quarta-feira, 25 de dezembro de 2013

Legal mesmo é onde o Fábio Porchat mora!

Nada contra o comediante do ano, Fábio Porchat. Acho até seu sucesso merecido. Mas isso não quer dizer que não vou criticar seu artigo no Estadão, que não tem muita graça. Trata-se de uma visão acomodada e falsa do Brasil, como se não fôssemos diferentes ou mesmo piores do que os países de primeiro mundo.

Quando um pai ama seu filho, a crítica construtiva é parte fundamental do processo de educação. “Quem ama, educa”, diria Içami Tiba. Jogar para baixo do tapete os principais defeitos é garantir que nunca haverá progresso, evolução.
Concordo que devemos evitar o oposto, o velho complexo de vira-latas, que só enxerga defeito em casa e acha que a grama do vizinho é sempre mais verde. Mas convenhamos: haverá casos claros em que a grama do vizinho realmente está mais verde e bem aparada. Que tal aproveitar o que há de bom lá fora?
Porchat diz em seu texto:
"O que quero dizer com isso tudo? Que eu acho que vai dar tudo certo por aqui. Vamos superfaturar as obras (o que é um absurdo, óbvio), não falamos uma palavra de língua nenhuma, não temos o menor preparo para receber turista nenhum de outro país, mas mesmo assim, vai ser tudo um sucesso. Temos que cobrar sim, temos que protestar sim, temos que fazer barulho e ficar em cima, mas pelo que eu tô entendendo, nenhuma população de nenhum lugar do mundo acha muita graça em receber um evento dessa magnitude.
É mais caótico do que divertido. E o brasileiro adora menosprezar o Brasil. O aeroporto de Guarulhos é um lixo? É. Mas ficar uma hora esperando a bagagem chegar eu também fiquei em Paris e em Nova York. A escada rolante do aeroporto parada e em manutenção eu também encontrei em Lisboa. Pessoas esparramadas no chão dormindo pelo saguão da sala de embarque? Foi o que eu vi em Dubai. Claro que um erro não justifica o outro, mas é assim em toda cidade grande no mundo. As coisas dão errado.
Mas, em Paris, eu não vi nenhum brasileiro mandando um “imagina na Copa”. É porque lá fora é primeiro mundo, né? Outro dia passando pelo detector de metais no Galeão, uma mulher, que teve que tirar o sapato porque tinha mais metal nele do que numa armadura medieval, falava em alto e bom som que só no Brasil mesmo para ela ter que passar por essa vergonha. Paisinho de merda. Eu não desejo a ela uma singela viagem pra Miami. Ela praticamente vai ter que tirar o DIU no aeroporto de lá.
A gente cisma que a gente é péssimo. Cisma que a gente é terceiro mundo. Cisma que nada aqui dá certo. E a gente até tem razão. Mas não vem pra cima de mim cismar que lá fora é que é legal que eu já te adianto que legal mesmo é onde a gente mora! Ponto".
Pois é, Porchat. A gente cisma que é terceiro mundo, e a gente até tem razão. Mas não vamos cismar que lá fora é legal, pois legal mesmo é onde a gente mora? Bem, para falar isso, é bom morar em uma casa ou apartamento bem legal mesmo, em condomínio com segurança, pois fica complicado repetir a frase morando em uma favela dominada por traficantes e sem saneamento básico, não é mesmo?
A escada rolante do aeroporto de Lisboa estava ruim? Acontece sim, sem dúvida. Mas vamos mesmo comparar o aeroporto de Lisboa e suas estradas com o Guarulhos e nossas rodovias da morte? Esperar mala pode levar um tempo lá fora também, mas por acaso o Aeroporto Internacional de Miami parece uma rodoviária como o Galeão?
Lugar legal é onde a gente mora? Mas é tão legal assim ter medo de andar de carro com vidro aberto? É legal criar fortalezas de muros com medo de bandidos? É tão legal mal poder usar um Rolex no pulso, e se for roubado ainda ter que escutar do Sakamoto que a culpa é sua, por ter um Rolex?
É legal morar em um lugar onde se leva oito anos para julgar um escândalo como o mensalão, e ainda ter de aturar os corruptos se fazendo de injustiçados? É legal morar num país com alto grau de analfabetismo e malandragem, que coloca no poder esses petistas bolivarianos?
Ok, você teve uma ou outra experiência ruim no Japão. Mas sério que pretende comparar os serviços nos países de primeiro mundo com aqueles oferecidos no Rio de Janeiro? Sugiro que você vá em qualquer Starbucks nos Estados Unidos, qualquer um dos milhares, e depois compare com o atendimento no Starbucks carioca.
Sinto muito, Porchat, mas esse tipo de postura não agrega valor. Dissimula, finge que o problema não existe, relativiza nossos males, como se fossem “apenas diferentes”, e que todos tivessem os mesmos tipos de problemas. Claro que não há lugar perfeito. Isso é o óbvio. Mas não quer dizer que Suíça e Maranhão sejam “apenas diferentes”, não é mesmo?
Enquanto o brasileiro mantiver essa mentalidade de que temos nossos defeitos, mas é assim mesmo, e em todo lugar é parecido, não vamos evoluir, chegar ao posto de primeiro mundo. E acredite, Porchat: estamos muito longe disso! Nossos defeitos são típicos de país tupiniquim, de terceiro mundo, de República das Bananas. Só vamos mudar isso quando enfrentarmos a dura realidade, em vez de tentar mascará-la.

Gosto de suas piadas. Mas fala sério, vai!


segunda-feira, 23 de dezembro de 2013

Antes marginalizado, handebol vira vitrine olímpica

O título mundial conquistado pela seleção feminina de handebol do Brasil neste domingo deve ter efeitos práticos enormes para a modalidade e para o esporte olímpico brasileiro de forma geral. A começar pelo fato de o País ter descoberto, há seis meses da Copa, a emoção de uma Olimpíada.
Não é segredo para ninguém que o handebol sempre foi um esporte marginalizado no Brasil. Piadinhas do tipo: “handebol é gincana” ou “handebol é esporte de educação física” partem sempre daqueles que julgam que esporte de verdade é o futebol. Basquete também é esporte. Vôlei também. Boxe e judô também, assim como o tênis. Mas o resto, ah o resto é brincadeira de gincana.

