionária de Charles Darwin, nós vemos que humanos não são os únicos seres inteligentes, emotivos e sencientes. De fato, trata-se de biologia ruim furtar dos animais não-humanos suas capacidades cognitivas e emocionais e nós não estamos inserindo nada de “algo humano” nesses animais, que eles já não tenham.
Condizente com esta conclusão, a Declaração da Consciência de Cambridge, assinada por cientistas mundialmente renomados, atesta que os dados científicos disponíveis, claramente mostram que todos os mamíferos, e alguns outros animais, são seres plenamente conscientes. Está claro que a hora é agora para uma Declaração Universal da Senciência Animal, que envolva as pessoas, e as façam assumir a responsabilidade pelas escolhas que elas fazem ao interagirem com outros animais.
A hora é agora para deixarmos de lado ideias sem evidências e ultrapassadas sobre os animais, e darmos crédito à senciência nas inúmeras formas em que ela é encontrada em outros animais.
Quando a Declaração de Cambridge veio a público, houve muita pompa, champagne e cobertura da mídia. Não há necessidade de toda essa fanfarra para uma Declaração Universal da Senciência Animal. Ela poderia ser uma jornada profunda, pessoal, e inspiradora, a partir dos nossos corações, sem ignorar a forte e crescente base em evidências.
Projeto Alguém busca elevar a consciência sobre quem são os animais usados pela indústria alimentícia, sendo fiel às fronteiras das evidências científicas disponíveis. A forma pela qual nós podemos cumprir nossas obrigações éticas para com esses animais é parar com as fazendas industriais agora mesmo, e permitir que os animais que se encontram nesses locais horríveis tenham uma vida digna. E nós não estaríamos causando fome com isso, existem muitas outras alternativas mais humanas, e à medida em que as pessoas se derem conta de que estão consumindo dor e sofrimento, alimentação de origem não-animal se tornará cada vez mais comum.
Perdoando a nossa desconsideração para com a dor e o sofrimento de outros animais
Em um recente artigo publicado no New York Times, intitulado “Nossa hipocrisia para com os animais”, Nicholas Kristof aborda a questão de quem nós comemos. A sua conclusão é uma boa forma de terminar este artigo. Ele escreve:
“Talvez, em um futuro, quando os nossos descendentes refletirem – incompreensivelmente – sobre o nosso abuso dos animais, eles apreciem o fato de que éramos pessoas boas, decentes e bem intencionadas, e como mostrávamos compaixão pela nossa falta de consciência.”

sábado, 26 de abril de 2014

Santa Diplomacia

Em decisão salomônica, Francisco declara santos João Paulo II e João XXIII, nos últimos 700 anos, dois papas foram canonizados.


A situação lembra aquela do caubói que é atingido no duelo, mas ainda consegue alvejar o oponente antes de tombar — só que em uma versão toda pia e santa. Ao assumir o governo do Vaticano, no ano passado, o papa Francisco encontrou já engatilhada a canonização de seu antecessor João Paulo II. Não teria como fugir a ela, o que criava um problema, porque o polonês representava o projeto de Igreja que o argentino vinha reformar.
Cracóvia está em festa
A solução de Francisco foi desengavetar o empoeirado processo de canonização de um pontífice com significado oposto, João XXIII (foto), para servir de contrapeso. O resultado é que neste domingo, depois de declarar santos apenas dois papas nos últimos 700 anos, a Igreja canonizará de uma vez só mais dois — com legados totalmente distintos.
— Canonizar João XXIII junto com João Paulo II é portenho, é malandro, é brilhante. É pura inteligência pastoral. Significa uma no cravo e outra na ferradura. Alguém mais sem vergonha diria que é jesuítico — define o teólogo Fernando Altemeyer Junior, professor da pós-graduação em Ciência da Religião da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP).
No centro da discussão está o Concílio Vaticano II, um dos acontecimentos mais importantes para a Igreja nos últimos cinco séculos. Realizado entre 1962 e 1965 por iniciativa de João XXIII, o concílio arejou e modernizou a instituição. Propôs uma igreja aberta ao diálogo, reformou a liturgia (os padres deixaram de celebrar a missa de costas para os fiéis, para ficar em apenas um exemplo) e determinou que o poder seria compartilhado por todos os bispos, em vez de ficar concentrado nas mãos do Papa.