Essa cultura esportiva brasileira está diretamente relacionada a resultados. O basquete é forte no Brasil porque, lá em 1948, a seleção masculina já ganhou sua primeira medalha olímpica. São 65 anos levando basquete a sério. O vôlei tem uma tradição menor, mas fortíssima, baseada em resultados e investimento financeiro. Passa na Globo, é esporte. O boxe vem desde Eder Jofre. O tênis, com Esther Maria Bueno. No judô, ganhamos medalhas sempre desde 1988.
Mas o handebol sempre foi taxado de modalidade restrita à aula de educação física. Resultado de uma engrenagem que só agora passou a funcionar. O Brasil formava jogadoras (principalmente meninas), mas a falta de resultados internacionais não permitia sequer que elas pensassem em profissionalização. Sem isso, não há como ter resultado.
A dificuldade estrutural de se levantar uma quadra de vôlei ou de se conservar uma tabela de basquete fez com que, historicamente, o esporte mais praticados nas aulas de educação física por todo o Brasil fosse o futsal. Numa sociedade machista como a nossa, os meninos “jogam bola” e as meninas precisam de uma alternativa. O handebol.


Esse burburinho que se tornou a fase final do Mundial, principalmente o título conquistado neste domingo, é em parte aquela paixão de colégio pelo handebol. Que estava guardada, igual nossa paixão pelo boxe. Mas que agora pode se tornar pública porque temos para quem torcer, temos chance de vencer. Mais do que isso: vencemos.
Ao descobrir o handebol como um esporte competitivo, o Brasil descobriu também uma modalidade interessantíssima. Que tem gols os gols do futebol, a truculência dos esportes de contato, o placar parelho dos melhores jogos de basquete, a plasticidade de um belo ataque de vôlei…
O “hand”, assim, tem tudo para liderar um movimento por um tratamento diferente ao esporte olímpico brasileiro. O handebol deverá receber maior atenção do COB e do Ministério do Esporte (também de patrocinadores) e passar a ser o garoto propaganda da ideia de que o Brasil ganhar medalha em muitas modalidades nas quais não se espera.
Assim como descobriu o handebol, o Brasil pode descobrir o BMX, que eu digo há algum tempo que tem tudo para ser um esporte de muita importância nos Jogos do Rio (é o único radical no programa). Pode descobrir que é legal assistir a um bom jogo de badminton, que existe muita emoção numa partida de rúgbi.
A tendência é o Brasil passar a conhecer esportes pelos quais nunca se interessou e, quem sabe, descobrir novas paixões. O handebol abriu a porta. Agora é deixar as outras modalidades entrarem.

O Brasil é um país engraçado mesmo.

As meninas do Handebol vão lá para a Sérvia, sem qualquer apoio da população, esquecidas pelos patrocinadores, ignoradas pela imprensa de um modo em geral, vencem um torneio difícil pra caramba, porque se esforçaram e se dedicaram muito sem apoio quase nenhum e agora aparece um monte de gente querendo ser o pai da Criança?


O Título de Campeão Mundial de Handebol Feminino não é do BRASIL NÃO, não é da população num todo não, o Título é delas somente, e de quem acreditou nelas, de quem apoiou quando os olhos estavam voltados para esportes de gastam MILHÕES por ai e não vem trazendo quase nenhuma conquista.


As Meninas do Handebol os meus PARABÉNS pelo esforço e pela conquista de um campeonato importante, isso é de vocês e só de vocês. 


Quando o BRASIL for um país que investir em esportes como investe em no Futebol e quando der apoio e atenção a atletas que não sejam celebridades, então poderemos dizer que sim, Fomos campeões coletivamente. 


PARABÉNS POR VENCER SEM QUASE NENHUM APOIO.




quinta-feira, 19 de dezembro de 2013

Por que o Brasil precisa dos caças?



Além de visar a substituição dos antigos jatos Mirage e incrementar os mecanismos de defesa do território nacional, a compra de 36 caças anunciada pelo governo — após mais de uma década de consultas e negociações — teve, segundo especialistas ouvidos pela BBC Brasil, o objetivo, mais ambicioso, de desenvolver a indústria nacional de defesa e dar um impulso à cooperação militar sul-americana.
O governo decidiu pela opção preferida dos militares, os caças Gripen, da fabricante sueca Saab, por US$ 4,5 bilhões. Foram preteridas duas gigantes do setor, a americana Boeing, que tem os aviões considerados os mais modernos, e a francesa Dassault, a mais cara.
A longa negociação e os custos em jogo, entretanto, levaram muitos brasileiros a questionar a necessidade da aquisição. Por que o Brasil, que é um país pacífico e há mais de um século não vê conflito em suas fronteiras, precisa gastar tanto em aparato militar?
"Para continuar a ser um país pacífico, o Brasil precisa respeitar e ser respeitado", explicou à BBC Brasil o especialista em relações internacionais da Universidade Federal do ABC Giorgio Romano. "E é por isso que o Brasil precisa ter aparato de defesa".
Com uma fronteira de mais de 8 mil quilômetros, a maior floresta equatorial do mundo e agora uma das maiores reservas de petróleo, o país precisa, segundo especialistas, mostrar que tem o que chamaram de "poder de dissuasão".

Indústria

Mas os interesses econômicos estratégicos por trás das compras não são menos importantes.
Após o anúncio surpresa da presidente Dilma Rousseff, o ministro da Defesa, Celso Amorim, e o comandante da Aeronáutica, brigadeiro Juniti Saito, ressaltaram que uma das razões cruciais pela escolha foi a disposição dos suecos em transferir tecnologia. Essa transferência daria impulso à indústria de defesa nacional.
Segundo Saito, o conhecimento sobre a fabricação desses aviões será passado à Embraer, que vai tomar parte na montagem das aeronaves no Brasil.
"Quando terminar o desenvolvimento, nós teremos propriedade intelectual desse avião, isto é, acesso a tudo", disse Saito.
Com isso, o Brasil almeja impulsionar a sua hoje modesta indústria de Defesa, que chegou a ocupar lugar de destaque no começo dos anos 1980, no fim do regime militar, perdendo força na primeira década da redemocratização.
Na ocasião, o Brasil foi um grande produtor e exportador de aparato militar. Um dos sucessos de venda foi o tanque Urutu. Ele foi usado, por exemplo, na invasão do Kuwait pelo Iraque nos anos 1990 e durante a Guerra do Golfo.
"Aí veio a crise do petróleo, outros fatores. Acabou tudo. Agora o Brasil tem uma política para retomar essa indústria. E uma série de infraestrutura vai nascer com os caças", segundo o ex-embaixador do Brasil nos Estados Unidos Rubens Barbosa.
Para o diplomata, os caças suecos "cabem nas nossas necessidades, de um país sem conflito", e a opção fazia sentido mediante a resistência de americanos e franceses em transferir tecnologia.
"O fato de ser com a Suécia também é positivo. Se fosse fechado um acordo com os Estados Unidos, haveria contestação. Se fosse com a França, também haveria contestação. Com a Suécia, só vão falar que é inferior", diz, lembrando que não se trata de uma simples compra, mas de uma decisão que pode causar movimentações nos bastidores da diplomacia internacional.

Reflexo geopolítico

"A transferência de tecnologia tem um reflexo geopolítico importante", diz Romano, da Universidade Federal do ABC. "O Brasil já não é só um país que compra (aparato militar). O Brasil já desenvolve o submarino nuclear. Agora poderá produzir caças aqui. Já não é mais um país pão e água".
Romano diz que "poucos países tem poder de compra desse tamanho" e esse fator, por si, será observado por outros países, embora não necessariamente aumente o status do Brasil no sistema internacional de segurança.
Mas para o diretor do Grupo de Estudos de Defesa e Segurança Internacional da Unesp (Univesidade Estadual Paulista), Samuel Soares, um dos principais reflexos pode se dar na vizinhança sul-americana. E não se trata nesse caso de impor respeito, mas de conquistar um mercado para os futuros caças produzidos no Brasil.
"Quem sabe esse não seja o pilar de uma indústria de defesa subregional sul-americana, que pode reforçar a Unasul (União das Nações Sul-Americanas), que prevê isso", diz Soares.
"Além disso, com quem se coopera não se faz dissuasão", diz Soares, salientando que caso esse mercado regional se estabeleça, a tendência é um ambiente ainda mais pacífico no cenário regional sul-americano, que seria outro objetivo da política externa brasileira.

Os caças e as eleições

A decisão do governo pela compra dos caças pode eventualmente colocar a política externa e de defesa no debate eleitoral de 2014, o que é incomum em eleições no Brasil.

Segundo os especialistas, grupos de oposição podem contestar o gasto bilionário, lembrando da carência em setores fundamentais, como educação e saúde.

Mas para Samuel Soares, da Unesp, "Dilma também pode se colocar como quem acabou com o impasse" em torno das compras dos caças, que se arrastavam desde o governo Fernando Henrique Cardoso.


BRASIL = TENDÊNCIAS + FUTEBOL - EDUCAÇÃO

Nós somos trouxas mesmo, vergonha é viver num país em que não há saúde e educação decente para nossos filhos, um país onde a corrupção impera e o descaso com a população nunca acaba, vergonha é não podermos ter a certeza de que nossos filhos possam ir para escola, ou para o trabalho, ou para o lazer e consigam voltar para casa vivos.
Vivemos num país onde se exalta e cultua mais o futebol do que uma educação de qualidade. Sem educação de qualidade, o nosso país não progride. É claro que se mirarmos numa meta ou num objetivo, podemos alcançar sim, mas num contexto global se não tivermos programas sociais consistentes e progressivos, a nossa sociedade será cada vez mais obscura, egoísta e violenta. 

Mencionei que somos trouxas porque num todo a nossa sociedade é baseada nas tendências impostas pelo cotidiano (vide o viral futebolístico nojento que ronda o facebook) e nós nos baseamos em inverdades impostas por determinados núcleos de opinião. 

A luta individual é sempre válida e eu apoio, porém poderíamos ser maiores se o macro pudesse ter essa luta com mais consciência.



quarta-feira, 18 de dezembro de 2013

Curtindo Adoidado: A vida e as tentações de Keith Richards

Em 1973, os editores do New Musical Express puseram Keith Richards, principal guitarrista e alma musical dos Rolling Stones, no topo de sua lista anual de “estrelas do rock com maior probabilidade de morrer” naquele ano. Mesmo para um roqueiro, Richards consumia quantidades hercúleas de heroína, cocaína, mescalina, LSD, peiote, Mandrax, Tuinal, maconha, bourbon e demais refrescos, e todos os observadores achavam que ele estava com os dias contados. Àquela altura, a lista de baixas do rock era longa e agourenta: Jimi Hendrix, Jim Morrison e Janis Joplin eram apenas os nomes mais célebres a encabeçar o obituário. Em 1969, Richards e seus colegas dos Stones haviam perdido Brian Jones, que se afogara numa piscina poucas semanas depois de ser demitido da banda. Em vez de preservar sua mortalidade, Richards preferia exibi-la de forma acintosa. Registrou para a posteridade seu quase constante torpor dando livre acesso a Robert Frank, Annie Leibovitz e outros fotógrafos, que o captaram nos camarins ou em quartos de hotel, seminu e completamente doidão. Ao ver aquelas imagens de Richards, largado, chapado e leso, imaginava-se que era uma questão de dias para que a imprensa anunciasse que ele havia morrido sufocado em seu próprio vômito.