Essas diretrizes foram refreadas com a chegada de João Paulo II (foto) ao poder, em 1978. Enquanto angariava a simpatia das massas com suas peregrinações planetárias, o polonês adotava uma agenda em muitas dimensões contrária à do concílio. Auxiliado pelo seu braço direitoJoseph Ratzinger, promoveu a centralização do poder em Roma, perseguiu padres e teólogos que não se alinhavam com seu pensamento, engessou a liturgia e adotou uma postura de confronto em temas éticos e morais — um "longo inverno" para a Igreja, nas palavras de Altemeyer, depois da primavera trazida por João XXIII.
Joseph Ratzinger, convertido em papa sob o nome de Bento XVI, deu continuidade a esse legado de João Paulo II e logo lançou o seu PAC, o Plano de Aceleração da Canonização. Enquanto outros processos levam décadas ou séculos para se mover, abreviou prazos e beatificou o antecessor em seis anos. Antes de renunciar, deixou o trem da canonização nos trilhos, em alta velocidade.
— Foi uma acelerada como não se costuma fazer na Igreja. Não tem nem 10 anos que João Paulo II morreu. Se o papa Francisco o canonizasse sozinho, o significado deste momento seria completamente diferente. Representaria reconhecer que ele se reporta ao pontificado de João Paulo II, que é controvertido. Ao canonizar junto João XXIII, Francisco está dizendo que vem na linha de João XXIII, de uma igreja simples, para os pobres — analisa o padre e teólogo José Oscar Beozzo, coordenador do Centro Ecumênico de Serviços à Evangelização e à Educação Popular.
No fundo, é a velha disputa interna entre os chamados conservadores (alinhados com João Paulo II) e progressistas (identificados com João XXIII). Vaticanistas como o americano John Allen Jr viram na solução de Francisco (o argentino lançou mão da prerrogativa de canonizar o papa do concílio sem o milagre que seria necessário) uma estratégia de afagar as duas vertentes e de promover a unidade no seio da Igreja. Mas o episódio também revela do lado de quem Francisco está:
— João Paulo II é santo e não há duvida disso. E João XXIII também é santo. Não existe competição aí. Francisco fez uma boa costura desses dois modos de ver a Igreja e o mundo. Mas tomou partido, porque foi ele quem incluiu o segundo. É uma valorização imediata do Vaticano II e de todas as decisões do concílio, que João Paulo freou e Francisco está acelerando de novo — observa Altemeyer.
Se a inclusão de João XXIII esfriou um pouco o entusiasmo dos admiradores de João Paulo II (os poloneses, principalmente, não conseguiram esconder certa contrariedade), também há observadores para quem João XXIII merecia mais. Seu processo de canonização foi acidentado. Primeiro, esteve atrelado ao de Pio XII, que não foi para a frente por conta de polêmicas sobre a ação da Igreja durante o Holocausto. Quando a beatificação de João XXIII finalmente saiu, no ano 2000, João Paulo II colocou no pacote o papa Pio IX, o papa ultraconservador que convocou o Concílio Vaticano I e reforçou a centralização do governo da Igreja.
— Incautos como eu tiveram de absorver que, ao lado de João XXIII, beatificassem também Pio IX. Essa política de equilíbrio às vezes nos deixa nervosos. Primeiro, colocaram Pio IX para esfriar o entusiasmo com João XXIII. Agora, para não dar tanta ênfase a João Paulo II, João XXIII tem de compartilhar de novo. A mim me dá pena, porque eu achava que ele merecia estar no centro. João XXIII merecia uma canonização só para ele — afirma o frei Luiz Carlos Susin, professor de Teologia da PUCRS.
Menos pompa, mais orações na cerimônia de canonização
Em sintonia com a igreja para os pobres apregoada por Francisco, a cerimônia de canonização dos papas João Paulo II e João XXIII terá a marca da sobriedade. Segundo o Vaticano, será mais austera do que a beatificação do papa polonês, em 2011, uma festança que se estendeu por três dias e custou mais de 1,2 milhão de euros. Agora, o gasto da Igreja deve ser de 500 mil euros.
Na ocasião, realizou-se uma megavigília no Circo Máximo, em Roma. Desta vez, foi anunciada apenas a abertura de 11 igrejas do centro da cidade, na noite deste sábado, para oração.
— O importante é que tenhamos sobriedade, que cheguemos ao essencial — avisou o monsenhor Walter Insero, que participa da organização do evento.
A canonização ocorrerá na manhã de domingo, na Praça de São Pedro. Espera-se que os dois papas do passado sejam celebrados pelos dois papas do presente: além de Francisco, o emérito Bento XVI foi convidado a comparecer. Segundo dados fornecidos pelo Vaticano, confirmaram presença delegações oficiais de 93 países. Comparecerão 24 chefes de Estados e monarcas.
Além das autoridade, centenas de milhares de peregrinos devem acorrer ao Vaticano para a cerimônia. Só da Polônia são aguardados cinco trens, 58 voos e 1,7 mil ônibus.
— Estamos prontos para até um milhão de pessoas — disse o vice-presidente da Obra Romana de Peregrinações, monsenhor Liberio Andreatta.
A anunciada sobriedade é um sinal dos novos tempos trazidos ao Vaticano pelo atual papa. Instantes depois de ser eleito, quando o mestre de cerimônias estendeu-lhe a capa escarlate forrada de peles que costumava ser usada por Bento XVI, Francisco recusou-se a vesti-la, anunciando uma mudança de rumos:
— O carnaval acabou — disse.
A simplicidade da cerimônia contrasta com um notícia que veio a público na semana passada e que provocou irritação em Francisco: o ex-secretário de Estado do Vaticano,Tarcisio Bertone, vai inaugurar nos próximos dias, em Roma, sua nova residência, uma cobertura nababesca de 700 metros quadrados. Para conseguir esse espaço, ele juntou dois apartamentos do Palácio de São Carlos, localizado nas imediações da Casa de Santa Marta, onde Francisco decidiu se alojar em um quarto-e-sala de 70 metros quadrados.
— Francisco está procurando a simplicidade em tudo. Decidir que a cerimônia de canonização vai ser simples é apenas uma continuidade disso. É uma atitude de fundo, um caminho que ele pede que os outros também sigam — diz o professor de Teologia José Oscar Beozzo.





