Na realidade, Richards foi em frente, tropeçando pelos concertos numa névoa narcótica, dormindo durante os ensaios, sempre à beira do olvido e, mesmo assim, produzindo junto com Mick Jagger parte da música pop mais memorável da época. Entre 1968 e 1972, os Stones gravaram Beggars Banquet, Let it Bleed, Sticky Fingers e Exile on Main St., a essência do repertório deles. Continuaram a tocar essas músicas por tanto tempo quanto Sinatra cantou Love and Marriage. A peculiaridade dos Stones se devia menos aos vocais de Jagger do que à capacidade de Richards de absorver o estilo blues das guitarras de Chuck Berry e Jimmy Reed, criando algo novo. Havia músicos muito mais técnicos, solistas muito melhores, mas a noção de ritmo e de riff dele, o seu bom gosto, seus acordes sustentados e espaços abertos marcaram o som dos Stones. E, ao longo de tudo isso, a Indesejada não conseguiu entrar no camarim. Depois de deixar Keith Richards no topo da lista de seu observatório da morte por dez anos, o New Musical Express finalmente jogou a toalha e admitiu que ele era imortal.

Faz trinta anos que os Stones não compõem uma canção importante, mas eles sobreviveram quatro décadas além dos seus grandes contemporâneos, os Beatles. E mesmo que a originalidade deles tenha se esvaído, suas máquinas empresarial e de produção de espetáculos foram afinadas à perfeição. Desde 1989, os Stones arrecadaram mais de 2 bilhões de dólares em receita bruta, ajudados por acordos de patrocínio com Microsoft, Anheuser-Busch e E*Trade. As firmas Promotour, Promopub, Promotone e Musidor – todas com sede na Holanda por motivos fiscais – cuidam dos vários ramos das atividades empresariais dos Stones. Tudo é supervisionado por equipes de contadores, advogados de imigração, especialistas em segurança e, até muito recentemente, um aristocrático consultor de negócios chamado príncipe Rupert zu Loewenstein-Wertheim-Freudenberg. Mesmo nos anos sem excursões ou discos, os Stones dão um jeito de ganhar algum. Licenciaram Start Me Up para a Microsoft, quando a companhia lançou o Windows 95, e She’s a Rainbow para a Apple, quando uma linha de iMacs precisou de promoção. De acordo com a Fortune, os Stones estão por trás da comercialização de cerca de cinquenta produtos, inclusive roupas de baixo vendidas pela cadeia de lingerie Agent Provocateur. A logomarca deles – uma linguona lasciva para fora de uma boca que sorri – é tão reconhecível na paisagem dos negócios quanto os arcos dourados do McDonald’s.




“Essa coisa de negócios depende muito das leis fiscais”, Keith Richards contou à Fortune. “É por isso que ensaiamos no Canadá e não nos Estados Unidos. Muitas das nossas manobras espertas têm a ver fundamentalmente com a natureza das leis fiscais: aonde ir, onde não pôr nosso dinheiro. Botar debaixo do colchão ou não. Saímos da Inglaterra porque pagaríamos 98 centavos por cada dólar ganho. Fomos embora e eles é que perderam. Não vão receber um tostão de impostos. Não quero ferrar ninguém, muito menos os governos com quem trabalho. Deixamos 30% numa conta parada até resolver tudo.” Keith pode imaginar que é um símbolo de 68, mas emprega a política fiscal do mais radical dos conservadores.

No último tour que fizeram, entre 2005 e 2007, os Stones faturaram mais de meio bilhão de dólares – foi a mais lucrativa excursão da história. Na praia de Copacabana, no Rio de Janeiro, tocaram para mais de 1 milhão de pessoas. Poucos espetáculos da vida moderna são tão sublimemente ridículos quanto os integrantes geriátricos dos Stones tocando os acordes iniciais de Street Fighting Man. A plateia costuma ficar lotada de fãs de meia-idade que, ao sair do escritório, vestiram um jeans largão, deixaram as crianças com a babá e desembolsaram 200 ou 300 dólares para rebolar junto com Mick Jagger. Este, por sua vez, tendo treinado para as excursões como se fosse uma final de campeonato, saracoteia sem parar durante as duas horas de show; nos melhores momentos, lembra um epígono de James Brown; nos piores, a tia bêbada decidida a estragar o casamento da irmã mais bonita com uma performance patética na pista de dança. Desde 1975, “a excursão do pau inflável gigante”, como gosta de dizer Richards, os Stones tentam se superar com lances espetaculares. Às vezes, vão longe demais. “Teve aquela coisa de pôr elefantes no palco em Memphis”, diz Richards, “mas eles destruíram as rampas e cagaram o palco todo nos ensaios. A ideia não foi pra frente.” Noves fora os micos, o que acabamos por admirar é a improvável persistência dos Stones, uma entidade de quase meio século, que, aos trancos e barrancos, segue cômica e persistentemente adiante. Os rapazes estão chegando perto dos 70 anos. Enrugados, tingidos e esqueléticos, eles trovejam um repertório que a esta altura é tão augusto e imutável quanto as Variações Diabelli, de Beethoven. “De vez em quando, você olha para os próprios pés e pensa ‘é a mesma merda de sempre todas as noites’”, disse Richards. No entanto, ele continua a tocar e as multidões continuam pagando, relutantes em abandonar o último elo com seus anos dourados.

O mais novo artefato da longevidade da banda é a animada autobiografia de Keith Richards, cujo título desafiador é simplesmente Vida, lançada no Brasil pela editora Globo. Parte livro, parte extensão da marca, trata-se de um monólogo divertido e divagante, uma viagem leve pela vida de um homem que conheceu todos os prazeres, se permitiu tudo e nunca pagou o preço. “Você talvez não consiga sempre o que quer”, canta Jagger em You Can’t Always Get What You Want. Mas essa regra não se aplica a Keith.





Uma advertência óbvia: as memórias de um homem cuja memória está enevoada por incontáveis anos de obliteração narcótica são memórias de um gênero bem particular. Em 1978, quando lhe perguntaram por que os Stones haviam chamado seu último disco de Some Girls, Richards respondeu: “Porque a gente não se lembrava do nome de nenhuma delas.” Não obstante, a editora americana Little, Brown pagou 7 milhões de dólares a Richards para produzir o livro. Ele, por sua vez, escolheu um ghost-writer de talento – James Fox, o autor de White Mischief, uma história bem contada do assassinato de Josslyn Hay, o 22º conde de Erroll, um dos muitos expatriados dissolutos que viveram em Happy Valley, nos arredores de Nairóbi, no Quênia. Para Fox, escrever sobre as drogas, as aventuras sexuais e o tédio requintado de Happy Valley foi uma boa preparação paraVida.

Richards e Fox sabem por que o leitor desembolsou o dinheiro do livro: pelo mesmo motivo que, ainda hoje, trinta anos depois de largar a heroína, Keith cambaleia pelo palco com um sorriso maníaco e diz para a multidão em delírio: “É um prazer estar aqui! Aliás, é um prazer simplesmente estar!” É o excitamento de ouvir alguém que jamais passou um dia entre as quatro paredes de uma fábrica ou de um escritório, consumiu o que havia para ser consumido e sobreviveu para contar a história. Esse é o homem que inventou o refrão de (I Can’t Get No) Satisfaction enquanto dormia e, no entanto, teve mais satisfações do que jamais imaginou Giacomo Casanova. Assim, Vida tem urgência em realçar o Mito de Keef e nos oferecer o que desejamos. O livro começa com uma longa cena da excursão dos Stones pelo Sul dos Estados Unidos em 1975, os carros lotados de narcóticos de primeira classe – “cocaína pura da Merck, o pó farmacêutico fino”. Mas na cidadezinha de Fordyce, Arkansas, população de 4 237 habitantes, Richards arranja confusão com a polícia. Segue-se uma narrativa grotesca de mau comportamento dos Stones diante da Justiça sulista. Richards, que acabou de se vangloriar para o leitor da posse e ingestão de vastas quantidades de droga, se faz de desentendido quando lhe dizem que enfrentará uma possível condenação à prisão. Da qual, como de costume, ele se esquiva.




Richards se gaba do seu metabolismo. Não somente narra sua “viagem movida a ácido com John Lennon”, como faz questão de nos dizer que Lennon “não conseguia acompanhar”. E relembra: “Ele tentava tomar tudo o que eu tomava, mas eu treinava duro. Um pouco disso, um pouco daquilo, uns tranquilizantes, umas bolinhas, coca e pó, e depois eu ia trabalhar. Eu era alucinado. E John acabava invariavelmente no meu banheiro, abraçado ao vaso.”

Às vezes, o livro parece uma versão sem consequências de Junky, de William Burroughs. Num trecho longo, Richards descreve sua dieta diária:

Eu tomava um barbitúrico para acordar, de efeito recreativo em comparação com a heroína, mas nem por isso menos perigoso. Isso era o café da manhã. Um Tuinal, fazia um furinho com uma agulha, para fazer efeito mais rápido. Depois tomava uma xícara de chá, e então matutava sobre levantar ou não da cama. E mais tarde, quem sabe um Mandrax ou Quaalude. Senão eu ficava com energia demais para queimar. Desse jeito, você acorda devagar, já que tem tempo. E quando o efeito passa, depois de umas duas horas, você se sente relaxado, come alguma coisa de café da manhã e está pronto para o trabalho.

Richards se orgulha de muitas coisas, inclusive de sua capacidade de ficar acordado durante dias. Seu recorde de todos os tempos foi uma sequência de nove dias sem dormir à base de cocaína, ao final da qual ele simplesmente desabou e bateu com a cabeça num alto-falante: “Saiu uma cortina de sangue.”

Esse aspecto do livro, a narrativa do viciado, é o capítulo mais recente de uma tradição que data do romantismo e de Thomas de Quincey, com suas visões causadas pelo ópio, povoadas de crocodilos e outros “monstros indizíveis”, de Crabbe, Coleridge, Byron, Baudelaire – uma lista infindável. Mais especificamente, Vida pertence à subcategoria das memórias de músicos viciados: Straight Life, de Art Pepper, High Times Hard Times, de Anita O’Day, Raise Up Off Me, de Hampton Hawes, e a colaboração fantasticamente obscena de Miles Davis com Quincy Troupe.

Quando terminei o livro de Richards, li várias dessas memórias do jazz, bem como biografias de outros gênios viciados, como Billie Holiday e Charlie Parker. Depois de revisitar o desespero, as drogas vagabundas, as condenações à prisão, as vidas encurtadas, achei que havia algo quase repugnante no ego e no espírito jovial do sortudo Keith. Ele tem muitos conselhos disparatados para o candidato a junkie voyeur: nada de drogas injetáveis, tome apenas as drogas mais puras e de melhor qualidade e, por favor, nunca exagere. (“Olha, eu não devia dizer nunca; eu às vezes ficava totalmente cataplético.”)

Richards admira a música de seus predecessores e superiores, mas não sente a dor deles. Está protegido dos dramas normais dos drogados por camadas e camadas de advogados, dinheiro, e privilégios. Charlie Parker compôs Relaxin’ at Camarillo depois de sair de um manicômio na cidade homônima da Califórnia. Richards fez Exile on Main St. quando era um exilado do fisco morando numa propriedade rural em Villefranche-sur-Mer. Nos intervalos entre picos e ensaios, ele cruzava o Mediterrâneo numa lancha de corrida atrás de socialites europeus: “Dávamos uma parada em Monte Carlo para almoçar. Batíamos papo com a turma do Onassis ou do Niarchos, que atracavam iates imensos por lá.”

Outro aspecto inevitável das memórias ou biografias do rock é o catálogo de conquistas sexuais e, sobre esse assunto, Richards é quase tímido. Ele nos conta que seus colegas Jagger e Bill Wyman tabulavam friamente suas conquistas. Keith é do tipo passivo. São as mulheres que o procuram. “Nunca dei uma cantada numa mulher em toda a minha vida”, diz. E, no entanto, descreve com prazer como roubou a modelo e artista teutônica Anita Pallenberg de Brian Jones enquanto desciam para o Marrocos num Bentley:

Anita e eu nos olhamos e a tensão no banco de trás ficou tão alta que, quando vejo, ela está me pagando um boquete. Aí a tensão se rompeu. Ufa. E de repente, estávamos juntos. [...] Durante mais ou menos uma semana é fuque-fuque-fuque lá na Kasbah, nós dois com um tesão de coelho, se perguntando como tudo isso ia acabar.