Fonte: CNBB e Jornal Zero Hora

Nonsense das capitais

O Brasil se resume a Rio de Janeiro e São Paulo? 

Por que a comissão organizadora não escolhe outras duas cidades, tão Brasil como essas duas, para nelas realizar os jogos?

Estádio Mané Garrincha, em Brasília, que já está pronto para a Copa do Mundo

Muitas vezes tenho discutido com o Agenor, filósofo das horas vagas depois de ter abandonado o Cabo da Boa Esperança, vindo fixar residência no Brasil. Ele, meu gigantesco amigo, defende a ideia de que é sempre no nonsense que se encontram os melhores sentidos. 

Posso até concordar que, com alguma frequência, isso acontece, mas daí a tomar o fato como verdade universal é coisa que não consigo admitir.

Ele, o Agenor, que conhece o Brasil e o ama como poucos de nós, que aqui nascemos e que, no dizer daquele cronista furioso, o Nelson Rodrigues, temos o complexo de vira-latas, por isso estamos sempre torcendo pelo pior, ele defende algumas ideias estapafúrdias, mas também sugere soluções geniais com alguns traços de nonsense.
Na mídia, a recorrência do assunto já chega a ser cansativa. 
Que o Brasil é um país inseguro e isso vai ficar mais evidente daqui uns poucos dias, quando seremos invadidos por bandos de estrangeiros ávidos por futebol. Alguns deles, é verdade, vêm até aqui pela primeira vez e motivados pela propaganda que fazemos a respeito das nossas mulheres: todas desfrutáveis. Praia e carnaval, esta beleza de país tropical. Mas não tergiversemos: a maioria vem por causa da Copa mesmo.
Em São Paulo e, principalmente, no Rio de Janeiro, a mídia vem trabalhando no sentido de desacreditar o Brasil. São mostrados protestos, desordens, fala-se de assaltos e da incapacidade de nossas polícias para manter em nível razoável a segurança dos cidadãos deste e de outros países.
Pois aí é que entrou o Adamastor no assunto. Ontem me chegou com sobrancelhas erguidas, olhos arregalados, e me disse, Mas como é que ninguém ainda pensou nisso?
Terminei de tomar meu café e o convidei para a varanda, onde fluem melhor os melhores pensamentos.
E ele prosseguiu, com semblante de filosofar. O Brasil se resume a Rio de Janeiro e São Paulo?, ele perguntou sem esperar resposta, que, de óbvia, era desnecessária. Então, ele continuou, por que a comissão organizadora não escolhe outras duas cidades, tão Brasil como essas duas, mas sem as mesmas ameaças à segurança, para nelas realizar os jogos?
O Agenor é assim: para ele não existe absurdo antes que se prove ser absurdo. E eu, que vivo tão preso às coordenadas do Descartes, levei um susto ao descobrir que o nonsense do meu amigo talvez fosse realmente a melhor solução. Pelo menos assim a mídia não teria razão para ficar denegrindo este país em que o Agenor resolveu se fixar.