No fim das contas, Richards e Pallenberg resolveram morar juntos. Formam um casal e tanto, jovens junkies apaixonados, constantemente driblando a prisão. Mas não conseguem driblar a tragédia. Em 1976, enquanto Keith estava em excursão, o terceiro filho dele com Pallenberg, um bebê chamado Tara, morreu no berço. Eis a maneira ponderada como Richards exprime o seu pesar: “Nunca conheci o filho da puta, ou mal o conheci. Troquei as fraldas dele duas vezes, acho. [...] Até hoje, Anita e eu não falamos a respeito.” Isso vai muito além dos limites normais da reserva.

O vício e o mau comportamento de Pallenberg são demais até para Richards. O problema não é tanto ele estar convencido de que ela teve um caso com Jagger – seu terceiro Stone! – mas o fato de ela superar os limites de Keith no departamento “decadência”. “Ela era incontrolavelmente autodestrutiva”, escreve ele. “Era como Hitler; queria que todos afundassem com ela.” Por fim, Richards encontra a felicidade e uma existência muito mais estável com uma modelo americana chamada Patti Hansen.

Richards é grosseiro com muita gente nesse livro, assim como foi em numerosas entrevistas dadas ao longo do tempo. Ele acha que isso faz parte do seu charme de malandro. Diz que os punks não têm talento. Elogia o U2 uma ou duas vezes, mas desconsidera todo mundo, de Prince (“um anão supervalorizado”) a Elton John (“uma puta velha”) e Bruce Springsteen (“Se houvesse coisa melhor por aí, ele ainda estaria tocando nos bares de Nova Jersey”). Os que não acompanham essas coisas de perto podem se surpreender ao ver como Richards pode ser duro com Mick Jagger, ao qual se refere às vezes como “Brenda” ou “Sua Majestade”. Ele não suporta as pretensões de Jagger, seus “cálculos”, seu excesso de atenção aos negócios, sua ânsia pela aprovação do establishment e sua tendência ocasional de tratar Richards e os outros membros da banda como empregados. Ele o retrata como cheio de frescuras, triste, alguém que só pensa em si mesmo: “É quase como se Mick Jagger aspirasse a ser Mick Jagger, correndo atrás de seu próprio fantasma. Com a ajuda de consultores de estilo. [...] Eu adorava andar com Mick, mas não entro em seu camarim acho que faz uns vinte anos. Às vezes, sinto saudades do meu amigo.” Richards, que vive como um fidalgo em propriedades rurais muradas na Inglaterra e em Connecticut, concede que Jagger é seu “irmão” e terá sempre seu apoio, mas claramente se considera mais original como homem e como músico.

Há leitores que se deliciarão com a autoimagem de Richards como o espertalhão que sempre se dá bem, mas, para mim, as seções mais fascinantes do livro são as histórias de sua evolução, o modo como sua amizade de adolescência com Jagger e o amor que os dois tinham por seus heróis do blues levaram rapidamente à formação da Maior Banda de Rock do Mundo. É uma história já narrada muitas vezes, mas Richards e Fox a contam muito bem.

Keith Richards e Mick Jagger eram crianças na Londres do pós-guerra e colegas de escola na Wentworth Primary School, em Dartford. Keith era filho único de pais de classe operária. Seu pai, Bert, era chefe de seção numa fábrica da General Electric. Criado ouvindo jazz, blues e os sons emergentes da música pop americana, ele cantava no coro da escola. Depois que sua voz mudou, perdeu interesse pela escola e começou a frequentar a sorveteria Dimashio, onde ficava ouvindo ojukebox. “Era o único pedacinho de América em Dartford”, escreve ele. “A vida era em branco e preto; o tecnicolor estava para chegar, mas em 1959 ainda não.” À noite, ele ouvia Buddy Holly, Eddie Cochran, Little Richard e seu ídolo, Elvis Presley, na Rádio Luxemburgo. Esses foram os anos do “Despertar”, a recepção entusiástica da música americana na Grã-Bretanha. Músico iniciante, Richards interessou-se pelos acompanhantes: o guitarrista de Elvis, Scotty Moore; o arranjador e trompetista de Fats Domino, Dave Bartholomew. No Sidcup Art College, escola que preparava gente atrás de um emprego na agência de publicidade J. Walter Thompson, Richards passava o tempo vadiando e escutando discos de blues. Então, em 1961, na estação ferroviária de Dartford, ele topou com Jagger, que, como ele descobriu, era fanático por blues e colecionador de discos. Jagger tinha todos os discos da Chess Records: Muddy Waters, Chuck Berry, Howlin’ Wolf, Willie Dixon. Os dois garotos ouviam os discos sem parar.

Jagger e Richards criaram uma banda chamada, no começo, Little Boy Blue and the Blue Boys. Na primavera de 1962, eles já tinham incorporado outro guitarrista maluco por blues, Brian Jones. No mês de janeiro seguinte, ganharam a companhia de um baterista com gosto por jazz, Charlie Watts, e um baixista, Bill Wyman, cuja principal qualificação era ser dono de um amplificador Vox. Esses eram os Rolling Stones.

Enquanto a banda tomava forma, Richards aprendia a copiar a simplicidade de uma nota só de B. B. King e os solos de corda dupla de T-Bone Walker – técnica que economizou dinheiro para a banda, porque podia “eliminar a necessidade de uma seção de sopros”. Richards e Jagger tinham uma ambição simples: só queriam ser “a melhor banda de blues de Londres e mostrar àquela gente o que era tocar de verdade”. Com devoção de monge, moravam em apartamentos baratos e ensaiavam a noite inteira. “Quem saía do ninho para transar, ou tentar transar, era um traidor”, relembra Richards.

A banda tocou em clubes nos arredores de Londres com nomes como Flamingo, Ealing, Crawdaddy, Marquee e Red Lion; e, nos fluidos dias de 1963 – enquanto os Beatles, uma banda relativamente veterana, estava em ascendência – os Stones lançaram seu primeiro single, um cover de Come On,de Chuck Berry. O disco disparou nas paradas e em uma semana os Stones eram estrelas. Foi o que bastou. “De repente, estavam botando a gente nuns puta ternos xadrez pied-de-poule e fomos levados pela maré”, diz Richards. Mas os garotos logo se livraram do look pseudo-Beatles. Se deram bem do seu jeito. No início, se apresentaram na abertura de shows de Little Richard e Bo Diddley (com quem aprenderam incontáveis lições de ritmo e teatralidade), e depois como atração principal, causavam tumultos onde quer que fossem.





“Na Inglaterra, acho que durante dezoito meses, nunca conseguimos terminar um show”, lembra Richards. O repertório curto deles tinha covers de Not Fade AwayI’m a King Bee e Around and Around, mas a gritaria era tão intensa que em algumas noites a banda tocava O Marinheiro Popeyesó para ver se alguém notava. Os garotos jogavam tampinhas de garrafa e moedas; as garotas queriam despedaçar os Stones, tão profundo era o frenesi erótico. Ainda hoje, Richards parece assustado:

Jamais me esqueci do poder das adolescentes de 13, 14, 15 anos, quando estão em bando. Elas quase me mataram. Nunca temi mais por minha vida do que diante daquelas adolescentes – as que me asfixiaram me deixaram em frangalhos. Se você era apanhado por uma multidão frenética de adolescentes,  é difícil expressar o medo que elas provocam. Seria preferível estar numa trincheira lutando contra o inimigo do que encarar aquela onda assassina e irrefreável de luxúria e desejo, ou seja lá o que for aquilo – uma força desconhecida até por elas.

Depois de um show no norte da Inglaterra, a banda ficou no teatro,  esperando que a multidão fosse embora. Um velho zelador que havia ajudado na limpeza disse a Richards: “Show muito bom. Nenhum assento seco na casa.”

Quando os Stones foram pela primeira vez aos Estados Unidos, no verão de 1964, tocaram em shows depois de Bobby Goldsboro e dos Chiffons, e sofreram os insultos de Dean Martin, que os chamou de cabeludos primitivos. Chegaram até a dividir o programa com um contorcionista chamado “Incrível Homem-Borracha”, o qual, pensando bem, talvez tenha exercido uma influência decisiva nas momices de Jagger no palco. Foi somente quando, naquele mesmo ano, Jagger e Richards passaram a compor que os Stones começaram de fato a competir com os Beatles. Em 1965 lançaram Satisfaction. Num padrão que seria típico da colaboração entre os dois nas décadas seguintes, Richards criou o riff e Jagger entrou com a letra.

Na imaginação adolescente, a vantagem de ser membro de uma banda é que você acaba o dia na cama com a parceira, ou parceiras, que quiser. Não é bem assim, diz Richards: “Você pode estar nadando, ou comendo sua mulher, mas lá no fundo você está pensando sobre uma sequência de acordes ou algo relacionado a uma canção. Independente do que estiver acontecendo.”

Richards demonstra mais prazer quando descreve a sensação de tocar seu instrumento, em particular a guitarra elétrica que, diz ele, é “como se agarrar numa enguia-elétrica”. O momento de revelação em Vida é puramente musical e ocorre “no final de 1968 ou início de 1969”, depois que Richards descobre um dos segredos do blues. As seis cordas da guitarra são normalmente afinadas em mi-lá-ré-sol-si-mi. Depois de colaborar com o grande instrumentista e arranjador Ry Cooder, Richards pegou a afinação “em sol aberto”, em que a guitarra é afinada num acorde em sol: ré-sol-ré-sol-si-ré. Bluesmen do Mississipi como Robert Johnson, Son House e Charley Patton usavam essa afinação; Don Everly também, em Bye Bye Love. Richards retirou a corda mais baixa de uma Fender Telecaster afinada em sol-ré-sol-si-ré e produziu os riffs de Tumbling DiceBrown Sugar,Honky Tonk WomenAll Down the LineCan’t You Hear Me Knocking, entre outros. Qualquer pessoa que tenha tocado numa banda de garagem nos anos 60 e 70 lembra da experiência de tentar tocar essas músicas e descobrir que elas não tinham o ronco, o som ressoante que Keith Richards produz em, digamos, Get Yer Ya-Ya’s Out!, o melhor disco ao vivo dos Stones. Agora, evidentemente, é possível ir ao You Tube, escrever, digamos, Brown Sugar, aula, e aparece um garoto de 14 anos com uma câmera de vídeo e uma guitarra, ensinando a usar a afinação em sol aberto e “tocar como Keith”. O próprio Keith explica melhor: “Se você está tocando o acorde da maneira certa, consegue ouvir um outro acorde soando por trás, que você não está tocando, mas que existe. Isso desafia a lógica. O acorde está lá dizendo: ‘Vem.’”

Keith Richards está com 66 anos. É avô. Fez uma cirurgia de emergência no crânio, embora por um motivo muito Keith Richards: caiu de uma árvore em Fiji. Ele diz que leva uma “vida de cavalheiro”. Gosta bastante das aventuras marítimas de Patrick O’Brian e dos romances de George MacDonald Fraser em que o protagonista tem 90 anos e se chama Flashman. Cabe informar que ele também caiu da escada de sua biblioteca. Antes, tinha um cachorro wolfhound chamado Sífilis, hoje tem um labrador amarelo chamado Abóbora. Ele e sua mulher põem Abóbora num jatinho particular e vão espairecer na propriedade que eles têm nas ilhas Turks e Caicos, no Caribe. Gimme Shelter para valer. Ele vive como um pirata do private equity.