Jogando com as Estatais

As empresas estatais exerceram um papel central na formação da economia brasileira, com investimentos pesados em segmentos estratégicos de lenta maturação e retorno relativamente baixo. Assim, a partir da década de 1950 e, principalmente nos anos 70, as estatais passaram a ocupar parcela importante da economia brasileira, no petróleo, na energia, na telefonia, e na mineração. 

As condições do Brasil mudaram radicalmente e o espaço para empresas estatais e privadas se redesenham e complementam. Ocorre, contudo, que o lado positivo das estatais na formação da economia se mistura cada vez mais com um componente perverso de uso político-partidário e a manipulação para interesses de politica econômica, empreguismo, favores e compra de apoio político. 

Quantos votos no Congresso valem uma diretoria da Petrobrás ou a presidência de Itaipu? Pergunta ao PMDB ou ao PP. O governo vem usando e abusando das empresas estatais para seus propósitos, nem sempre republicanos, tanto para negociação de apoio como para conter as pressões inflacionárias com prejuízo da viabilidade econômica das empresas. A Petrobrás compra petróleo caro para vender barato, e a Eletrobrás foi forçada a reestruturar preços para fazer demagogia. 

Desde o início do governo atual, a Petrobrás, a Eletrobrás e o Banco do Brasil perderam juntas R$ 262 bilhões de valor de mercado devido à gestão temerária e manipulada politicamente, para dizer o mínimo. Mas a Federação Única de Petroleiros diz que é a oposição e a imprensa que “sangra a Petrobrás no ringue das disputas políticas”. Muita estranha essa inversão de responsabilidade, que considera possível uma empresa poderosa como a Petrobrás ser “sangrada” apenas pelas palavras e críticas da oposição e dos editoriais dos jornais.

Acho que só existe uma das soluções para o problema das estatais seria privatizá-las. Privatizá-las, acrescento, impondo ao capital privado regulações efetivas impostas pelo Estado. Propor isso, no entanto, seria propor uma revolução que não interessa a ninguém, nem ao povo espoliado pelo modelo estatizante que sempre prevaleceu na nossa economia. 

Esse modelo, sabem os economistas e historiadores bem melhor que eu, remonta a Getúlio Vargas e nunca foi substancialmente alterado. Hegemônico na esfera econômica e política, sustenta-se sobretudo na mentalidade geral, que encara qualquer proposta de modernização segundo modelos como o anglo-saxônico como neoliberalismo – noutros tempos foi entreguismo. O modelo estatizante inabalável no Brasil serve antes de tudo como instrumento poderoso de espoliação do povo.

Imagine um processo de privatização que com uma mão privatiza e com a outra estatiza. É coisa de Estado brasileiro. O Estado brasileiro é fraco, quando não inexistente, onde deveria ser forte, isto é, na promoção de uma real democracia social. Trocando isso em miúdos, garantindo direitos básicos e acesso a serviços básicos que há muito são moeda corrente em toda democracia moderna. 

Nosso Estado não fiscaliza nem os botequins. De outro lado, em nome de uma ideologia nacionalista e estatizante retrógada, ele é um gigantesco agente econômico atuando em defesa de grupos que há séculos detêm o poder, garantindo privilégios e entravando o livre desenvolvimento das forças produtivas. O pior, como sugeri, é que a maioria do povo confere meios ideológicos à manutenção do Estado patrimonialista e interventor que sempre tivemos.