A idade deu a Richards um pouco de compreensão a respeito de suas próprias contradições. Ele vibra com sua vida, mas também está consciente da natureza oca de sua imagem de fora da lei: “Não há como desatar os nós do quanto representei o papel que foi escrito para mim. O anel de caveira, o dente quebrado e o lápis de olho”, escreve. “De certo modo, a persona, a imagem de como eu era antes acaba sendo um grilhão. As pessoas ainda acham que eu sou um junkie. Faz trinta anos que larguei a droga! A imagem é como uma sombra comprida. Mesmo quando o sol se põe, ainda dá para ver. Acho que em parte é porque há tanta pressão para ser daquele jeito que você acaba se transformando, pelo menos até onde dá. É impossível não acabar sendo uma paródia do que você achava que era.”

Um dos momentos mais tocantes do livro é quando os jovens Rolling Stones chegam aos estúdios de gravação da Chess, em Chicago, a Meca do blues. Um operário está pintando o teto. O nome do operário é McKinley Morganfield, mais conhecido como Muddy Waters. Os Stones estavam a caminho de uma vida de milionários e o mínimo que poderiam fazer era render homenagem aos seus heróis. Batizaram a banda com o título de uma música de Morganfield e cantaram louvores a ele e a todos os outros antepassados mais talentosos do que eles.

Richards havia escapado da Indesejada, mas não da dívida mais importante que tinha, a qual nunca deixou de reconhecer com lealdade: “Eu?”, disse Keith certa vez. “Eu só quero ser Muddy Waters. Embora eu jamais vá ser tão bom ou tão preto.”

sexta-feira, 13 de dezembro de 2013

Pátria Minha, por Vinicius de Moraes

Pátria Minha
Vinicius de Moraes

A minha pátria é como se não fosse, é íntima
Doçura e vontade de chorar; uma criança dormindo
É minha pátria. Por isso, no exílio
Assistindo dormir meu filho
Choro de saudades de minha pátria.

Se me perguntarem o que é a minha pátria direi:
Não sei. De fato, não sei
Como, por que e quando a minha pátria
Mas sei que a minha pátria é a luz, o sal e a água
Que elaboram e liquefazem a minha mágoa
Em longas lágrimas amargas.

Vontade de beijar os olhos de minha pátria
De niná-la, de passar-lhe a mão pelos cabelos...
Vontade de mudar as cores do vestido (auriverde!) tão feias
De minha pátria, de minha pátria sem sapatos
E sem meias pátria minha
Tão pobrinha!

Porque te amo tanto, pátria minha, eu que não tenho
Pátria, eu semente que nasci do vento
Eu que não vou e não venho, eu que permaneço
Em contato com a dor do tempo, eu elemento
De ligação entre a ação o pensamento
Eu fio invisível no espaço de todo adeus
Eu, o sem Deus!

Tenho-te no entanto em mim como um gemido
De flor; tenho-te como um amor morrido
A quem se jurou; tenho-te como uma fé
Sem dogma; tenho-te em tudo em que não me sinto a jeito
Nesta sala estrangeira com lareira
E sem pé-direito.

Ah, pátria minha, lembra-me uma noite no Maine, Nova Inglaterra
Quando tudo passou a ser infinito e nada terra
E eu vi alfa e beta de Centauro escalarem o monte até o céu
Muitos me surpreenderam parado no campo sem luz
À espera de ver surgir a Cruz do Sul
Que eu sabia, mas amanheceu...

Fonte de mel, bicho triste, pátria minha
Amada, idolatrada, salve, salve!
Que mais doce esperança acorrentada
O não poder dizer-te: aguarda...
Não tardo!

Quero rever-te, pátria minha, e para
Rever-te me esqueci de tudo
Fui cego, estropiado, surdo, mudo
Vi minha humilde morte cara a cara
Rasguei poemas, mulheres, horizontes
Fiquei simples, sem fontes.

Pátria minha... A minha pátria não é florão, nem ostenta
Lábaro não; a minha pátria é desolação
De caminhos, a minha pátria é terra sedenta
E praia branca; a minha pátria é o grande rio secular
Que bebe nuvem, come terra
E urina mar.

Mais do que a mais garrida a minha pátria tem
Uma quentura, um querer bem, um bem
Um libertas quae sera tamem
Que um dia traduzi num exame escrito:
"Liberta que serás também"
E repito!

Ponho no vento o ouvido e escuto a brisa
Que brinca em teus cabelos e te alisa
Pátria minha, e perfuma o teu chão...
Que vontade de adormecer-me
Entre teus doces montes, pátria minha
Atento à fome em tuas entranhas
E ao batuque em teu coração.

Não te direi o nome, pátria minha
Teu nome é pátria amada, é patriazinha
Não rima com mãe gentil
Vives em mim como uma filha, que és
Uma ilha de ternura: a Ilha
Brasil, talvez.

Agora chamarei a amiga cotovia
E pedirei que peça ao rouxinol do dia
Que peça ao sabiá
Para levar-te presto este avigrama:
"Pátria minha, saudades de quem te ama...
Vinicius de Moraes."






Rio de Janeiro: O Caos

Mais revoltante é saber que a cidade do RJ foi classificada como a pior capital do país em saúde pública pelo Ministério da Saúde (comandado pelo PT que é aliado do governador e do prefeito, ou seja, avaliação isenta), mesmo sendo uma das principais cidades em arrecadação de ISS, e sendo a cidade das obras grandiosas e dos grandes eventos. 

Fico refletindo sobre qual é a prioridade de nossa população, ao colocar os executivos das empreiteiras como governador do estado do RJ e prefeito da capital?

Mas o pior de tudo é saber que a culpa não é de um prefeito, de um secretário de saúde ou de um diretor de hospital. O sistema todo é um caos, porque é formado por nosso povo, o brasileiro do jeitinho, da Lei de Gérson. Por isso falta probidade e dignidade ao lidar com a coisa pública.

Dinheiro não falta no SUS, segundo especialistas. Falta hombridade, honestidade e capacidade gerencial aos membros do sistema, desde a presidente que não toma a iniciativa de federalizar o plano de carreira dos servidores da saúde (do diretor do hospital ao faxineiro) até o funcionário que desvia esparadrapo e seringa.

E quem sofre mais é a população que já sofre em todos os outros momentos, seja nos trajetos intermináveis entre casa e trabalho, seja na falta de acesso ao consumo, seja na falta de segurança ou de saneamento em suas comunidades.